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O xeque de Bin Salman

O príncipe herdeiro do trono saudita joga duro e deve governar o país em breve

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2017 | 05h00

O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, pôs na cadeia um punhado de bilionários. Do lote fazem parte vários príncipes, entre eles o célebre Alwaleed Ben Talal, magnata da mídia cuja fortuna é calculada em US$ 18,7 bilhões. Completam o comboio outros príncipes, ministros, ex-ministros e ricos empresários ligados ao petróleo, ao setor de obras públicas, à compra de armas, etc.

Uma operação desse porte envolve problemas de logística. Como todos os detidos possuem avião particular (quando não uma frota...), foi preciso imobilizar não só os personagens, mas seus aviões, para impedir que fugissem neles. Foram também bloqueadas as contas bancárias dos indigitados – outro problema logístico, pois esses príncipes e seus amigos têm grande mobilidade em matéria de bancos. 

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O grupo foi acomodado no Hotel Ritz-Carlton de Riad, confinamento condizente com seu padrão de vida. Essa escolha de hotel revelou uma certa falta de tato: o príncipe Alwaleed, aquele dos US$ 18,7 bilhões, é proprietário de um dos hotéis mais luxuosos de Paris, o George V, concorrente do Ritz na capital francesa.

O príncipe herdeiro (seu pai, de 82 anos, deve em breve deixar o trono) joga duro. Esse homem audacioso, ambicioso e apressado deverá governar a Arábia Saudita dentro de poucos meses, a menos que seu golpe de força acabe lhe cortando as asas. Ele não gosta dos demais príncipes, aos quais acusa de entregar o país a parasitas, preguiçosos, corruptos, a ponto de o belo reino haver se tornado um pântano pestilento. Embalado pela perspectiva de sua próxima ascensão ao poder supremo, o príncipe começa a abrir caminho. “Bin Salman, como Putin, derruba todos os oligarcas que possam deter seu avanço”, comenta-se em Riad.

Bin Salman também cuida de seus adeptos. São eles a classe média e os jovens, que têm pressa em se libertar da claque dominante egoísta e imbecil, coberta de ouro e diamantes, para abrir o país à modernidade. O príncipe não teme enfrentar um dos preconceitos nacionais mais sinistros e cretinos: a condição subalterna das mulheres. Ele começou autorizando-as a dirigir. Que façanha! Esses seres frágeis, estúpidos, fúteis, inúteis, sem cérebro, tagarelas, vão poder, graças a Bin Salman, assumir o volante! 

Mas seu alvo é maior e ainda mais ousado: o poder religioso, responsável pelas trevas e a estupidez que inundaram a península árabe juntamente com rios de dinheiro, acorrentando os cidadãos com dezenas de proibições, ameaças e preconceitos mais estúpidos que os de um cura europeu do século 19. 

Já se diz que Bin Salman vai finalmente descongelar a política externa da Arábia Saudita, aplacar seus ódios, dar lugar à reflexão. Dar mais liberdade às mulheres e dedicar mais atenção aos jovens que à decrépita e ultrapassada cúpula dominante pode ser o prenúncio de mudanças nas grandes orientações do reino. 

Em um ponto, porém, Bin Salman parece seguir os passos dos primos, os outros príncipes: o ódio aos xiitas e principalmente ao Irã, o outro grande império do Oriente Médio, país que não é mais flexível que a Arábia Saudita, embora seus chefes pareçam um pouco mais inteligentes. Não muito, mas...

Que sinais, pois, o príncipe herdeiro está enviando em matéria de diplomacia? Ele parece ter tido um papel decisivo na recém-anunciada demissão do primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri. O premiê tinha uma posição audaciosa e perigosa: governava o Líbano seguindo uma fórmula que era na verdade seu verdadeiro pecado: manter um acordo com o Hezbollah libanês, milícia eficiente e cruel que tem o inconveniente de seguir a linha xiita – é sustentada pelo Irã, pátria do xiismo, logo, inimigo jurado da Arábia sunita. Bin Salman teria atuado para forçar a demissão do primeiro-ministro libanês. Não há provas, claro.

De qualquer modo, parece que a rivalidade que debilita o Oriente Médio, entre xiitas e sunitas (ou seja, entre Irã e Arábia Saudita), continua em plena forma, apesar do golpe do jovem príncipe herdeiro Bin Salman. Mas ainda estamos provavelmente no começo de um ciclo. Outras surpresas virão. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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