Laetitia Vancon/The New York Times
Laetitia Vancon/The New York Times

O terror do 'caçador de plagiadores'

Stefan Weber assombra dezenas de pessoas e fatura com sua cruzada contra o roubo literário

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2021 | 05h00

As pessoas o chamam de “caçador de plagiadores”. Ele próprio se caracteriza como “meticuloso” e “obcecado”. De um jeito ou de outro, nos países de língua alemã, onde os títulos são importantes sinais de posição social, Stefan Weber é o terror de acadêmicos, políticos, celebridades e outros potenciais acusados.

O professor de comunicação austríaco encerrou a carreira de várias pessoas e dificultou a vida de muitas outras. E o que começou como um hobby se transformou em negócio com cinco “colaboradores” autônomos, trabalhando para revelar os erros de autores preguiçosos, desleixados ou espertalhões. Seu alvo mais recente: Annalena Baerbock, candidata dos Verdes na eleição do dia 26.

Weber, de 51 anos, deu início ao que se tornaria o trabalho de sua vida em 2005, quando ele próprio foi plagiado por um teólogo alemão, Joachim Fels, que explicou que seu erro em não reconhecer o trabalho do Weber em sua tese de doutorado fora resultado de um acidente editorial. Fels achou que o problema estava resolvido, mas ele não sabia com quem estava lidando.

A queixa de Weber acabou desencadeando uma investigação que revelou que 86% das primeiras 100 páginas da tese de Fels tinham sido plagiadas do trabalho de Weber. Os principais meios de comunicação fizeram uma cobertura da fraude: acompanhado por uma equipe de TV, Weber chegou a bater à porta de Fels, que acabou perdendo seu título de doutor.

Nos anos seguintes, armado com softwares comerciais e uma memória fotográfica, Weber foi atrás de figuras importantes, entre elas, mais recentemente, Baerbock. Após alegações de que ela tinha embelezado seu currículo, Weber passou o livro dela em programas de detecção de plágio. Os softwares marcaram 12 passagens como quase idênticas a outras fontes. “Fraude intencional”, disse Weber. A candidata liderava as pesquisas e seu apoio caiu para menos de 20%, embora o escândalo de plágio não seja o único fator.

Os críticos descrevem Weber como um cruzado minucioso que sente prazer no assassinato de reputações. Até mesmo seus apoiadores reconhecem que pode ser irritante sua motivação para manter escritores, acadêmicos e outros nos mais altos padrões. “Ele sempre quer ser o melhor e exige isso também dos outros”, diz Peter Bruck, ex-professor da Universidade de Salzburg, mentor de Weber.

“Sei quando irrito as pessoas com minha meticulosidade”, disse Weber, durante almoço nos arredores de Salzburgo, na Áustria. Sua obsessão criou um negócio, pelo qual ele cobra até US$ 400 por hora. A maior parte de seus clientes se enquadra em duas categorias: homens que querem desacreditar suas ex-esposas e pessoas que tentam minar a credibilidade de vizinhos.

Ele diz que recebe cerca de 50 consultas por mês, que as pessoas começaram a enviar informações sobre grandes casos, como o que ele armou contra Christine Aschbacher, ministra do Trabalho austríaca, que renunciou em janeiro após um escândalo de plágio. “É uma mina de ouro”, disse.

A maioria dos plagiadores que ele denunciou e envergonhou não perdeu seus títulos nem empregos, garante Weber, citando uma pessoa que depois se tornou comissário da União Europeia. Este ano, porém, quando ele expôs “plágio, citações erradas e pouco conhecimento de alemão” no trabalho acadêmico de Aschbacher, a ministra do Trabalho, ela deixou o cargo depois de dois dias.

Por mais de uma década, Weber promoveu o estudo do plágio como uma disciplina digna de pesquisa com financiamento público, mas foi apenas com o caso Aschbacher que o governo começou a prestar atenção. “Só depois que a política se viu atingida é que a política demonstrou algum interesse”, disse.

Agora, com financiamento do governo, ele está avaliando como as universidades da Áustria podem implantar um software de detecção de plágio e está criando uma Wiki que se tornará o guia definitivo para fontes, citações e referências adequadas. No final das contas, seu objetivo é elevar o padrão tão alto que ele vai acabar desempregado. / NYT, TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU. 

 

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