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Gilles Lapouge
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Obama a Hollande

A história contemporânea consome os seus presidentes. Elege-os com entusiasmo. Durante alguns meses, esforça-se por amá-los, mas depois vem o desamor. Todas as flores que iluminavam aquela bela árvore presidencial murcham e logo não resta nada, apenas galhos esquálidos, cinzentos, envelhecidos antes da hora.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2014 | 02h02

Essas desventuras são compartilhadas no mesmo momento pelos presidentes americano e francês. François Hollande está no meio do primeiro mandato. Barack Obama, no meio do segundo. Ambos entram no mesmo crepúsculo. Hollande registra os maiores níveis de impopularidade. Obama, no meio do mandato, perde o Senado e se enfraquece na Câmara dos Deputados. Assim, nos próximos dois anos, duas potências ocidentais serão comandadas por um grande paralítico.

E aí acaba o paralelo. A França é um país mediano, ao passo que os EUA são a maior potência do mundo. Obama só entrou na zona de turbulência durante o seu segundo mandato. Hollande ainda está num lamentável primeiro mandato.

Outra diferença: Hollande jamais fascinou as pessoas, ao passo que o surgimento desse negro americano eloquente, vibrante, brilhante e pacífico foi saudado como uma nova fase da história. Muito bem, essa casa, alguns anos depois, está deteriorada, caindo aos pedaços e suas chaminés não funcionam. O fracasso de Hollande é apenas uma anedota. O de Obama é um drama mundial.

A desaprovação de Obama tem causas especialmente internas: paralisia institucional, reforma da saúde, mau humor dos antigos combatentes, etc. Deixemos esses mal-estares de lado. Na Europa, foi sobretudo a política externa que exacerbou as expectativas: enfim, um presidente inteligente, culto, que arrancaria o mundo da guerra, da beligerância, da tensão. Ora, o fato é que Obama nem mesmo chegou a delinear os primeiros esboços dessa modernidade pacificada.

O que ele fez, no fim, foi pouco. Por uma lógica diabólica, os diplomatas da paz engendraram guerras e confrontos. O fracasso do Oriente Médio é espetacular. Vacinado contra as intervenções no estrangeiro após a aventura absurda de Bush no Iraque, Obama mostrou-se hesitante.

Na Síria, ao recusar-se no último momento a atacar o ditador Bashar Assad, deixou que se desenvolvesse uma guerra terrível, com danos colaterais: os jihadistas criaram um Estado Islâmico, que abrange o norte do Iraque e o norte da Síria e estende seus tentáculos na África. No Egito, Obama abandonou o ditador Hosni Mubarak, mas deixou em seu lugar o marechal Sissi, cinco vezes mais duro que o primeiro.

Em Israel, a cada dia que passa mais se distancia a solução de dois Estados convivendo pacificamente. A colonização se amplia na Cisjordânia. Na Faixa de Gaza, sufocada por Israel, aumentam as loucuras belicistas do Hamas, às quais o Exército israelense responde com punhos de ferro. Mais de 2 mil homens, mulheres e crianças em Gaza foram mortos e 15% das habitações, destruídas. Fracasso total.

Obama pretendia reatar as relações com a Rússia. Nesse caso, também fracassou: a Crimeia, engolida pela Rússia, a Ucrânia, dilacerada e fragilizada, a União Europeia, escarnecida e toda a máquina diplomática americana, inativa.

Claro que o Ocidente se vangloria de ter cercado e feito recuar o czar Putin. No entanto, Putin não dá a mínima importância. Na Rússia, ele está no apogeu da sua popularidade. E algumas partes da Ucrânia estão penduradas no seu bolso.

Se nossas lunetas se voltarem para a distante Ásia, podemos ver que o percurso de Obama é bem mais brilhante. Ele manteve relações respeitosas com a China sem ceder muito para Pequim. Os EUA mostraram sua força, de modo que agora todos os países da Ásia solicitam a proteção americana contra o expansionismo chinês.

Nesse caso, ele teve sucesso. Desde o primeiro mandato, Obama manifestou desejo de "girar" o eixo da diplomacia americana e reorientá-la para o Extremo Oriente. Ele se saiu bem.

Resta saber se os resultados moderados que conseguiu não serão frustrados pelos republicanos, que ganharam poder nos EUA. É o que podemos temer. Um dos sucessos de Obama foi ter acompanhado a entrada no concerto das nações do poderoso Irã. Para tirar o Oriente Médio do caos, um Irã mais sensato seria excelente para o Ocidente.

Nesse caso, portanto, foi um belo sucesso americano. No entanto, os republicanos parecem decididos a aumentar a pressão sobre os iranianos, com o risco de comprometer os avanços obtidos nas negociações sobre o programa nuclear de Teerã. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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