Kenny Holston/ The New York Times
Kenny Holston/ The New York Times

O uso da fé pelos radicais pró-presidente Trump

Campos mais extremos do apoio a republicano estão ligados a setores do poder evangélico branco

Elizabeth Dias e Ruth Graham, The New York Times

13 de janeiro de 2021 | 04h00

Antes de os autodeclarados membros do grupo de extrema direita Proud Boys marcharem ao Capitólio eles pararam no meio da rua, se ajoelharam e oraram para Jesus.

O grupo, cujos participantes abraçam posições misóginas e anti-imigrantes, pediu a Deus que trouxesse “reforma e renascimento”. Eles agradeceram pelo “maravilhoso país em que temos a bênção de estar”. Pediram a Deus pela restituição de seus “sistemas de valores” e por “coragem e força, tanto para representá-lo, quanto para representar bem a nossa cultura”. E invocaram proteção divina para o que estava por vir. Então eles se levantaram. Seu líder declarou em um megafone que a mídia tinha de “dar o fora do caminho”. E então caminharam para o Capitólio.

A presença de rituais, símbolos e linguagem cristãos foi inequívoca na quarta-feira em Washington. Havia um cartaz eleitoral falso com a frase “Jesus 2020” escrita em azul e vermelho; um emblema com os dizeres “Armadura de Deus” costurado no uniforme de um homem; e uma cruz branca que proclamava, “Trump venceu”, em letras maiúsculas. Isso tudo intercalado com alusões a teorias de conspiração do movimento QAnon, bandeiras dos Confederados e camisetas antissemitas.

A mistura de referências culturais e as pessoas que as carregavam deixaram evidente um fenômeno que é produzido há anos: os campos mais extremos de apoio ao presidente Donald Trump se tornaram indissociáveis de alguns setores do poder dos evangélicos brancos nos EUA. Em vez de eixos de apoio completamente separados, esses grupos se misturaram progressivamente.

Essa poderosa mistura entre rancor e fervor religioso turbinou o grau de apoio entre uma ampla parcela de apoiadores de Trump, muitos dos quais descrevem a si mesmos como combatentes em um tipo de guerra santa, segundo entrevistas. E muitos deles, inundados pelas mentiras sobre a eleição presidencial e agora pela própria insurreição, afirmaram que as consequências do evento de quarta-feira somente alimentaram uma sensação mais profunda de que eles são vítimas incompreendidas.

Lindsay French, de 40 anos, evangélica do Texas, pegou um avião para Washington após receber o que qualificou como um sinal de Deus, no estilo “sarça ardente”, que a impeliu a participar da insurreição, seguindo seu pastor e exortando seus colegas de congregação a “impedir a fraude”.

“Nossa luta é do bem contra o mal, da luz contra a escuridão”, disse, afirmando que estava ascendendo como a rainha Ester, a heroína bíblica que salvou seu povo da morte. “Estamos cansados de ser vistos como pessoas horríveis”, afirmou, reconhecendo que houve certa violência, mas insistindo na mentira de que os “antifas” estiveram por trás disso.

Como muitos republicanos no Congresso, alguns líderes evangélicos que se mostravam solidários a Trump se afastaram – e afastaram sua fé – dos desordeiros. Robert Jeffress, pastor da Primeira Igreja Batista de Dallas, qualificou a violência como “anarquia”. O cerco ao Capitólio “não tem absolutamente nada a ver com o cristianismo”, afirmou. “Nosso apoio ao presidente Trump tem base em suas políticas.”

Mas críticos afirmaram que era tarde demais para tentar separar a cultura cristã branca e conservadora, que ajudou a ungir Trump ao poder, da violência da semana passada.

“É impossível entender o que aconteceu hoje sem se digladiar com o Nacionalismo Cristão”, afirmou na quarta-feira Andrew Whitehead, sociólogo da Indiana University-Purdue University, acrescentando que movimentos evangélicos brancos toleram, pelo menos, e há muito tempo, o extremismo de direita – bem antes de Trump. “Eles forneceram fundamentos políticos e teológicos para isso, o que permitiu que a anarquia reinasse.”

Em um vídeo postado no Facebook filmado em Washington na segunda-feira, o pastor Greg Locke, do Tennessee, denominou a si mesmo como integrante do “regimento capa preta”, uma referência aos religiosos americanos que lutaram durante a Revolução Americana. Em um comício, na noite seguinte, Locke fez uma pregação diante de uma multidão de apoiadores de Trump, no Freedom Plaza, prevendo “não apenas um Grande Despertar, mas o maior despertar jamais visto”.

A insurreição da quarta-feira, posta em prática por uma multidão de ampla maioria branca, também ilustrou a divisão racial no cristianismo americano. Horas antes do ataque ao Capitólio, o reverendo Raphael Warnock, da Igreja Batista Ebenezer, de Atlanta, tinha sido eleito ao Senado americano, após muitos cristãos brancos e conservadores tentarem atribuir a ele a imagem de um perigoso radical, mesmo que sua campanha eleitoral tenha se pautado na visão moral tradicional da igreja evangélica negra. 

“Nossos clamores são ignorados”, afirmou Jemar Tisby, presidente de um coletivo de cristãos negros chamado O Testemunho. “Esse é o autêntico desfile do cristianismo branco americano”, afirmou sobre o evento da quarta-feira. “O desafio para os cristãos brancos americanos é examinar o que eles forjaram com a religião.”

Os frutos da aliança entre grupos de extrema direita – cristãos ou não – ficaram evidentes na quarta-feira, antes de a insurreição começar, quando milhares de apoiadores de Trump se reuniram para protestar contra a certificação da vitória de Joe Biden. Muitos dos participantes eram evangélicos brancos que se sentiram compelidos a viajar milhares de quilômetros de suas casas até Washington.

A disseminação de mentiras sobre a probidade da eleição – que se tornaram as raízes da insurreição – se infiltrou profundamente nos círculos cristãos conservadores. Crenças apocalípticas dos evangélicos sobre o fim do mundo e a vinda do julgamento divino se misturaram com as teorias de conspiração do QAnon, que declaram falsamente que o mundo é dominado por burocratas de um Estado paralelo e pedófilos. / NYT, TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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