Jack Guez / AFP
Jack Guez / AFP
Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O último tango de Binyamin Netanyahu em Jerusalém

Primeiro-ministro de Israel é tão inteligente, tão imperioso, tão eloquente, que não se pode prever nada

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2019 | 05h37

Os israelenses voltam hoje às urnas para eleger seus representantes. Não é preciso dizer que o primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, está à frente do partido de direita, o Likud, há 10 anos. Como ele é sagaz, seguro de si, eloquente e nem um pouco tímido, essas eleições são para ele uma “tarefa simples”. Mas, desta vez, elas assumem um caráter singular. 

Pela primeira vez, Netanyahu perde sua soberba. Em geral, ele costuma fazer campanhas mínimas, um pouco desdenhoso. Este ano, abandonou seu “orgulho”, fez reuniões – com o grande talento de sempre –, usou as redes sociais e respondeu a perguntas de jornalistas na TV.

Ao mesmo tempo, ele multiplicou os anúncios para atestar que, uma vez eleito, liderará uma política firme em relação a tudo o que se refere aos palestinos.

No último conselho de ministros, ele se ocupou da Cisjordânia. Legalizou uma colônia perto de Jericó. Alguns dias antes, havia prometido que anexaria o Vale do Jordão.

As razões para esse ativismo? Netanyahu, seja pela perversa conjuntura ou por falta de tato, sabe que sua presença perpétua está em posição delicada. 

Certamente, ele conseguiu alguns importantes feitos. Atualmente, ele deve se aliar ao rabino Meir Kahane, que é racista e xenófobo, e ao partido fundamentalista Noam, que se retirou da luta.

Segundo pesquisas, mesmo com essas adesões, ainda lhe faltariam de 7 a 10 assentos para alcançar uma maioria tranquila. 

Às dificuldades de Netanyahu acrescenta-se outro elemento, menos político do que psicológico. Ficamos impressionados quando analisamos a principal equipe política israelense pelo número de ex-amigos, apoiadores, colaboradores de Netanyahu que se apresentam nessas eleições, mas em campos opostos ao Likud. Parece uma bola de “fantasmas”, os antigos amigos de Bibi.

É o caso de Avigdor Lieberman, cuja carreira seguiu a de Netanyahu até a ruptura. O veredicto de Avigdor é cruel: “Binyamin pode ser mais inteligente que as pessoas de seu grupo, mas está sozinho no topo porque se importa apenas consigo mesmo.

Exceto por sua família e alguns amigos obstinados, ele não tem aliados. A culpa é dele”. Hoje, Lieberman lidera outro partido, o Yisrael Beiteinu, que está prestes a obter um recorde de deputados. 

Um homem do seu partido, o Likud, pensa parecido: “Há um desgaste. Como ele coleciona inimigos, está obrigado a cuidar de tudo. Isso explica por que Netanyahu, perdendo seus ministros ao longo dos meses, foi forçado a ocupar seus lugares.

Hoje, além de ser premiê, ele gerencia as pastas da Defesa, Saúde e, temporariamente, Trabalho e Diáspora. Mais um pouco e o governo de Israel estará ocupado por 15 Netanyahus”.

Os únicos que ousam defender pontos de vista um pouco diferentes são os generais. Eles têm um medo: que Netanyahu não submeta suas escolhas militares e políticas ao aliado americano. Por exemplo, a decisão repentina de anexar o Vale do Jordão deu o que falar nas casernas. 

O jornal Maariv recebeu ecos do tumulto. Houve raiva e abuso verbal: como é que uma decisão tão séria pode ser tomada sem consultas prévias?

Então, essas eleições seriam o “último tango” de Netanyahu? O homem é tão inteligente, tão imperioso, tão eloquente, que não se pode prever nada. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.