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O vírus da desinformação

Não se sabe ainda se uma bactéria ou outro microrganismo está por trás da tosse que pode definir o resultado das eleições americanas e mudar o mundo

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2016 | 05h00

Não se sabe ainda se uma bactéria ou outro microrganismo está por trás da tosse que pode definir o resultado das eleições americanas e mudar o mundo. No laudo sobre o estado de saúde de Hillary Clinton, médicos omitiram a origem da pneumonia que afastou da campanha por três dias a candidata democrata à Casa Branca. O diagnóstico ignorava outra hipótese, que representa ameaça maior à campanha de Hillary (e a todos nós): o vírus da desinformação.

O caso começou com uma tosse – “de 2 minutos”, reforçou a equipe de Donald Trump – em evento no Dia do Trabalho (nos EUA, 5 de setembro). Na mesma noite, a chefe de campanha do republicano, Kellyanne Conway, tuitou o vídeo de Hillary com a seguinte frase: “Ela deve ser alérgica à mídia”. O vídeo se espalhou e, como tem sido de costume, contaminou a imprensa. Nos dias seguintes, o espaço do noticiário foi dominado por especulações sobre o estado de saúde da candidata, alimentadas pelos marqueteiros e partidários de Trump com teorias conspiratórias dosadas para manter o assunto vivo – nas redes sociais, quanto mais um tema é replicado, mais tem visibilidade e relevância, seja o conteúdo verdadeiro ou falso. 

Manchetes de jornais traziam hipóteses, âncoras questionavam a capacidade física de Hillary assumir a presidência, exatamente como os marqueteiros de Trump queriam.

Sean Hannity, da Fox News, dedicou uma semana de seu programa à “cobertura investigativa” sobre a saúde de Hillary, com especialistas, que arriscavam diagnosticar pela TV e à distância, com base em rumores e fotografias (muitas delas antigas sem, é claro, que esse detalhe fosse mencionado) em redes sociais, blogs e sites conservadores, como Breitbart e Reddit. Ao observar uma imagem, Hannity insistia aos médicos que atestassem a impressão de que Hillary estava tendo uma convulsão. 

Levantou-se a suspeita de que Hillary escondia um desfibrilador sob a roupa e seu agente segurava um aparelho para interromper contrações, o que levou à hipótese de que a candidata estaria sofrendo de danos residuais de uma queda, em 2012. Nas redes sociais, circulavam, além das imagens, um laudo médico falso, memes e apostas sobre as doenças da candidata – Parkinson, esclerose múltipla, problemas de coração. A repercussão obrigou Hillary a responder aos rumores. 

No domingo, durante cerimônia em memória aos 15 anos do 11 de Setembro, Hillary deixou o local mais cedo e foi para a casa da filha. Ao deixar o apartamento, disse se sentir ótima. A explicação oficial era de que ela havia se retirado antes graças a um mal-estar provocado pelo calor. Somente quando um vídeo amador em que a candidata aparece cambaleante e amparada ao entrar em sua van veio a público, a campanha admitiu que Hillary tinha sido diagnosticada com pneumonia – dois dias antes do evento, descobriu-se mais tarde. 

Especular e espalhar mentiras sobre a saúde da opositora tem sido uma estratégia da campanha de Trump. Para evitar abastecer a oposição com mais motivos para especulações, Hillary e sua equipe de campanha preferiram mentir sobre a pneumonia durante dois dias. Com isso, deram força aos especuladores. O vírus da desinformação se retroalimenta. Numa corrida eleitoral tão acirrada, pode realmente mudar o resultado das urnas. 

Na quinta-feira, a campanha de Trump divulgou nota médica sobre a “saúde excelente” do candidato, o que não quer dizer nada. Nenhum laudo foi apresentado como evidência, mas isso pouco importa. Seu objetivo era apenas alimentar o debate – e as especulações – sobre a saúde de Hillary. Na era da política “pós-verdade” – como definiu esta semana a revista The Economist, a estratégia de usar afirmações que “parecem verdade”, mas não têm base em fatos – o que vale é a percepção do eleitor. Vence quem dominar a narrativa.

*ADRIANA CARRANCA. ESCREVE AOS SÁBADOS 

 

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