O totalitarismo perde um inimigo

Ativista e ex-comunista, Semprún lutou na resistência francesa na 2ª Guerra e contra a ditadura espanhola

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2011 | 00h00

JORGE SEMPRÚN 1923 - 2011

Morreu ontem em Paris aos 87 anos o escritor e ex-ministro da Cultura da Espanha Jorge Semprún. Ex-militante comunista, ele sobreviveu aos campos de concentração da Alemanha nazista durante a 2.ª Guerra e foi uma das mais conhecidas vozes de oposição à ditadura de Francisco Franco na Espanha.

Semprún foi uma controvertida figura na cena literária europeia. Ex-comunista, denunciou todos os regimes totalitários e desagradou à esquerda espanhola ao abjurar sua militância. Colaborador da revista Les Temps Modernes e amigo de Sartre (estudou filosofia na Sorbonne), viajou clandestinamente pela Espanha em 1953.

Vivendo incógnito em Madri nos anos 1960, publicou sua primeira novela, El Largo Viaje ("A Grande Viagem", de 1963). Nesta década começou a escrever roteiros para cinema, destacando-se sua parceria com o cineasta grego Costa-Gavras, com quem colaborou em filmes clássicos, como Z (1969) e A Confissão (1970), ambos censurados pelo regime militar brasileiro e logo liberados com cortes.

A atividade de Semprún como roteirista eclipsou sua carreira de literato. Embora marcados por forte conteúdo político, seus roteiros trazem sequências de explícito conteúdo sentimental, até mesmo em Z, pelo qual ganhou um Oscar.

Vivendo em Paris, Semprún foi o primeiro escritor não nascido na França a ganhar o Goncourt, o mais reconhecido prêmio literário francês. Suas referências, aliás, são mais francesas que espanholas. Seus compatriotas receberam com reservas seu livro A Autobiografia de Federico Sánchez, em que narra sua atividade clandestina na Espanha durante a ditadura de Franco e sua exclusão do Partido Comunista em 1964, após dez anos de militância. O material autobiográfico de Semprún era farto. Já em seu primeiro livro, o escritor narra de forma ficcional sua deportação e prisão em Buchenwald pelos nazistas, contando em flashback a história de um membro da Resistência francesa.

Num outro livro, Quel Bel Dimanche!, o alvo político é o stalinismo - e o fascismo, por extensão. Semprún voltaria à terra natal apenas quando Felipe González assumiu o governo, convidando-o para o cargo de ministro da Cultura. Naturalmente bilíngue, ele começou a escrever seu primeiro livro em francês por acreditar que, tendo sido membro da Resistência, essa era a opção mais natural.

Querido no ambiente intelectual francês, é dele uma frase que abalou a esquerda francesa, a de que Marx começa O Capital dizendo que o mundo é acumulação de mercadorias. "Não há sociedades livres que não sejam fundadas numa economia de mercado", acrescentou Semprún, em entrevista histórica.

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