O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2015 | 02h04

Foi uma sexta-feira de terror. Num hotel na Tunísia, um terrorista assassinou turistas. No Kuwait, um homem-bomba atacou uma mesquita xiita. O Estado Islâmico assumiu a autoria da matança. Na França, uma pessoa foi decapitada numa usina de gás e o suspeito teria vínculos com grupos muçulmanos radicais. Ainda não há evidências de que os atentados tenham sido coordenados. No entanto, são claros exemplos de uma tendência: o terrorismo islâmico é uma ameaça que vem se aguçando. Mas será que esses ataques são a confirmação da teoria do "choque de civilizações", popularizada por Samuel Huntington no início dos anos 90?

Segundo o professor de Harvard, uma vez esgotado o confronto ideológico entre comunismo e capitalismo, os principais conflitos internacionais surgiriam entre países com diferentes identidades culturais e religiosas. Para muitos, os ataques da Al-Qaeda e as guerras no Afeganistão e no Iraque e o surgimento do Estado Islâmico confirmam esta visão. Mas, na realidade, o que ocorreu é que os conflitos se deram mais dentro das civilizações do que entre elas. Os noticiários e os debates fazem acreditar que o conflito mais sangrento do século 21 é o entre muçulmanos radicais e os que não o são.

Mas não é assim. As estatísticas mostram que esta é uma visão errada e os terroristas islâmicos assassinaram mais de seus correligionários do que ninguém. A briga entre xiitas e sunitas continua produzindo vítimas, em sua maioria muçulmanas. Por outro lado, também é falso que nos EUA os principais atentados tenham sido cometidos por muçulmanos radicais. São americanos racistas os responsáveis pela maior quantidade de mortes em atos terroristas no país. As estatísticas são estarrecedoras. Segundo o Índice de Terrorismo Global, em 2013, morreram quase 18 mil pessoas em ataques terroristas - 82% no Iraque, Afeganistão, Paquistão, Nigéria e Síria.

Outro estudo, da New America Foundation, revela que, desde o 11 de Setembro, as 48 mortes causadas por racistas e outros extremistas não muçulmanos nos EUA foram o dobro das provocadas por muçulmanos no país. Além disso, os ataques terroristas nos EUA são relativamente pouco frequentes. O terrorismo não vai desaparecer. O importante é combatê-lo com base em realidades.

*É MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE

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