O WikiLeaks, a mídia e o novo jornalismo

Com o tempo, Julian Assange, fundador do site, começou a compreender que o que norteia a cobertura dos eventos é a escassez e não a abundância

David Carr, The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2010 | 00h00

Será que o WikiLeaks mudou o jornalismo para todo o sempre? Talvez. Ou quem sabe o que aconteceu foi exatamente o contrário.

Em 2008, o WikiLeaks divulgou apenas documentos que sugeriam que o governo do Quênia havia saqueado o país. A imprensa em geral não se manifestou a este respeito. No início de 2010, o WikiLeaks passou a adotar um enfoque mais jornalístico - editando e comentando um vídeo de 2007 sobre Bagdá, no qual um helicóptero Apache abria fogo sobre um grupo de pessoas aparentemente desarmadas. Os comentários foram os mais variados, mas dessa vez a revelação recebeu uma atenção muito maior da mídia.

Em julho, o WikiLeaks deu início a uma espécie de parceria com veículos de comunicação oferecendo-lhes uma primeira visão do chamado "Diário da Guerra do Afeganistão", uma estratégia que resultou numa série de artigos sobre as implicações dos documentos secretos. Então, em outubro, o WikiLeaks decidiu abrir para os jornais Le Monde, El País, The Guardian e Der Spiegel o filão de ouro, até então secreto, de 250 mil telegramas diplomáticos dos EUA que descrevem as tensões em todo o globo.

Nota-se que a cada divulgação sucessiva, o WikiLeaks ia aperfeiçoando sua estratégia, e foi recompensado com uma cobertura cada vez mais séria e mais ampla de suas revelações. Julian Assange, fundador do WikiLeaks, começou a compreender que o que norteia a cobertura dos eventos é a escassez, e não a abundância. Em vez de simplesmente arrancar o pano para que todos pudessem ver, ele passou a limitar as revelações às que poderiam acrescentar valor mediante uma apresentação condizente. E publicando apenas uma parte dos documentos, em lugar de despejar as informações aleatoriamente e descuidadamente pondo em risco a vida de pessoas, o WikiLeaks também assumiu uma posição de responsabilidade, numa estratégia que parece ir contra o próprio anarquismo fundamental de Assange.

Embora este agora afirme que o site está interessado no que definiu uma nova forma de "jornalismo científico", seus primeiros escritos sugerem que ele acredita que a missão do WikiLeaks consiste em jogar areia na atuação de países que considera corruptos, fechados em si mesmos e particularmente malignos. Ele iniciou uma conspiração com a finalidade de desmontar o que considera uma conspiração maior ainda.

"A ideia de que esta experiência teria mudado profundamente o jornalismo, ou seja, a maneira como a informação surge, parece um tanto exagerada", disse Bill Keller, diretor executivo do New York Times. "A escala em que isto aconteceu foi inusitada, mas será que foi tão diferente dos Papéis do Pentágono ou da revelação de Abu Ghraib ou das interceptações realizadas pelo governo? Provavelmente não."

Neste caso, foi um conforto para as editoras jornalísticas saber que o tesouro não continha, com algumas notáveis exceções, nenhuma revelação capaz de abalar o planeta. Mas como ficou cada vez mais evidente que o WikiLeaks estava mudando a maneira de divulgar e consumir as informações, surgiram indagações a respeito do valor do enfoque jornalístico tradicional.

O WikiLeaks com certeza não se beneficia da mesma proteção dada aos outros veículos de informação nos países livres. Ao contrário, sofreu fortes ataques quando o PayPal, Amazon e Visa tentaram impedir o acesso aos seus serviços, medida que pareceria impensável se tomada contra jornais.

Mas Assange é um parceiro complicado. Até o momento, o WikiLeaks esteve envolvido com uma frutífera colaboração, uma nova forma de jornalismo híbrido que surgiu no espaço entre os chamados "hacktivistas" e os veículos de comunicação tradicionais, mas sua relação é instável. Talvez, por enquanto, o WikiLeaks esteja querendo jogar bola com os jornais, mas não compartilha dos mesmos valores ou objetivos. A imprensa tradicional talvez gaste muito tempo tentando cavar informações oficiais, mas ela opera em grande parte com base na convicção de que o Estado é legítimo e tem o direito a resguardar pelo menos alguns dos seus segredos.

Por outro lado, Assange colocou sobre a mesa uma mensagem apocalíptica: ele disse que se a existência do WikiLeaks for ameaçada, a organização publicará indiscriminadamente todos os documentos que ela possui, ignorando as eventuais consequências fatais deste ato. E se o WikiLeaks não gostar do modo como um dos seus parceiros da imprensa tratou das informações que ele forneceu ou não gostar da cobertura dispensada ao site? As mesmas armas da guerra da informática postadas contra seus adversários políticos e seus concorrentes na internet poderão se voltar contra os veículos de comunicação.

Steve Coll, presidente da New America Foundation, escritor e colaborador da revista New Yorker que tem escrito frequentemente sobre o Afeganistão, disse que a permanência do modelo do WikiLeaks é uma questão em aberto.

"Tenho minhas dúvidas de que uma divulgação deste porte venha a ocorrer novamente", afirmou, "em parte porque os interesses envolvidos e o estado de direito tendem a frear com rigor movimentos incipientes. Basta lembrar do impacto inicial do Napster e do que aconteceu com a rede".

Evidentemente o Napster deixou de existir, mas o ato de rebelião que ele representou quase ameaçou a indústria fonográfica. "Neste momento, os veículos de comunicação estão tratando deste caso como uma transação com uma organização jornalística legítima", ele disse. "Mas a certa altura, o site terá de evoluir e tornar-se uma organização com endereço e identidade, do contrário este tipo de colaboração acabará." / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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