O último homem de Bin Laden

Testemunha diz que remanescente da célula da Al-Qaeda que executou os atentados de 11/9 está no Paquistão

Holger Stark, Der Spiegel, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2011 | 00h00

Certo dia, em maio de 2010, um dos criminosos mais procurados do mundo apareceu em Mir Ali, cidade no coração do Waziristão, área tribal e sem lei do Paquistão. Ele mancava muito e estava acompanhado pela mulher e pelos filhos. Juntos, estavam procurando por uma casa na qual alguns alemães já moravam havia algum tempo. Eles tinham vindo de Hamburgo para participar da jihad e lutar. O boato sobre a presença deles se espalhou por Mir Ali, um caldeirão de militância islâmica perto da fronteira com o Afeganistão.

Quando o visitante ferido bateu na porta dos jihadistas alemães, eles logo começaram a conversar. O visitante também era de Hamburgo. Seu nome era Said Bahaji. Era um dos conspiradores envolvidos nos ataques de 11 de setembro de 2001. O cartaz de procurado com a foto dele está afixado em aeroportos e estações ferroviárias e na página do Gabinete Federal de Investigação Criminal (BKA), a polícia federal alemã. A imagem revela um jovem de aparência séria, pele pálida e lábios curvados, uma barba cuidadosamente aparada e cabelo preto, bem penteado.

Em Mir Ali, os alemães começaram a conversar amistosamente como se estivessem sentados em torno de uma fogueira, cheios de romantismo revolucionário. Bahaji contou que estava viajando sem documentos pelo Paquistão depois de ter sido obrigado a abandonar seus registros de identidade alemã quando os americanos lançaram um ataque aéreo que obrigou os combatentes locais a bater em retirada. De fato, soldados paquistaneses encontraram o passaporte dele em 2009, numa cabana abandonada de uma vila do Waziristão.

Bahaji permaneceu em Mir Ali por bastante tempo naquele dia. Parecia que ele estava saudoso da companhia de pessoas que, como ele, eram da Alemanha. Foi somente ao anoitecer que ele partiu com a mulher e os filhos - desaparecendo mais uma vez sem deixar traço nenhum na terra de ninguém que é a fronteira entre Paquistão e Afeganistão.

Origens. Said Bahaji, de 36 anos, é um dos últimos fugitivos que restam da célula da Al-Qaeda em Hamburgo, responsável por desencadear sobre o mundo uma onda de terror. Ele deixou a Alemanha oito dias antes da "operação terça -feira santa", como os ataques do 11/9 são conhecidos entre os agentes da Al-Qaeda. Seus amigos, os pilotos suicidas liderados por Mohammed Atta, estão mortos - assim como o líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden. Os principais responsáveis pelo planejamento dos ataques, Khalid Sheikh Mohammed e seu parceiro Ramzi Binalshibh, estão atrás das grades em Guantánamo. Mohammed Zammar, que recrutou agentes para a organização, está numa prisão em Damasco.

Bahaji é um fenômeno fascinante. Ele conseguiu sobreviver por meio da subsistência nas montanhas do Waziristão durante os últimos dez anos, numa das regiões mais perigosas do mundo. Sobreviveu à batalha pelo Afeganistão, na qual combateu os americanos ao lado de Bin Laden. Escapou dos ataques com aeronaves não tripuladas, das forças especiais da CIA e das equipes de investigadores do BKA, que o rastrearam durante todos estes anos - e ficaram eletrizados quando souberam do encontro em Mir Ali.

A testemunha ocular da visita é Rami Makanesi, alemão de ascendência síria nascido em Hamburgo que foi detido em junho de 2010 no Paquistão e está agora cumprindo uma sentença de 4 anos e 9 meses na cidade de Weiterstadt, no centro da Alemanha. Depois de ser preso, Makanesi tornou-se uma testemunha-chave. Ele forneceu informações a respeito das estruturas locais da Al-Qaeda - e a respeito de Bahaji e sua família. Suas afirmações foram complementadas por Ahmad Sidiqi, outro radical islâmico detido posteriormente que esteve no Waziristão na época e reuniu-se com Bahaji duas vezes.

