O último tango (nuclear) em Praga

O acordo EUA-Rússia para reduzir arsenais atômicos tem números [br]inflados e truques baratos. Ao final, os cortes serão modestos, de até 7%

MICHAEL BOHM, THE MOSCOW TIMES, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2010 | 00h00

Joseph Stalin disse, certa vez, "não é importante como as pessoas votam, mas quem está contando os votos". Isso poderia se aplicar também à contagem das ogivas no novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas. Apesar de todo o falatório sobre "reduções de 30%" das armas nucleares no que o presidente Barack Obama chamou de "o mais abrangente acordo de controle de armas em quase duas décadas", as reduções de fato nos arsenais nucleares de ambos os lados são, na melhor hipótese, modestas.

Como o New York Times, Rússia e EUA concordaram em aplicar uma "contabilidade criativa" para inflar as reduções de ambos lados até obter a muito desejada cifra de 30% - ao menos no papel. Por exemplo, um truque foi contar as 20 ogivas em bombardeiros B-52 como apenas uma. No fim das contas, os cortes líquidos, segundo Hans Kristenson da Federação de Cientistas Americanos, serão de apenas 100 ogivas americanas e 190 russas.

Com base nos números de Kristenson de ogivas atualmente posicionadas do lado dos EUA (2.100) e do lado russo (2.600), o arsenal será reduzido apenas 5% e 7%, respectivamente. A contabilidade criativa produziu um desarmamento criativo.

Mas esse não foi o único truque de prestidigitação nuclear. Quando os dois anunciaram o número final - 1.550 ogivas posicionadas - o qualificador chave é "posicionadas". As cerca de 2.000 ogivas não posicionadas armazenadas em depósitos militares americanos não foram incluídas no novo Start. (A Rússia possui bem menos ogivas guardadas.) Essas ogivas guardadas podem ser remontadas em veículos de transporte estratégicos americanos numa questão de semanas. Se os EUA levassem a sério o desarmamento, teriam incluído as ogivas armazenadas no novo acordo.

Durante as conversações de 16 meses, as objeções da Rússia se concentravam em duas questões: recondicionar lançadores estratégicos com armas convencionais e defesa antimíssil.

Os russos deixaram claro que o novo Start devia limitar veículos de lançamento de médio e longo alcance (ditos estratégicos), independentemente de carregarem ou não armas nucleares. O velho Start de 1991 tratava todos os lançadores estratégicos como nucleares a priori. Mas, de 1991 para cá, os EUA desenvolveram a capacidade de reequipar seus veículos lançadores com armas convencionais. A principal posição americana foi que o novo Start - como o velho - devia concentrar-se só nas armas nucleares, não nas convencionais.

Reequipar lançadores estratégicos extras (acima do limite de 800) com armas convencionais de alta precisão é um objetivo militar chave dos EUA. A Rússia é contra a manobra, principalmente porque ela não está reequipando seus próprios lançadores. Curiosamente, a Rússia listou essas armas de alta geração como a quarta maior ameaça externa do país em sua nova doutrina militar, divulgada em fevereiro.

Desastres. Ao mesmo tempo, é legítima a preocupação da Rússia com a possibilidade de se equivocar com um submarino nuclear classe Ohio, por exemplo, que tenha sido reequipado com mísseis convencionais - possibilidade com consequências potencialmente apocalípticas para ambos os lados no caso de um lançamento mal identificado.

Assim, é fundamental que os dois lados retornem ao Memorando de Acordo de 2000 para construir um centro russo-americano de intercâmbio de dados sobre sistemas de alerta antecipado e lançamentos de mísseis para evitar a confusão sobre se um lançamento de míssil é nuclear o não nuclear. Esse é um importante projeto conjunto que fortaleceria a confiança e daria um grande impulso à iniciativa de controle.

Mas, a questão maior e mais importante colocada pelo lado russo foi seu bicho-papão favorito: defesa antimíssil. Basta lembrar das incontáveis declarações feitas ao longo do ano passado pelo primeiro-ministro Vladimir Putin, o presidente Dimitri Medvedev e a alta cúpula militar sobre como a defessa antimíssil americana "enfraqueceria forças estratégicas da Rússia" e com isso poderia, em teoria, permitir que Washington fizesse um primeiro ataque nuclear contra a Rússia e ficar totalmente protegido contra uma retaliação - ou, no mínimo, permitir que Washington usasse sua "vantagem nuclear avassaladora" para "chantagear" Moscou.

