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O vírus da ideologia

É surpreendente a politização no tratamento do surto em democracias como Itália e Estados Unidos

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2020 | 05h00

O surto do coronavírus é potencializado por outra epidemia do nosso tempo: a contaminação da política pela religião e da gestão do setor público pela ideologia. Esses contágios são tão antigos quanto a própria gripe. Mas, se antes eles eram mais aleatórios, hoje são resultado de metódica exploração eleitoral, por meio das redes sociais e do WhatsApp.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) se queixou de que o regime chinês está sonegando informações por ela requisitadas sobre a contaminação de profissionais de saúde. Para a OMS, trata-se apenas de subsídios para seus técnicos entenderem melhor o comportamento do vírus em ambiente hospitalar e refinar seus protocolos. Para Pequim, é uma questão sensível. A morte do médico Li Wenlian, que tentou alertar para o vírus no seu início e foi repreendido pela polícia da Província de Hubei, causou indignação. 

Que o regime chinês se comporte assim é esperado. Surpreendente é a politização no tratamento do surto em democracias como Itália e EUA. Depois de ter sido muito criticado pela rápida proliferação do surto, com líderes da oposição como o nacionalista Matteo Salvini exigindo sua renúncia, o primeiro-ministro Giuseppe Conte apontou falhas de procedimentos em hospitais da Lombardia.

A polícia realizou batidas em alguns desses hospitais. Isso é insólito porque, assim como no caso de acidentes aéreos, nas epidemias a investigação de falhas deve ser feita por técnicos, não com o desejo de apontar culpados, mas de aprender com os erros. A criminalização leva os envolvidos a uma atitude defensiva que dificulta o estabelecimento dos fatos. A menos que se trate de terrorismo ou suicídio, acidentes aéreos e epidemias não costumam ser causados de propósito.

Já Donald Trump responsabilizou a oposição democrata e a imprensa por, na visão dele, criar ambiente de pânico, com a intenção de deprimir a economia e dificultar sua reeleição. Não posso falar pelos democratas nem pela imprensa americana, mas sei que, quando se faz uma análise de cenário alarmante, o objetivo é incentivar os envolvidos a tomar previdências para que a previsão não se materialize. Nesse sentido, o sucesso de uma análise pessimista consiste em sua não concretização. 

Talvez seja um raciocínio sutil para quem está entregue a uma disputa existencial pelo poder, seja num regime autoritário ou democrático. Ao encarregar Mike Pence de coordenar a força-tarefa de combate à epidemia, Trump ressaltou o “talento” de seu vice “para isso”. Pence é cristão evangélico e, ao longo de sua carreira política, tem colocado sua fé acima de critérios políticos, gerenciais e técnicos.

Quando era deputado, em 2011, ele votou a favor do corte de verbas para planejamento familiar, por suas convicções religiosas. Isso levou ao fechamento de clínicas que realizavam testes de HIV em Indiana, Estado dele. Em 2015, quando já era governador de Indiana, o Estado sofreu um surto de vírus da aids. Mais uma vez citando princípios morais, Pence resistiu à recomendação do Centro de Controle e Prevenção de Doença e bloqueou, por dois meses, a distribuição de vacinas descartáveis para os viciados em drogas injetáveis, o que agravou a epidemia. Enquanto isso, o governador orava. 

O aumento da fatia da população contrária à vacinação, que assim como os evangélicos é um contingente eleitoral importante, representa sobrecarga extra para a vigilância epidemiológica. O coronavírus ainda não tem vacina, mas gripe, sarampo e dengue, por exemplo, têm, e há pessoas morrendo por causa de lendas urbanas. Felizmente, o Ministério da Saúde no Brasil não foi contaminado pelo obscurantismo religioso que afeta outros setores do governo. Deus deve ser mesmo brasileiro. 

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