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O vazio político na França

A França atravessa um momento estranho. Politicamente, parece que o país está flutuando. É indecifrável. Duas eleições - as municipais e as europeias - acompanhadas de um escândalo de corrupção (envolvendo o líder da direita Jean-François Copé) bastaram para transformar sua paisagem numa espécie de deserto.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2014 | 02h07

A leitura dos jornais no início da semana foi divertida: os periódicos de direita falavam apenas da esquerda e os de esquerda só se referiam à direita. O Figaro não escondeu sua satisfação com o desastre que vitimou os socialistas de François Hollande nas eleições europeias.

O Libération, pelo contrário, deleitou-se ao detalhar a inexorável "descida ao inferno" do partido de direita, UMP, depois de um dirigente, o insuportável Copé ser pego em flagrante delito, com inúmeras faturas falsas.

O problema é que o Figaro tem razão e o Libération também. Ou seja, o Partido Socialista e o UMP fizeram tantas cretinices (os socialistas) ou vilanias (a direita) que parecem peixes na areia procurando respirar em vão.

É evidente que essa fragilidade das duas agremiações abre na geografia política um vasto espaço inocupado e portanto disponível para outros participantes. Que são os da extrema direita: o partido fascista de Marine Le Pen (a Frente Nacional, criada pelo pai de Marine, Jean-Marie Le Pen), abocanhou 25% dos votos. Ficou bem na frente da UMP e ainda mais dos socialistas.

Disputa. Em 2017, haverá eleições presidenciais na França. A Frente Nacional teria chances de assumir o poder se os dois partidos que se alternam no governo, os socialistas e a UMP, não conseguirem se regenerar, ou melhor, passar por uma reformulação.

Primeira missão: descobrir líderes. Nos anos 60 e 80, a direita francesa tinha o general De Gaulle, gênio e herói ao mesmo tempo. Em seguida, surgiu um socialista de envergadura, François Mitterrand.

Esses dois homens parecem gigantes quando comparados aos "anões" que hoje grunhem e estufam seus minúsculos peitos. À direita, não vamos falar de Copé, um especulador sombrio e insípido. O verdadeiro chefe da direita ainda é o ex-presidente Nicolas Sarkozy, que espera retornar ao poder em 2017.

Ora, Sarkozy legou uma França extenuada, inerte. E esteve no centro de tantos negócios nauseabundos (financiamento de campanha pelo ditador líbio Muamar Kadafi, vendas duvidosas de submarinos ao Paquistão e outros negócios ilícitos) que Copé parece, em comparação, um cordeiro.

E à esquerda? Mas que esquerda? A esquerda do socialista Hollande, que empreende uma política de direita, desprovida de qualquer talento? Mas sejamos otimistas.

Talvez nos livremos de Hollande em 2017, se o seu fracasso for determinante. Então, será preciso buscar uma figura brilhante em meio aos jovens socialistas? É provável que exista algum jovem talentoso, mas no momento ele está oculto.

O quadro não é auspicioso. E torna-se mais sombrio se ampliarmos o foco para o restante da Europa. Porque em toda a parte é a mesma situação. As populações revoltadas com os partidos no governo votaram a favor de líderes improváveis, aventureiros pouco democráticos, com discursos xenófobos, por vezes racistas.

Essa foi a lição de fato das últimas eleições europeias: praticamente por todo lado o partido vencedor foi essa enorme multidão de cidadãos que detesta a política e odeia os políticos.

Claro que há algumas exceções: na Itália um jovem líder de esquerda, Matteo Renzi, saiu triunfante. Mas se Renzi é um homem de esquerda, isso é recente, uma vez que ele surgiu da democracia cristã.

Outra exceção foi a Alemanha, da poderosa Angela Merkel. E por aí vamos! Tentemos sonhar com a senhora Merkel. Ao trabalho! / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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