O xadrez ucraniano

Geopolítica assumiu o palco das questões nacionais

Uwe Klussmann*, Der Spiegel/O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2014 | 02h07

A citação publicada na revista Der Spiegel 33 anos atrás era digna de nota e ainda soa extremamente atual: "Temos de garantir que, quando esse império soviético se desfizer em decorrência de suas contradições internas, ele desabe gradualmente em vez de explodir". A frase foi dita pelo então secretário americano de Defesa, Caspar Weinberg, em entrevista concedida em setembro de 1981.

Esta semana, a Ucrânia, uma das regiões mais importantes do antigo império, está se assemelhando mais a uma "explosão". Na quinta-feira, a violência em Kiev custou dezenas de vidas em meio ao tiroteio e a enfrentamentos brutais na Praça da Independência. A violência ocorreu após batalhas semelhantes na terça-feira e marca o início daquilo que pode se converter num conflito dramático e prolongado na disputa pelo futuro do país.

Alguns daqueles que viajaram a Kiev para ver o cenário em primeira mão, nas semanas mais recentes, estão plenamente cientes de como a situação é explosiva. O senador americano John McCain, de 77 anos, veterano do Vietnã, por exemplo, teve o avião abatido em 1967 e passou dois anos como prisioneiro de guerra. Em dezembro, ele subiu no palco montado na Praça Maidan, em Kiev, e disse à população: "Povo da Ucrânia, este é o seu momento! O mundo livre está ao seu lado! Os EUA estão com vocês!" Em outras palavras, a Guerra Fria está de volta e Moscou voltou a ser o adversário.

O que está em jogo não é mais apenas o acordo de associação comercial com a União Europeia (UE). O foco não é mais o futuro político do presidente Viktor Yanukovich, cercado por suspeitas de corrupção. A geopolítica assumiu o palco. A questão é quais centros de poder da Europa e da Eurásia se tornarão dominantes no futuro.

O ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA Zbigniew Brzezinski um dia comparou a região a um tabuleiro de xadrez. Como sempre, os jogadores são EUA, Rússia, UE e Otan.

Trata-se de um jogo de xadrez sobre um campo minado. A capacidade de explosão da situação na Ucrânia tornou-se clara numa entrevista concedida pelo ex-primeiro-ministro russo Yegor Gaidar - reformista liberal e aliado do Ocidente -, em 2008, um ano antes de sua morte.

"Aqueles que desejam fazer da Ucrânia um membro da Otan, como era a intenção do então presidente do país, Viktor Yushchenko, ignoram o fato de isso colocar a Rússia numa posição estratégica indefensável", disse ele, acrescentando que tal tentativa deveria ser abandonada.

Brzezinski adoraria ter colocado Moscou num xeque-mate. Em seu livro The Grand Chessboard, ele escreve que, sem a Ucrânia a Rússia, "se tornaria predominantemente um Estado imperial asiático". Mas, se Moscou conseguisse manter a Ucrânia e seus recursos sob seu controle, escreveu Brzezinski, a Federação Russa seria um "poderoso Estado imperial". Ele viu o perigo num possível "conluio russo-germânico" e na possibilidade de um acordo entre Europa e Rússia com o objetivo de expulsar os EUA da região.

Essencialmente, o ponto de vista de Brzezinski é aquele que orienta a estratégia americana até hoje: os EUA querem manter a Rússia tão longe quanto possível. Se os europeus se envolverem na Ucrânia e prejudicarem suas relações com Moscou, isso não seria problema para Washington.

De fato, a gafe cometida pela subsecretária de Estado americana, Victoria Nuland, que disse "F... a UE", não pode ser vista como um engano. Trata-se, na verdade, de uma expressão lógica, ainda que vulgar, da posição geopolítica americana.

No entanto, essa estratégia tem um ponto fraco: comparada com as ex-repúblicas soviéticas do Báltico, com suas pequenas populações, seria difícil integrar da mesma maneira a Ucrânia e seus 45 milhões de habitantes.

O país também se encontra profundamente dividido, apesar do acordo feito ontem, sob mediação da UE. As regiões economicamente mais fracas no oeste são bastiões nacionalistas. E as grandes empresas da Ucrânia, como as siderúrgicas, estaleiros e operações de construção de turbinas, estão localizadas no leste, voltadas para o mercado russo.

O russo é o idioma predominante no cotidiano da capital, Kiev, e milhões de russos moram no leste do país e na Crimeia. A Península do Mar Negro foi transferida para a Ucrânia em 1954, contra a vontade da população local. De fato, a Crimeia pode tornar-se o próximo ponto de ignição.

Num evento realizado em Kiev, em outubro, o embaixador americano no país, Geoffrey Pyatt, descreveu uma "miríade de oportunidades" se a Ucrânia se alinhasse com os EUA, dizendo: "Seu melhor amigo nesse projeto é o governo americano. Estamos prontos para ajudar o povo ucraniano a encontrar seu lugar na Europa."

Não é apenas o aparato governamental que está prestes a ruir - os alicerces de um país cujas fronteiras mal se sustentam a essa altura também estão abalados. As táticas adotadas pelo governo, alternando repressão brutal e momentos de negociação, só vão levar à radicalização dos manifestantes.

Quando a lei é determinada por comandantes de campo capazes de tudo, tem início a dinâmica da secessão. O conselho supremo da Crimeia já ameaçou com a possibilidade de instar os habitantes a "defender a paz civil" na península.

Até o momento, o Kremlin não buscou incentivar o movimento separatista. Além disso, nada indica que Vladimir Putin e seu sistema de poder estejam interessados numa guerra civil no seu quintal. No entanto, ela ainda pode explodir, mesmo contra a vontade de Moscou.

Aqueles que conhecem a história da Ucrânia sabem que militantes nacionalistas do oeste do país já se envolveram em batalhas que não podiam vencer. Depois da 2.ª Guerra, o exército insurgente da Ucrânia travou cinco anos de guerrilha contra o Estado soviético, provocando milhares de mortes de ambos os lados.

O ministro alemão das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, chamou a Ucrânia de "barril de pólvora" cujo pavio não deve ser aceso sob hipótese nenhuma. Em todo caso, tratar a revolução com romantismo só pode resultar numa "grande explosão" - cuja onda de choque pode se estender para muito além da Ucrânia.

*Uwe Klussmann é jornalista.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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