Imprensa do Vaticano / EPA / EFE
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O Vaticano e a Fifa

As duas administram recursos enormes e tiveram problemas legais nos últimos anos

Moisés Naím *, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2018 | 03h00

Poucas atividades humanas despertam tantas paixões como religião e esporte. O catolicismo é uma das religiões que têm mais fiéis e o futebol é o esporte com o maior número de aficionados. O Vaticano lidera o catolicismo e a Fifa administra esse esporte. 

As origens, histórias e razões de ser das duas instituições são diferentes. O Vaticano é um Estado soberano com séculos de existência, enquanto a Fifa foi fundada na Suíça há 114 anos. Mas, apesar das diferenças, elas têm semelhanças interessantes. Ambas compartilham o paradoxo de que, sendo instituições europeias, a maioria de seus seguidores está em países menos desenvolvidos. Também em nenhuma das duas há mulheres ocupando cargos de poder. Atualmente, as figuras mais representativas do catolicismo e do futebol são dois argentinos: papa Francisco e Lionel Messi.

As duas administram recursos enormes. Embora a Santa Sé tenha um imenso patrimônio, suas principais fontes de renda são seus investimentos, aluguéis de propriedades e doações de pessoas, dioceses e outras instituições. A renda da Fifa vem da venda de direitos de transmissão, comercialização de produtos e de ingressos. 

Como se sabe, nos últimos anos tanto a Fifa quanto o Vaticano tiveram problemas legais. Em maio de 2015, mais de uma dezena de policiais civis entraram no hotel Baur au Lac, de Zurique, onde se realizava a reunião anual dos dirigentes, e prenderam sete deles. Meses mais tarde, a cena se repetiu. Em 3 de dezembro, a polícia suíça chegou ao Baur au Lac e prendeu dirigentes da organização ali hospedados. 

Ainda que os policiais que fizeram as detenções fossem suíços, agiram a pedido dos EUA. O FBI vinha investigando a corrupção na Fifa havia três anos. O Departamento de Justiça dos EUA acusou a Fifa de “corrupção desenfreada, sistêmica e arraigada”. Seus diretores recebiam propina para votar num determinado país que queria sediar a Copa ou para conceder direitos de transmissão pela TV. A pedido dos EUA, vários dirigentes da Fifa e de confederações regionais foram extraditados, julgados e condenados. A cúpula da organização foi substituída. O escândalo levou vários outros governos a investigar casos semelhantes em seus países. 

Vale destacar que as revelações não surpreenderam quem conhecia o funcionamento da Fifa. Era um segredo de polichinelo que muitas de suas decisões estavam à venda. O surpreendente é que os que enfrentaram a corrupção na Fifa fossem promotores, juízes e policiais dos EUA, um país no qual o futebol ainda não tem a importância que tem em outras partes.

Os problemas legais do Vaticano são conhecidos e têm semelhanças interessantes com os da Fifa, embora os da Fifa estejam ligados a suborno e os da Igreja, a abuso sexual. Ambas as entidades têm longa história de condutas inaceitáveis e de negação do problema, encobrimento e impunidade. Mais uma vez, e apesar de o catolicismo não ser a religião dominante nos EUA, foram os americanos que enfrentaram o abuso sexual na Igreja. 

Recentemente, o Washington Post destacou que “a rápida resposta dos EUA contrasta com o ritmo gélido do Vaticano”. Nos EUA, 15 Estados já investigam os abusos sexuais. Em contraste, na Europa, de maioria católica, o silêncio e a impunidade continuam. Mas isso vai mudar. Não apenas porque a sociedade civil está mais ativa e poderosa, mas porque tanto no futebol como na Igreja os fiéis são muito melhores que seus líderes. / Tradução de Roberto Muniz

* É colunista

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