O triunfo errado

Republicanos venceram eleições porque impediram democratas de governar

PAUL, KRUGMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2014 | 02h02

Os velozes nem sempre vencem a corrida, os mais fortes nem sempre triunfam nas batalhas, os sábios nem sempre têm com que se alimentar - e nem sempre as eleições de meio de mandato consagram homens prudentes.

Ou, como afirmei na véspera de mais uma vitória arrasadora do Partido Republicano, a política determina quem tem o poder, não quem tem a verdade. Mesmo assim, não é sempre que um partido tão errado sobre tantas coisas se sai tão bem como os republicanos se saíram na terça-feira.

Falarei mais adiante sobre algumas razões para isso ter acontecido. Mas antes é preciso assinalar que os resultados da eleição de meio de mandato não são razão para se pensar melhor sobre a posição republicana em questões importantes.

Suspeito que alguns comentaristas matizarão sua análise para refletir o novo equilíbrio de poder. Por exemplo, fingindo mais uma vez que as propostas orçamentárias do deputado Paul Ryan são tentativas de boa-fé para colocar em ordem a casa fiscal dos EUA e não exercícios de enganação e duplo sentido. Mas as propostas políticas republicanas merecem uma avaliação mais crítica, agora que o partido tem mais capacidade de impor sua agenda.

Este é um bom momento para lembrar o quão errados os novos controladores do Congresso têm estado, sobre, bem... Tudo.

Primeiro, há a política econômica. Segundo o dogma conservador, que denuncia qualquer regulamentação da sagrada busca do lucro, a crise financeira de 2008 - trazida por instituições financeiras descontroladas - não deveria ter sido possível. Mas os republicanos não querem repensar suas opiniões nem de leve. Eles inventaram uma história imaginária em que o governo foi, de alguma forma, responsável pela irresponsabilidade dos emprestadores privados, ao combater toda e qualquer política que possa limitar os danos.

Em 2009, quando uma economia alquebrada precisava desesperadamente de ajuda, John Boehner, que em breve será o presidente da Câmara, declarou: "Já é hora de o governo apertar o cinto". De modo que aqui estamos. Com anos de experiência para examinar, as lições dessa experiência não poderiam ser mais claras. As previsões de que gastos deficitários levariam ao crescimento das taxas de juros, de que o dinheiro fácil causaria uma inflação descontrolada e derrubaria o dólar, foram todas erradas. Os governos que fizeram o que Boehner pregava, cortando gastos para enfrentar economias deprimidas, presidiram derrocadas econômicas do nível da Depressão. E as tentativas de governadores republicanos de comprovar isso cortando impostos dos ricos como um elixir mágico de crescimento fracassaram estrondosamente.

Em suma, a história da economia conservadora dos seis últimos anos foi de fiasco intelectual - agravado pela chocante incapacidade de muitos da direita admitirem erros em quaisquer circunstâncias.

Depois há a reforma do sistema de saúde, sobre a qual os republicanos foram muito claros a respeito do que supostamente devia acontecer: inscrições mínimas, mais gente perdendo seguro do que ganhando, crescimento acentuado dos custos. A realidade, até agora, implorou para discordar, apresentando inscrições acima do previsto, uma forte queda do número de americanos sem seguro-saúde, prêmios muito abaixo das expectativas e uma forte desaceleração dos gastos gerais com saúde.

E não devemos esquecer o erro mais importante de todos, sobre a mudança climática. Já em 2008, alguns republicanos estavam dispostos a admitir que o problema era real e até defenderam políticas sérias para limitar emissões - o senador John McCain propôs um sistema de negociação de emissões similar às propostas democratas. Mas agora o partido é dominado por negacionistas da mudança climática e, até certo ponto, por teóricos da conspiração que insistem em que a questão toda é um embuste montado por uma camarilha de cientistas de esquerda. Essas pessoas estarão em posição de bloquear a ação nos próximos anos.

Dúvida essencial. Se os republicanos estiveram tão completamente errados sobre tudo, por que os eleitores lhes deram tamanha vitória? Parte da resposta é que republicanos importantes conseguiram esconder suas verdadeiras posições. Mais notavelmente, talvez, o senador Mitch McConnell, o líder da nova maioria, conseguiu transmitir a impressão inteiramente falsa de que Kentucky poderia conservar seus impressionantes avanços na cobertura de saúde mesmo que o Obamacare fosse repelido.

Mas o maior segredo do triunfo republicano certamente reside na descoberta de que o obstrucionismo à beira da sabotagem é uma estratégia política vencedora. Desde o primeiro dia do governo Obama, McConnell e seus colegas fizeram tudo que podiam para solapar uma política efetiva, em particular bloqueando cada esforço para fazer a coisa óbvia - aumentar gastos em infraestrutura - num momento de taxas de juro baixas e desemprego alto.

Isso foi, como se revelou, ruim para os EUA, mas bom para os republicanos. A maioria dos eleitores não sabe muito sobre os meandros da política, nem compreende o processo legislativo. Assim, tudo que eles viram foi que o homem na Casa Branca não estava produzindo prosperidade - e puniram o seu partido.

Será que as coisas mudarão agora que o Partido Republicano não poderá tão facilmente se furtar à responsabilidade? É o que veremos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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