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O texugo-do-mel, Steve Bannon, caiu engasgado

Polêmico ex-estrategista do presidente americano, Donald Trump, foi tragado pela 'areia movediça' de Washington

Hélio Gurovitz, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2017 | 05h00

Steve Bannon chegou a Washington como guardião das promessas de Donald Trump e símbolo da maior delas: “drenar o pântano”. Pois acabou tragado pela areia movediça. O que lhe sobrava em convicção, faltou em talento político. Manteve o espírito do texugo-do-mel, símbolo do Breitbart, o roedor que devora tudo o que vê pela frente. É um estilo eficaz para vencer eleições, não para lidar com pressões subterrâneas. Há tempos, os egos dele e de Trump não cabiam na Casa Branca.

Quando a "Time" dedicou uma capa a Bannon, Trump retirou-o do Conselho de Segurança Nacional. Depois, ressentiu-se do livro Devil’s Bargain, em que Joshua Green dedica mais espaço a Bannon. Acossado pelos rivais de sua visão antiglobalista, que defende uma guerra comercial contra a China, Bannon cometeu um erro fatal: deu na terça-feira uma entrevista a Robert Kuttner, da esquerdista The American Prospect, sem pedir “off”.

Contestou a estratégia de Trump na Coreia, chamou de “coleção de palhaços” os supremacistas de Charlottesville (que o Breitbart sempre afagara) e disse querer que os democratas falem de racismo todo dia. “Se a esquerda estiver concentrada em raça e identidade, e nós formos de nacionalismo econômico, esmagamos os democratas”, afirmou. Propôs uma aliança a esquerdistas que defendem o protecionismo. Queria, segundo Kuttner, que “uma possível convergência de visão sobre a China superasse o fosso político e moral a respeito do nacionalismo branco”.

Sua tática, desmerecer a questão racial para engordar a coalizão econômica, voltou-se contra ele. O conflito racial só cresceu desde a posse de Trump. A agenda anti-China não saiu do lugar. O texugo-do-mel engasgou com a própria voracidade.

Se queres um monumento…

A violência em Charlottesville começou em torno da remoção de uma estátua do general Robert Lee, líder do Exército confederado na Guerra de Secessão. O Southern Poverty Law Center identificou 718 estátuas e monumentos, 109 escolas, 80 cidades e condados, além de centenas de ruas e logradouros cujo nome homenageia confederados. Estão distribuídos por 31 Estados americanos - não apenas no Sul. Há até um memorial em Boston, Massachusetts, Estado-símbolo dos ianques na guerra contra a escravidão.

Charlottesville animou a ‘alt-right’…

Richard Spencer, o líder racista e antissemita da “alt-right”, já reservou data e local para o próximo fuzuê da extrema direita: a Universidade da Flórida, em 21 de setembro. Recentemente, Tampa, Orlando e Hollywood removeram estátuas e mudaram nomes de ruas em homenagem a confederados.

… e fez crescer o medo dos “antifas”

A liberdade de expressão no Canadá foi vítima colateral da violência neonazista em Charlottesville. Temendo protestos violentos dos esquerdistas conhecidos como “antifas”, a Universidade Ryerson, em Toronto, cancelou um debate com a presença de conservadores e críticos do discurso “politicamente correto”, que tem sufocado vozes divergentes no meio acadêmico.

O Wikileaks protegeu a Rússia?

Julian Assange recusou-se, no ano passado, a publicar no WikiLeaks um lote com 68 gigabytes de documentos comprometedores do Ministério do Interior da Rússia, revelou a Foreign Policy. Justificativa do WikiLeaks: já eram públicos. Convence?

O ciclo vicioso que une dinheiro e poder

O economista ítalo-americano Luigi Zingales, da Universidade de Chicago, lançou um novo trabalho em que critica a visão segundo a qual empresas não interferem nas regras do mercado “Quanto mais têm poder de mercado, mais têm necessidade e capacidade de conquistar poder político”, escreve. “A concentração de mercado pode levar facilmente a um ciclo vicioso, em que o dinheiro é usado para obter poder, e o poder, para obter dinheiro.” Lembra algum país?

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