O voto dos feios, sujos e malvados

Partido Conservador precisa desesperadamente do voto dos trabalhadores para se manter no poder

O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2015 | 02h01

As pessoas que transitam diariamente pela Rodovia A414, em Essex, na Grã-Bretanha, acostumaram-se a uma cena peculiar. Todos os dias, das 7h às 9h e das 16h às 19h, um homem de quepe se instala com uma pequena cadeira à beira dessa estrada de duas pistas, abre um sorriso e faz sinal de positivo para os carros que passam. "Você tem de olhar nos olhos deles", explica Robert Halfon, um deputado do Partido Conservador, eleito pela cidade de Harlow, no condado de Essex. Muitos dos motoristas retribuem o gesto e buzinam para o parlamentar. "É isso aí, Halfon!", grita um sujeito que se debruça na janela aberta de sua van ao passar pelo local.

Halfon não é um deputado qualquer. Ao travar uma série de batalhas em torno de questões de interesse dos consumidores - relacionadas com impostos, casas de bingo, contas de energia elétrica, entre outras - o parlamentar conservador conquistou simpatizantes em todo o espectro político. Ele é mais conhecido por ter convencido conservadores e liberais democratas - os dois partidos da coalizão que governa a Grã-Bretanha - a suspender, desde 2010, todos os aumentos de impostos sobre combustíveis que haviam sido planejados. O parlamentar chama seu estilo de fazer política de "conservadorismo dos feios, sujos e malvados" - uma referência aos cobiçosos trabalhadores independentes que fazem de cidades como Harlow, a nordeste de Londres, referências eleitorais tão importantes. Nos anos 80, eles votaram em Margaret Thatcher; nos anos 90, elegeram Tony Blair. Mas desta vez não parecem estar convencidos de quem representa melhor seus interesses.

Os conservadores amparam sua propaganda na recuperação econômica vivida pelo país e na popularidade em alta de seu líder, David Cameron. Mas, a menos de uma semana da eleição, marcada para o dia 7, conservadores e trabalhistas estão empatados - situação que persiste desde o início da campanha. Para formar outra coalizão com os liberais democratas, os conservadores precisam manter quase todas as cadeiras que atualmente controlam na Câmara dos Comuns. Por incrível que pareça, a maior ameaça à continuidade de seu governo não vem diretamente dos trabalhistas. Desde a última eleição, poucos eleitores se deslocaram do campo conservador para o trabalhista, ou vice-versa. O verdadeiro problema dos conservadores é o populismo do UK Indepedence Party (UKIP), cujo apelo tem grande penetração entre os eleitores intelectualmente menos sofisticados e socialmente ambiciosos.

Mais de um em dez indivíduos que votaram no Partido Conservador em 2010 migraram para o UKIP, um partido que execra a Europa e a imigração. Esses vira-casacas são tipicamente homens, brancos e pertencem à classe trabalhadora. Lynton Crosby, coordenador da campanha conservadora, afirma que o eleitor que costuma votar no partido tem salário anual de cerca de 15 mil libras (US$ 23 mil) - 40% abaixo da média nacional -, lê o tabloide de direita Sun on Sunday e põe a economia e a segurança nacional acima de tudo.

A análise empresta cores a todo o campo conservador. Em entrevista concedida no dia 6, Cameron disse que os eleitores do UKIP precisam "voltar para casa". No manifesto lançado pelo partido no dia 14, o atual primeiro-ministro descreveu os conservadores como "o verdadeiro partido dos trabalhadores". Duas semanas mais tarde, afirmou que esse era o partido "de quem põe a mão na massa, dos pedreiros, dos encanadores e dos pequenos comerciantes". E Cameron não se cansa de falar de questões relacionadas à segurança do país.

Em seu manifesto eleitoral, assim como nas promessas feitas ao longo da campanha, o Partido Conservador corteja os eleitores "feios, sujos e malvados". O primeiro-ministro comprometeu-se a criar 50 mil novas vagas em cursos técnicos, expandir o sistema de creches gratuitas e isentar quem recebe até um salário mínimo do recolhimento de imposto de renda. Cameron chegou a prometer que se posicionará contra qualquer aumento nos principais impostos de que dependem as receitas governamentais até 2020. Também resgatou a oferta que Thatcher fez para conquistar o apoio dos trabalhadores, prometendo ampliar o "direito à compra" de moradias sociais por parte dos inquilinos de associações habitacionais.

A disputa pelo voto dessa faixa de eleitores é responsável pelas frequentes advertências que os conservadores fazem quanto ao risco à estabilidade econômica e política de um governo trabalhista que conte com o apoio do separatista e esquerdista Partido Nacional Escocês (SNP, na sigla em inglês). As pesquisas de opinião indicam que é justamente essa a maior preocupação dos simpatizantes do UKIP.

Halfon conta que os eleitores agora falam desse assunto com vivo interesse. Ele se diz maravilhado com a campanha de seu partido. Depois da eleição, vai mandar emoldurar as reportagens sobre o manifesto eleitoral. Ontem, o jornal Sun declarou seu apoio aos conservadores, mas a mensagem acabou ficando confusa quando sua edição escocesa apoiou o SNP. Apesar disso, a estratégia "feios, sujos e malvados" ainda não está dando muito certo. O partido não chegou à tão esperada "encruzilhada" com o Partido Trabalhista nas pesquisas eleitorais, principalmente por não ter conseguido pôr o UKIP razoavelmente de escanteio. O partido tem cerca de 12% das intenções de voto, um patamar bem mais elevado que o obtido em 2010, quando seus votos somaram 3%. Matthew Goodwin, especialista no UKIP, considera que o partido poderia custar aos conservadores cerca de 30 cadeiras no Parlamento. O Partido Trabalhista precisa conquistar 40 cadeiras na Inglaterra para liderar o próximo governo.

A melhor explicação para isso é que a maioria dos eleitores ainda desconfia que os conservadores não entendem suas vidas e seus interesses. Cameron não faz a menor questão de disfarçar sua origem privilegiada. E há ocasiões em que o próprio partido ajuda a reforçar essa impressão: do episódio em que o líder da bancada conservadora se pôs a ofender um policial - chegando supostamente a chamá-lo de "vagabundo" - à decisão economicamente perspicaz, mas politicamente masoquista, de reduzir o imposto das faixas mais elevadas de renda na trapalhada geral que foi o orçamento de 2012.

E o que é mais prejudicial ainda: os eleitores de baixa renda não sentem que sua situação está melhor hoje do que em 2010. A queda acentuada no desemprego é, em parte, apenas o reverso da moeda de um mercado que se distingue por muitos postos de trabalho informal e salários estagnados. Os conservadores alegam, com razão, que ter um salário baixo é melhor que não ter nenhum salário - e pelo menos as coisas não estão regredindo. Mas os feios, sujos e malvados devem ser perdoados por não se sentirem tão gratos assim ao governo atual. Como a vigília rodoviária de Halfon demonstra, às vezes são necessários esforços extraordinários para convencer esses eleitores de que os parlamentares conservadores estão realmente do seu lado.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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