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O vírus que fala

Tudo leva a crer que a crise corra o risco de ser explorada pelos partidos mais radicais

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2020 | 03h00

O coronavírus se assemelha ao macaquinho da fábula: ele não ouve, não vê e é mudo. Além disso, é invisível, no entanto ele fala, fala, distribui conselhos à vontade. Entre os seus clientes preferidos figuram os filósofos, do tipo Bernard Henry Lévy, os precursores de tudo o que está acontecendo, como Alain Mine, e os desconhecidos que saem de suas tocas às dezenas, às centenas, e falam do vírus, como se o conhecessem de perto sem saber, há dezenas, há centenas de anos. (As “tribunas livres” que enchem os jornais, uma praga!). E depois, os políticos.

Poderíamos jurar que esta peste escolheu o seu campo, a direita. Inicialmente, ela escolheu como suporte o presidente da república, Emmanuel Macron, mas logo percebeu que não era a aposta certa. E se agarrou de unhas e dentes à sua velha e acalentada ideia da União Europeia enquanto esta, dividida entre 27 nações, amputada da Grã-Bretanha, já se tornava inaudível, frágil, e na crise do coronavírus, se dispersou entre três ou quatro tendências.

Além disso, Macron está convencido de que a crise terá o efeito milagroso de reunir os pedaços disparatados da sociedade, a direita e a esquerda, os ricos, os pobres, os sem domicílio fixo, e os proprietários de castelos. O fim da luta de classes. Karl Marx, fora!

Nesta provação, as diferentes classes, longe de se abraçarem e de repente se amarem, se enfrentam mais violentamente do que em tempos de calmaria. Tudo leva a crer que a crise, ao contrário, corra o risco de ser explorada pelos partidos mais radicais.

O mais radical deles partidos é o Rassemblement National, de Marine Le Pen. Ela não fala muito. Por sua raridade, a sua fala se torna pesada. Ela bate; recrimina o governo francês de, inicialmente, ter sido incapaz de avaliar a gravidade do perigo. E por suas primeiras medidas inadequadas.  Isto mostrria a incompetência de Macron, “o colapso do Estado francês”. E os grupelhos que se situam à direita de Le Pen (pois existem) se divertem com seu jogo preferido: a produção de notícias falsas. Por exemplo, a covid-19 não existe. Foi inventada em um laboratório francês (e não chinês). E sua gestão foi voluntariamente falha: ausência de máscaras, emprego de medicamentos baratos, em seguida substituídos por medicamentos autênticos de maneira a aumentar os superlucros dos grandes laboratórios internacionais.

Outra informação falsa: a epidemia se espalhou pelo ingresso de estrangeiros, principalmente os migrantes, e também graças aos apóstolos ingênuos do desaparecimento das fronteiras, da “mundialização”, da União Europeia, do espaço Schengen e... Outra explicação dos lamentáveis resultados da profilaxia francesa: o culpado é o governo francês, cujo sistema de saúde costumava ser citado como exemplo, antes de ser desmantelado em nome da doutrina liberal.

Todas estas idiotices são obra de anônimos nas redes sociais. Vozes mais responsáveis denunciam as mentiras sobre as quais elas se baseiam. Mas Alain Chouraki, pesquisador do CNRS, se mostra pessimista. “O vírus ameaça desestabilizar a sociedade francesa por muitos anos ainda”. Os ódios, longe de se enfraquecerem nesta provação das “quarentenas”, só podem se intensificar, entre donos de casas e de imóveis múltiplos e os locatários de um quarto de empregada de 17 metros quadrados sob o telhado. Ninguém duvide de que estas falhas sociais se ampliarão até se tornarem verdadeiros fossos, à medida que as “quarentenas” se prolongarem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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