O voto estratégico na Grã-Bretanha

Os ingleses precisam votar com a cabeça e não com o coração se quiserem garantir a manutenção no centro liberal e seu país na União Europeia

TIMOTHY, GARTON ASH, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2015 | 02h04

Esta eleição geral definidora de país é a mais europeia que a Grã-Bretanha já viu. Com um papel crucial desempenhado por partidos menores e políticas divergentes em diversas regiões ou nações dentro do Estado, o desfecho quase certamente será um governo de coalizão ou de minoria: tudo assustadoramente não britânico e tipicamente continental.

Mas esta mais europeia das eleições pode levar a Grã-Bretanha a sair da União Europeia (UE) e a Escócia, em seguida, a abandonar o Reino Unido. Pode significar também cortes drásticos em algumas áreas dos gastos públicos e mais desigualdade, em especial na Inglaterra, e uma nova erosão das liberdades civis.

Como eleitor inglês, são essas as coisas que desejo evitar. Quero que a Escócia permaneça ligada à Inglaterra, que a Grã-Bretanha permaneça na UE, uma sociedade britânica que procure combinar a eficiência de uma economia de mercado com justiça social e sustentabilidade ambiental - e quero que tenhamos a maior liberdade individual possível compatível com a liberdade dos outros. Como alcançar isso?

A maioria dos editoriais de jornais e revistas pré-eleitorais da Grã-Bretanha terminou nos conclamando, como nos velhos tempos, a optar por trabalhistas ou conservadores. Agora, as únicas duas pessoas com claras chances de ser primeiro-ministro são David Cameron e Ed Miliband, mas minha escolha como eleitor inglês individual é mais complicada do que isso.

Para começar, devo considerar as consequências para possíveis governos britânicos das diferentes maneiras como os escoceses, irlandeses do norte e, em menor escala, galeses votarão - e têm o perfeito direito de votar, por suas razões nacionais ou (conforme o gosto) subnacionais. Com o que parece um triunfo quase certo do Partido Nacional Escocês (PNE) em toda a Escócia, esse impacto será enorme.

Se tivéssemos um sistema continental de representação proporcional, eu poderia votar no partido do qual me sinto mais próximo, certo no conhecimento de que isso aumentaria sua presença no Parlamento e suas chances de moldar o novo governo. Não é assim em nosso sistema de maioria simples, que não é adequado ao tipo de política europeia com a qual a Grã-Bretanha topou.

Em muitos distritos eleitorais ingleses, o eleitor não terá de fato nenhuma chance, já que haverá as "cadeiras garantidas" para um candidato trabalhista ou conservador. Ouvi alguém dizer no rádio que sentia que seu voto não tivera nenhum valor em 40 anos.

Nos distritos eleitorais marginais que tradicionalmente decidem uma eleição britânica e, desta vez, provavelmente determinarão um pequeno grupo de permutações possíveis, eu geralmente terei uma escolha entre dois partidos - e posso não gostar de nenhum deles. Isso é tão familiar aos eleitores britânicos que nós esquecemos do quanto é insatisfatório.

Mas uma proposta de reforma eleitoral foi completamente derrotada num referendo em 2011, de modo que teremos de fazer o melhor com o que temos.

Isso, às vezes, significa votar com a cabeça e não com o coração. Na Grã-Bretanha, isso se chama, tradicionalmente, uma "votação tática", o que tem uma conotação levemente pejorativa. Mas o cientista político de Oxford, Stephen Fisher, considera que quase um a cada dez eleitores britânicos fez isso no passado, influenciando os resultados de aproximadamente 45 cadeiras. Mais de nós devemos fazê-lo desta vez, e deveríamos vê-lo como uma votação estratégica, e não tática.

Algumas partes desta escolha estratégica são um tanto espinhosas. Claramente, se, para o bem da Inglaterra, você quer manter a Escócia no Reino Unido, então você tem de manter o Reino Unido na União Europeia.

Se os ingleses votarem pela saída da UE, mas os escoceses votarem pela permanência, o líder do PNE, Nicola Sturgeon, quase certamente instigará os escoceses a realizar um novo referendo pela independência. A Brexit (saída da Grã-Bretanha da UE) é o caminho mais garantido para a Scoxit (saída da Escócia da Grã-Bretanha).

Mas qual é o caminho mais garantido para evitar a Brexit? Os trabalhistas têm uma política europeia mais racional e construtiva do que os conservadores. Mas não estou nem um pouco convencido de que cinco anos de um governo trabalhista de minoria, fraco, com palpável influência do PNE atiçando as chamas do ressentimento inglês e os conservadores mantendo a própria unidade interna desancando a Europa, ajudados e incentivados em ambos os aspectos pelo anti-Escócia Sun, nos colocariam numa posição melhor para ganhar um referendo sobre permanência que certamente virá, cedo ou tarde.

Outras partes são mais fáceis. Segundo Paul Johnson do Instituto para Estudos Fiscais, se os planos orçamentários atuais dos conservadores forem de fato executados, e eles continuarem a proteger gastos no Serviço Nacional de Saúde, escolas e pensões, isso poderia significar cortes orçamentários de "extraordinários 41%" para os departamentos não protegidos nesta década. É fato que precisamos continuar preocupados com os altos níveis de endividamento público e privado na Grã-Bretanha, mas isso é loucura.

Significa reservar partes de nossos gastos públicos - com um evidente cálculo eleitoral, cortejando eleitores centristas, femininos e idosos -, mas fustigar outros, como serviços sociais, defesa (exceto o Trident), cultura e universidades. Se for executado, o resultado não seria algum Estado mínimo ("de volta aos anos 30"), mas um Estado mais parecido com o logo dos Jogos Olímpicos de Londres - uma pavorosa confusão.

Alguns desses julgamentos podem ser complicados, mas a mensagem geral é clara: vote com a cabeça. Assim, se você for inglês e estiver indeciso entre trabalhistas e conservadores precisa antever que os trabalhistas serão dizimados na Escócia. Assim, se estiver preocupado com o equilíbrio geral no Parlamento de Westminster, essa é uma boa razão para votar nos trabalhistas por lá. Se, ao contrário, estiver numa vertente conservadora-liberal-democrata, não desperdice seu voto nos trabalhistas.

Por todas as prioridades que mencionei, é importante que haja um núcleo duro de talvez 35 representantes liberal-democratas capazes de uma coalizão com trabalhistas ou conservadores ou de influenciar um governo de minoria de esquerda ou de direita.

Eles também seriam fortes o bastante para levantar uma bandeira parlamentar por nossas muito desgastadas liberdades civis - uma questão pela qual os dois maiores partidos têm se mostrado cronicamente indiferentes. E se você estiver registrado em Brighton, Pavilion, vote em Caroline Lucas, mesmo que seu coração penda para trabalhistas ou liberal-democratas, para garantir que haja ao menos uma voz do Partido Verde no Parlamento.

Em suma: os ingleses precisam votar estrategicamente para que o centro liberal se mantenha. Desta vez, isso significa o centro liberal não somente da política britânica, mas da própria Grã-Bretanha. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD, ONDE ATUALMENTE LIDERA O PROJETO FREESPEECHDEBATE.COM, E BOLSISTA SÊNIOR NA HOOVER INSTITUTION, UNIVERSIDADE STANFORD

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.