Nascido em 1975, Bahaji cresceu em meio a duas culturas, na Alemanha e no Marrocos. Passou a maior parte da infância na cidadezinha de Haselünne, na Baixa Saxônia (norte da Alemanha). Sua mãe, Anneliese, que se casou com um marroquino em 1974, o apelidava carinhosamente de Saidchen ("pequeno Said", em alemão). O pai dele era dono de uma casa noturna perto de Cloppenburg e servia ele mesmo as cervejas no balcão, mas o empreendimento não prosperava.

Quando Bahaji tinha 9 anos, a família inteira, incluindo o pastor alemão de estimação, mudou-se para a cidade de Meknes, no Marrocos. Foi somente em 1995, depois de se formar no ensino médio, que ele voltou ao norte da Alemanha e matriculou-se na Universidade Técnica de Hamburgo-Harburg como estudante de engenharia elétrica, concentrando-se nas ciências da computação. Conheceu Ramzi Binalshibh e Mohammed Atta, homens que posteriormente se tornariam os líderes da célula de Hamburgo.

Radicalização. Bahaji tinha mudado desde o seu retorno do Marrocos para a Alemanha. Sua interpretação do Islã era agora tão radical que sua irmã pediu a um de seus professores que tentasse exercer uma influência moderadora sobre Bahaji. Said tinha se tornado um fanático religioso que insistia à sua família que evitasse beber Coca-Cola e fumar cigarros Marlboro. Dizia que eram produtos de Satã.

A família de sua futura mulher também reparou no seu dogmatismo religioso. "Corte a barba, você parece um velho", dizia-lhe o sogro. Bahaji ignorou o pedido. Quando pregou à prima de sua mãe que esmalte de unha e álcool não eram adequados para mulheres dignas, ela o expulsou de sua casa. Bahaji simplesmente sorriu, levantou-se e partiu.

Ele pediu à administração da universidade um quarto "no estilo de nossos colegas protestantes", conforme escrito por Said. Ele disse que a criação de um grupo de estudos islâmicos seria "um sinal de tolerância". Quando a nova turma de estudantes do primeiro ano se reuniu para uma sessão plenária, ele lhes contou a respeito do grupo de estudos islâmicos que ele criara com Atta e Binalshibh. Um estudante perguntou: "Do que se trata? Fundamentalismo?" "É claro", respondeu Bahaji, sorrindo. "Mas sinta-se à vontade para nos visitar, não estamos apenas construindo bombas.Nunca planejamos um ataque."

De acordo com relatórios iniciais do BKA, Bahaji "foi identificado como o especialista em logística entre os perpetradores", mas ele negou repetidas vezes ter conhecimento dos planos para a "terça-feira santa".

Quando Bahaji fugiu para o Paquistão no dia 3 de setembro de 2001 - supostamente para começar um período de intercâmbio numa empresa de software em Karachi -, os ataques ainda não tinham ocorrido e ele ainda não era um homem procurado. Mas jovens partidários da Al-Qaeda disseram ter visto Bahaji em campos da Al-Qaeda em Kandahar e em Cabul, no Afeganistão, durante os dias posteriores ao 11/9.

Na viagem de avião de Hamburgo até Karachi, ele tinha se desfeito de sua antiga identidade. Não chamava mais a si mesmo de Said Bahaji, e sim de Abu Zuhair. Depois de chegar à região, Bahaji logo mergulhou profundamente no mundo dos radicais. Quando os americanos atacaram o Taleban e a Al-Qaeda em outubro de 2001,ele lutou ao lado de Bin Laden.

Nova função. Quando a polícia alemã entrevistou Makanesi em outubro de 2010 na prisão de Weiterstadt, os investigadores tinham um acervo de fotos de suspeitos da Al-Qaeda. A foto número 24 era um retrato de Bahaji. "Ele está completamente diferente agora", disse Makanesi. "Sua barba e seu cabelo são compridos."

Bahaji não poderia ser descrito como "um xeque", diz Makanesi, porque não é um dos líderes de campo. Ele diz que Zuhair é "apenas uma pessoa que é muito respeitada por estar envolvida há tanto tempo" e por ter vivenciado em primeira mão a ocupação americana. Bahaji tornou-se agora a voz da jihad. É porta-voz da Al-Sahab, produtora de mídia da Al-Qaeda. "Ele lê os textos em voz alta em árabe", diz Makanesi. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM XANGAI

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