O lado americano - e o russo também - sabe perfeitamente que o "sistema estratégico de defesa antimíssil" dos EUA, que consiste em meros 30 interceptadores no Alasca e na Califórnia, é inútil contra os 800 veículos de entrega e 1.550 ogivas da Rússia, os limites do novo Start. Mesmo os planos mais ambiciosos para modernizar o sistema de defesa antimísseis regional americano na Europa está programado para 2020, na melhor hipótese, o ano em que expira o novo Start. Portanto, vincular o Start à defesa antimíssil americana era um argumento falso desde o início.

Então, por que todas as objeções fabricadas sobre a defesa antimíssil se, no fim, a Rússia saiu de sua posição para incluir um limite "vinculante" ao posicionamento do escudo americano no tratado? Na verdade, a defesa antimíssil foi apenas um blefe e uma tática de obstrução. O verdadeiro benefício de colocar a defesa antimíssil como suposta condição "tudo-ou-nada" foi fazer o papel de sabotador nas conversações sobre o novo Start - ao menos pelo tempo que a Rússia pudesse sustentá-lo.

A Rússia compreendeu que Obama desejava muito ter o tratado assinado até 5 de dezembro, quando expirava o velho Start, ou 10 de dezembro, quando ele receberia o Prêmio Nobel da Paz.

Mas a Rússia era movida por mais que o desejo de jogar areia na farofa de Obama. Ela queria se assegurar de que Washington teria de dar duro para obter o consentimento de Moscou. Talvez isso mostre que a eterna dúvida russa ("Você me respeita?") é tão importante quando diplomatas experientes estão negociando um importante acordo sobre controle de armas como quando amigos estão sentados bebendo vodca.

Relações públicas. Mas a Rússia levou o jogo da obstrução um pouco longe de mais. Em fevereiro, os negociadores já haviam acertado que a mudança da defesa antimíssil de Obama de sua "terceira posição" na Polônia e na República Checa para um sistema regional bem menor com base na Romênia era aceitável, e aparentemente abandonaram sua objeção ao posicionamento da defesa antimíssil. De fato, em 14 de fevereiro, durante uma visita à Nicarágua, o chanceler russo Serguei Lavrov disse que as duas partes haviam alcançado um acordo sobre "97%" do tratado.

Aí, como um raio de céu azul, a Rússia recolocou a pretensa questão da defesa antimíssil. Um Obama frustrado ligou para Medvedev em 13 de março e disse basicamente: "Ok, Dimitri. O jogo acabou. Chega de manobras: você e eu estaremos ambos na conferência sobre o Tratado de Não-proliferação em Nova York em maio. Agora precisamos tratar a sério da assinatura do novo Start." Duas semanas depois, em 26 de março, o acordo final foi anunciado.

No fim das contas, ambos os lados alegarão vitórias de relações públicas. De mais a mais, a Rússia pode alegar algumas pequenas vitórias suas. Ela está feliz porque o novo regime de inspeção de lançamentos de teste de mísseis é bem menos intrusivo que nos termos do antigo Start. Segundo, o Kremlin pode dizer que recebeu um "condicionamento relativo à defesa antimíssil" no preâmbulo do tratado, embora a linguagem dele seja vaga e teórica, e não impeça de maneira alguma que os EUA desenvolvam as tais defesas antimíssil.

Mas, o mais importante de tudo talvez tenha sido que a Rússia experimentou a agradável nostalgia dos acordos de controle de armas da época da Guerra Fria - uma das poucas áreas em que Moscou ainda pode projetar sua influência global como superpotência. Agora, com um pouco de interpretação imaginativa, a Rússia pode ir à conferência de Não-proliferação em maio como parceira de igual para igual com os EUA e dizer que cumpriu sua responsabilidade pelo desarmamento global como "a outra superpotência nuclear".

A Rússia que aproveite o momento enquanto ele durar.

"O novo acordo será o último da série de tratados do período da Guerra Fria", disse o analista político Fyodor Lukyanov no diário online Kommersant. "A segurança nuclear num mundo multipolar não será mais decidida entre Estados Unidos e Rússia." Se Lukyanov estiver certo, negociar o novo Start foi o último bailado da Rússia no palco do mundo nuclear. Agora o Kremlin terá de buscar suas ambições a superpotência noutros cantos. / TRADUÇÃO CELSO PACIORNIK

É EDITOR DE OPINIÃO DO JORNAL

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