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O vírus de Wuhan 

Desta vez, a China não tentou esconder informações como ocorreu no surto de Sars

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2020 | 05h00

Os cientistas dizem que o poder dos vírus está na sua capacidade de adaptação. Sua contínua mutação explica sua sobrevivência, suas constantes vitórias sobre vacinas e antibióticos. Num certo sentido, esse é também o segredo da resiliência do regime chinês.

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Na eclosão do surto de Sars (síndrome respiratória aguda grave), em 2002 e 2003, o governo chinês da época, então encabeçado pelo presidente Jiang Zemin, foi duramente criticado pela tentativa de esconder a dimensão do problema. Essa atitude pode ter contribuído para as mais de 8 mil pessoas infectadas na China e em outros países, das quais mais de 800 morreram.

Na época, não havia redes sociais como hoje. No início do atual surto do vírus de Wuhan – que como o Sars é um coronavírus –, milhões de usuários do Weibo e do WeChat, equivalentes ao Twitter e ao WhatsApp, respectivamente, queixaram-se da falta de agilidade das autoridades locais para enviar o alerta quando um médico e 13 enfermeiros foram infectados por um paciente durante uma cirurgia cerebral, o que indicava que a doença era transmissível entre humanos. 

O primeiro caso foi registrado em Wuhan em 31 de dezembro. No dia 7 de janeiro, autoridades reconheceram que se tratava de um patógeno (organismo capaz de causar doença em hospedeiro) desconhecido. Só no dia 20 a Comissão Nacional de Saúde confirmou que o vírus podia ser transmitido entre humanos. No dia 1.º de janeiro, a polícia de Wuhan anunciou que tinha investigado e punido oito pessoas acusadas de espalhar desinformação. 

A atitude mudou quando o governo central entrou em cena. No dia do anúncio, o presidente Xi Jinping ordenou que as autoridades colocassem “as vidas e a saúde das pessoas em primeiro lugar”. A partir daí, o governo passou a anunciar atualizações diárias da situação. O Partido Comunista advertiu nas redes sociais que se alguém escondesse casos de contaminação seria “condenado à vergonha para sempre”. 

Essa tem sido a dinâmica entre os governantes locais e o poder central em Pequim desde a Revolução Comunista de 1949. No período do Grande Salto para a Frente (1958-60), tentativa fracassada de reorganização econômica que resultou na morte de 15 milhões de pessoas de fome, segundo cifras oficiais, autoridades locais mentiam sobre a produção agrícola, com medo de punição do governo central, que enviava menos alimentos, com base na necessidade subestimada.

Desde então, Pequim sempre se queixou da dificuldade de ver suas diretrizes executadas na ponta pelos chefes locais do partido. Uma das características da gestão Xi, iniciada em 2013, é o aumento da centralização e da vigilância sobre o cumprimento dessas diretrizes na esfera local. 

Alguns posts denunciando suspeitas de contaminação pelo vírus de Wuhan e alguns links para coberturas do surto por parte da mídia estrangeira foram apagados das redes sociais. Mas não houve uma tentativa de blecaute de informações por parte do regime, como ocorreu no surto de Sars, e como ocorre em relação a temas sensíveis, como o massacre da Praça da Paz Celestial, de 1989.

Ao contrário. Posts sobre a contaminação dos 14 profissionais de saúde foram visualizados 1,5 bilhão de vezes só no Weibo. Um editorial do jornal Notícias de Pequim, defendendo transparência na divulgação de dados, tem tido enorme audiência no WeChat. A página com o texto tem um código QR que permite ver os dados atualizados em tempo real.

Nada disso significa que a China esteja caminhando para o modelo ocidental de democracia. Pelo contrário. Essa capacidade de adaptação, de revisão de práticas malsucedidas, serve justamente à sustentabilidade do regime de partido único, hoje com uma concentração de poder em torno de Xi só comparável aos tempos de Mao Tsé-tung

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