O verdadeiro interesse da ANR

Tenho armas desde os 6 anos e sei que o discurso do medo é grande negócio para uma indústria que alimenta massacres

O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2012 | 03h05

É fácil ignorar a questão do controle às armas nos EUA, considerando a total falta de liderança que a beneficia no Congresso. Por outro lado, torna-se mais difícil ignorá-la quando nossos parentes ou amigos são assassinados na companhia de alguém que idolatramos, como milhares de americanos em Tucson, no Estado do Arizona.

Sempre tive armas, o tempo todo, desde meus 6 anos de idade. Ainda tenho a espingarda Winchester do meu avô, que ele carregou durante décadas em uma bainha atrás da sua sela enquanto percorria os pastos da fazenda em Wikieup, no Arizona. Todas as armas que tive eram chamadas curiosamente pelo nome genérico de rifles. Comecei meu breve ataque à fauna local aos 12 anos, e na época em que consegui a carteira de habilitação, aos 16, já havia "pegado" quatro veados de rabo branco, dois javalis e inúmeras codornas e pombos. Uma licença para dirigir um automóvel é algo que nos liberta e é muito mais importante do que uma licença de caça. A partir daí, ficar perambulando pelos bosques matando bichos perdeu seu encanto. Faz décadas que eu deixei de me dedicar a essas aventuras.

Hoje, alguns caçam com pistolas ou fuzis de assalto, equipados com pentes de cem balas. E há muito menos razões para isso. Mas a principal preocupação da Associação Nacional do Rifle (ANR) passou a enfocar principalmente estes. Não é nenhuma novidade que a ANR já não se interessa minimamente pelo desportista em todos os sentidos práticos. Se fosse uma organização honesta, mudaria seu nome. Falando como dono de um rifle, considero a situação embaraçosa.

A ANR não só se opõe a estabelecer limites às vendas das armas de grande porte, como se opõe até à notificação das vendas dessas armas no atacado. No ano passado, ela fez o impossível para impedir que alguém cruzasse os nomes da lista de terroristas procurados com os das pessoas que compravam armas. Essas atitudes mostram claramente que a segurança e o bem-estar dos cidadãos simplesmente não constam da lista de prioridades da ANR. Afinal, ela representa os fabricantes de armamentos e ponto final.

Ocorre que as pistolas são excelentes para certas coisas. Não há o que se compare a elas para matar pessoas a curta distância: muito úteis para a política e os narcotraficantes. São de extrema segurança dentro de uma gaveta para os que receberam ameaças claras, como minha amiga Gabby Giffords (a deputada democrata Gabrielle Giffords levou um disparo na cabeça de um atirador quando falava para eleitores em um supermercado de Tucson e abandonou o cargo para se recuperar).

São até um instrumento útil, embora duvidoso, para a gente se defender de assassinos e estupradores que invadem a nossa casa às 2 horas da manhã. Nada disso me aconteceu nos últimos 60 anos, mas talvez a experiência de outras pessoas seja diferente. O presidente da ANR, Wayne LaPierre, acha que poderá acontecer a qualquer um essa noite mesmo: se você procurar no YouTube o Circo do medo da ANR, encontrará uma quantidade de razões de LaPierre para ele viver com medo e seus argumentos para convencê-lo a viver também apavorado. Pessoalmente, acho que viver com medo não tem nada a ver com um americano, e não vou entrar nessa agora. Mas de que outra maneira os fabricantes de armas poderiam expandir seu mercado, vender mais de 3 milhões de armas ao ano, como fazem agora? O medo é um grande inspirador; o assassinato em massa é o máximo para a indústria de armas.

Há poucos dias, 12 cidadãos foram assassinados e 58 ficaram feridos por três tipos de armas. Deixando de lado a espingarda de caça, cabe mencionar que o Glock e a metralhadora que se suspeita usou James Holmes para atirar no cinema de Aurora, Colorado, estavam sendo usados para a finalidade para a qual foram projetados, fabricados e vendidos. Mas os fabricantes de armas não precisam se preocupar com a questão da responsabilidade pelo produto, porque em 2005 o Congresso aprovou e o presidente George W. Bush sancionou uma legislação que concede a imunidade para os fabricantes de armas das consequências previsíveis da produção de instrumentos de morte.

A cada ano, nos EUA, morrem três vezes mais pessoas por armas de fogo do que as que morreram em 11 de setembro de 2001. Mas bem-aventurados sejam os fabricantes de armas, eles já foram perdoados de antemão!

Fico impressionado pelo fato de a ANR sentir-se perfeitamente à vontade quando os debates sobre assassinatos em massa se transformam em discussões intelectuais sobre cidadania versus demagogia, insanidade e impressionabilidade, e liberdade versus a tirania dos fanáticos por armas. Quanto mais abstrato, melhor. Entretanto, no fim, a questão é simples: a ANR é o organismo encarregado do grande lobby dos fabricantes de armas que lucram com o assassinato de cidadãos americanos. Se você acha que as polícias dos EUA têm base em valores judaico-cristãos, é porque não prestou atenção. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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