O último ato do general paquistanês

Desesperado para manter-se no poder, Pervez Musharraf descartou o sistema constitucional do Paquistão e declarou estado de emergência. Seu objetivo? Sufocar o Judiciário independente e a mídia livre. De modo habilidoso, ainda que descarado, ele tenta vender a iniciativa como um esforço para criar estabilidade e ajudar a combater o terror. Nada poderia ser mais distante da verdade. Se a história do Paquistão serve de exemplo, sua decisão de impor a lei marcial pode ser a proverbial gota d?água.Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 nos EUA voltaram os holofotes internacionais para Musharraf quando ele aceitou abandonar o Taleban e apoiar a guerra ao terror liderada por Washington. Musharraf enviou o Exército paquistanês às áreas tribais na fronteira com o Afeganistão. Mas as operações na região contra forças do Taleban e da Al-Qaeda tiveram sucesso apenas relativo.Embora os EUA vissem Musharraf como um agente de mudança, ele nunca conseguiu legitimidade política doméstica. Suas políticas eram vistas como contraditórias. Fez alianças com forças políticas islâmicas e ao mesmo tempo alinhou-se a líderes políticos moderados e influentes, alegando defender a "moderação esclarecida". Uma série de operações militares mal planejadas nas áreas tribais complicou ainda mais a situação na volátil região da fronteira.Em março, Musharraf deu o passo mais ousado, destituindo o presidente da Suprema Corte, o juiz Iftikhar Chaudhry. Centenas de milhares de cidadãos comuns exigiram o respeito à lei e à Constituição, fortalecendo o Judiciário e mudando a dinâmica política do país. Numa decisão histórica que Musharraf viu-se obrigado a aceitar, a própria Suprema Corte reinstaurou seu presidente em julho. Com nova energia, o Judiciário continuou a pronunciar-se contra decisões oficiais, constrangendo o governo.Musharraf e seus aliados políticos tentaram adaptar-se à nova realidade, mas sua paciência acabou quando a Suprema Corte aceitou petições contra a decisão do presidente de disputar um novo mandato. Pela Constituição, um militar na ativa não pode concorrer a um cargo eletivo. Musharraf não estava pronto para abandonar seu posto militar, mas também queria ser um presidente civil. Embora ele tivesse anunciado que deixaria o cargo militar "se" fosse eleito presidente, seu histórico de quebra de promessas preocupava o Judiciário.Sem saída, Musharraf decidiu abandonar a constitucionalidade, destituindo os principais juízes da Suprema Corte. Advogados, ativistas pró-direitos humanos e líderes políticos foram presos. Há um ressentimento público generalizado em reação a essas medidas. Em vez de assumir a responsabilidade pela deterioração da segurança e pela crescente talebanização das áreas tribais, Musharraf tentou culpar o Judiciário e a mídia.É improvável que a última jogada de Musharraf tenha sucesso, pois sua popularidade está no ponto mais baixo. As Forças Armadas do Paquistão - alvos permanentes dos homens-bomba - estão desmoralizadas. É difícil imaginá-las ao lado de Musharraf na eclosão de um conflito civil. Tampouco é plausível que um presidente fraco, assediado e desorientado possa combater a militância islâmica com eficácia ou trazer estabilidade política ao Paquistão.Os partidos de oposição estão se unindo. E a ex-premiê Benazir Bhutto, apesar do progresso nas negociações sobre a partilha do poder com Musharraf, condenou firmemente suas ações. Como esperado, organizações de defesa dos direitos humanos, associações da mídia e ordens de advogados desafiam o estado de emergência. Terroristas também podem se beneficiar atacando um Exército distraído. No caso de protestos prolongados e violência em potencial, os comandantes militares poderão optar por destituir Musharraf - uma decisão que não seria inédita na história cronicamente turbulenta do Paquistão.*Hassan Abbas serviu nos governos de Benazir Bhutto e de Pervez Musharraf. É pesquisador da Escola de Governo Kennedy, na Universidade de Harvard, e autor de ?Pakistan?s Drift into Extremism: Allah, the Army and America?s War on Terror?

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