Jim Huyle Broek/NYT
Jim Huyle Broek/NYT

O verdadeiro vencedor da guerra afegã é o Paquistão; leia artigo

País foi aliado ostensivo dos EUA na guerra contra a Al-Qaeda e o Taleban, mas relacionamento foi marcado pela ambiguidade

Jane Perlez*, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2021 | 05h00

Poucos dias depois que o Taleban tomou Cabul, sua bandeira estava hasteada bem alto acima de uma mesquita central na capital do Paquistão. Foi um tapa na cara, com a intenção de ofender os americanos derrotados. Mas também foi um sinal dos verdadeiros vencedores na guerra de 20 anos do Afeganistão.

O Paquistão foi aliado ostensivo dos EUA na guerra contra a Al-Qaeda e o Taleban. Seus militares ganharam dezenas de bilhões de dólares em ajuda americana nas últimas duas décadas, mesmo quando Washington reconheceu que grande parte do dinheiro desapareceu em buracos não contabilizados.

Mas foi um relacionamento marcado pela ambiguidade e por interesses divididos desde o início após o 11 de Setembro. Não menos importante, os taleban afegãos contra quem os americanos estavam lutando são, em grande parte, uma criação do serviço de inteligência do Paquistão (ISI, por sua sigla em inglês), que durante a guerra alimentou e protegeu os ativos do Taleban no território paquistanês.

Nos últimos três meses, enquanto o Taleban varria o Afeganistão, os militares paquistaneses deixaram livre a passagem para uma onda de novos combatentes por sua fronteira, disseram líderes tribais. Foi um golpe de misericórdia para as forças de segurança afegãs treinadas pelos americanos.

“Os paquistaneses e o ISI ganharam no Afeganistão”, disse Robert L. Grenier, um ex-chefe de seção da CIA no Paquistão. Mas, advertiu ele, os paquistaneses devem tomar cuidado com o que desejam. “Se o Taleban afegão se tornar líder de um Estado pária, o que é provável, o Paquistão se verá amarrado a eles.”

A reputação já abalada do Paquistão no Ocidente deve despencar agora, conforme o Taleban assumir o controle do Afeganistão. Pedidos de sanções ao Paquistão já circularam nas redes sociais. Na ausência de financiamento estrangeiro, o Paquistão enfrenta a dependência de um comércio de drogas incentivado pelos novos governantes em Cabul. Um Estado controlado pelo Taleban em sua fronteira sem dúvida encorajará o Taleban e outros militantes islâmicos no próprio Paquistão.

Não menos importante, as relações com os EUA, já em declínio, vão se deteriorar ainda mais. Além de manter a estabilidade do arsenal nuclear do Paquistão, os americanos agora têm menos incentivos para negociar com o país.

Portanto, a questão para os paquistaneses é o que farão com o país destruído que é seu prêmio? O Paquistão, junto com a Rússia e a China, está ajudando a preencher o espaço que os americanos desocuparam. 

Um protegido do Paquistão, Khalil Haqqani, um líder do Taleban que visitava regularmente a sede militar do Paquistão em Rawalpindi, é um dos novos governantes do Afeganistão. Conhecido pela inteligência americana como emissário do Taleban para a Al-Qaeda, Haqqani apareceu em Cabul na semana passada como seu novo chefe de segurança.

Durante a guerra, os americanos toleraram o jogo duplo do Paquistão porque não viram escolha, preferindo travar uma guerra caótica no Afeganistão a guerrear com o Paquistão armado com armas nucleares. Além disso, os portos e aeroportos do Paquistão forneciam os principais pontos de entrada e linhas de abastecimento para o equipamento militar americano necessário no Afeganistão.

O Paquistão fez isso, embora sua agência de espionagem fornecesse assistência de planejamento, treinamento e, às vezes, consultoria em campo para o Taleban durante toda a guerra, segundo autoridades americanas.

Embora o Paquistão devesse ser um aliado americano, sempre trabalhou em prol de seus próprios interesses – como costumam fazer as nações. Esses interesses não incluíam uma grande presença militar americana em sua fronteira, um Afeganistão autônomo com um governo democrático que não pudesse controlar ou um Exército forte e centralizado.

Em vez disso, o objetivo do Paquistão no Afeganistão era criar uma esfera de influência para bloquear seu rival, a Índia. Os paquistaneses insistem que a Índia usa grupos separatistas como o Exército de Libertação do Baluchistão, operando em paraísos no Afeganistão, para agitar a dissidência no Paquistão. “O Exército paquistanês acredita que o Afeganistão oferece profundidade estratégica contra a Índia, que é sua obsessão”, disse Bruce Riedel, ex-assessor do Sul da Ásia para os governos Bush e Obama. 

Durante uma visita a Washington este ano, Moeed Yusuf, o conselheiro de segurança nacional do primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, enfatizou a necessidade de eliminar a presença indiana no Afeganistão. Yusuf é considerado um moderado no espectro político do Paquistão, e os americanos disseram que ficaram impressionados com sua veemência sobre o papel da Índia no Afeganistão.

A ligação entre os paquistaneses e o vitorioso Haqqani era indiscutível e indispensável para a vitória do Taleban, disse Douglas London, ex-chefe de contraterrorismo da CIA para o sul e o sudoeste da Ásia. O chefe do Exército paquistanês, Qamar Javed Bajwa, e o chefe do ISI, Hameed Faiz, se encontraram com Haqqani “de forma recorrente”. Há muito se sabe que a extensa família Haqqani vive nas áreas sem governo do Paquistão ao longo da fronteira com o Afeganistão.

O ISI normalmente mantinha seus agentes fora do conflito real, com medo de serem capturados no Afeganistão. Mas forneceu ao Taleban recursos que elevaram seu status internacional. O líder taleban, Abdul Ghani Baradar, viajou com passaporte paquistanês para participar das negociações de paz em Doha, no Catar, e para se encontrar em Tianjin, China, com Wang Yi, o ministro das Relações Exteriores. “O Taleban afegão não estaria onde está sem a ajuda do Paquistão”, disse London. 

A relação de Washington com o Paquistão esfriou depois que as forças especiais americanas, os Navy SEALS, mataram Osama bin Laden em 2011 em um esconderijo perto de uma academia militar do Paquistão. As principais autoridades americanas pararam de visitar o Paquistão e a assistência foi reduzida.

Mas o governo Obama nunca disse publicamente o que suspeitava: os militares paquistaneses sabiam o tempo todo que Bin Laden estava morando com sua família em Abbottabad, uma das cidades de guarnição mais conhecidas do Paquistão.

Se Washington tivesse declarado que o governo paquistanês estava abrigando Bin Laden, então o Paquistão teria sido legalmente um Estado patrocinador do terrorismo e sujeito a sanções obrigatórias como o Irã, disse Riedel.

Isso teria forçado os americanos a encerrar seu apoio ao Paquistão e, por sua vez, teria levado Islamabad a impedir que suprimentos de guerra americanos transitassem por seu território, aumentando o custo da guerra. 

Apesar das relações tensas, os EUA continuam a trabalhar com o Paquistão por meio do Departamento de Energia para ajudar a fornecer segurança para as armas e material físsil, disse Toby Dalton, codiretor do Programa de Política Nuclear do Carnegie Endowment.

Mas o Paquistão também é ágil em suas alianças. A China, um patrono de longa data do Paquistão está investindo pesadamente na infraestrutura do país. A China está contando com o Paquistão para atuar como seu facilitador no Afeganistão, disse Sajjan Gohel, diretor de segurança internacional da Fundação Ásia-Pacífico em Londres. “Os chineses parecem confiantes de que conseguirão obter mais garantias de segurança do Taleban por causa de seus laços mútuos com o Paquistão”, disse Gohel. 

* É JORNALISTA E EX-CHEFE DA SUCURSAL DO NYT NO PAQUISTÃO

 

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