Obama acena com ''relação de iguais''

Líder dos EUA promete nova era no relacionamento com América Latina

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

17 de abril de 2009 | 00h00

Na véspera de seu encontro com 34 líderes da América Latina, o presidente dos EUA, Barack Obama, prometeu uma relação de igual para igual com os países da região. "Os tempos mudaram", disse Obama à rede de TV CNN."É importante que os EUA não digam aos outros países como estruturar suas práticas democráticas e o que deve ser incluído em suas Constituições." Confira a cobertura da Revolução Cubana Obama citou como exemplo dessa nova abordagem sua relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Temos uma relação de dois líderes à frente de dois grandes países, que estão tentando resolver problemas e criar oportunidades para seus povos e, portanto, devem ser parceiros. Não há parceiro sênior ou júnior." As expectativas em relação à participação de Obama na Cúpula das Américas são grandes. O americano se diz disposto a dialogar com o eixo anti-EUA, liderado pelo venezuelano Hugo Chávez. Na segunda-feira, levantou as restrições às viagens de cubano-americanos à Cuba, o que foi visto como um sinal de que quer mesmo normalizar as relações com a ilha. "O discurso de Obama expressa um reconhecimento de que a América Latina vem ganhando influência e independência - e alguns de seus países já são atores globais", disse ao Estado Peter Hakim, presidente do Diálogo Interamericano, centro de estudos com sede em Washington.As relações entre os americanos e seus vizinhos do sul sempre foram assimétricas e, por seu peso econômico e político, os EUA não deixarão tão cedo de ser um imenso polo de influência. Nos últimos anos, por exemplo, o México e boa parte dos países da América Central completaram seu ciclo de integração com os EUA, como escreveu o analista político Jorge Castro no jornal argentino Clarín: "O núcleo dessa integração são os 45 milhões de hispânicos nascidos nos EUA, que enviam US$ 66 bilhões em remessas para seus países."O discurso da igualdade, portanto, só faz sentido se analisado dentro da história das relações dos EUA com a região: refere-se, como o próprio Obama ressaltou, ao compromisso dos americanos de não interferir em países vizinho.INTERVENÇÕESOs primeiros discursos de reconhecimento da América como uma região coesa, que devia ser defendida das incursões do "agente externo" europeu, já nasceram nos EUA permeados por uma noção intervencionista. A Doutrina Monroe, criada no século 19 com o lema "a América para os americanos", justificou não só a guerra para expulsar os espanhóis de Cuba mas também, anos mais tarde, a Emenda Platt, que deu aos EUA o direito de intervenção na ilha, e o arrendamento da baía de Guantánamo.Por décadas os EUA assumiram o papel de guardião de valores - ou de "polícia da América Latina", como definiu, no início do século 20, Theodore Roosevelt, padrinho da política do Big Stick ("Porrete"), que na prática traduziu-se em intervenções no Haiti, Cuba, República Dominicana e Nicarágua.Por isso, para muitos líderes da região, é um alívio que Obama pareça se inspirar em outro Roosevelt, como nota Reginaldo Nasser, coordenador do curso de Relações Internacionais da PUC-SP. O democrata Franklin Roosevelt - que tirou os EUA da crise econômica dos anos 30 - desenvolveu na região a chamada "Política da Boa Vizinhança", descartando o uso da força na solução de conflitos. Foi esse passado de relações turbulentas que Chávez explorou nos anos de governo Bush, aproveitando o paralelo entre a política unilateral do republicano no Oriente Médio e o intervencionismo dos EUA na região. Agora, um dos desafios do novo presidente é reverter o aumento do antiamericanismo na América Latina. Ao menos seu carisma e história pessoal dão a Obama uma vantagem (embora tudo possa mudar se suas promessas ficarem só no discurso). Segundo a pesquisa Barômetro de Governabilidade Iberoamericano, divulgada ontem, Obama é popular entre 70% dos latino-americanos. Lula vem em segundo lugar, com 59%, e Chávez em último: 28%. "Por enquanto, Obama tem abordado a questão cubana e as relações com os países da região de forma pragmática e gradual", diz Nasser. "Mas acho que ele está mesmo disposto a fazer história - e por isso são grandes as chances de retomar as relações com Cuba até o fim do mandato." Segundo Nasser, se isso ocorrer, Chávez e outros líderes da região que usam a "ameaça do inimigo americano" para legitimar medidas de seu governo ficarão numa situação incômoda: "Eles terão de reformular seus discursos."RELAÇÃO ASSIMÉTRICA1823OEA - Criada a Organização dos Estados Americanos, por meio da qual os EUA consolidaram sua influência na região 1898GUERRA - EUA declaram guerra à Espanha para garantir a independência de Cuba. Três anos mais tarde, impõem à ilha a Emenda Platt, garantindo seu direito de intervenção e o arrendamento de Guantánamo1903CANAL DO PANAMÁ - Panamá declara independência da Colômbia com a ajuda dos EUA, que ganham direito de construir um canal e intervir no país1904?PORRETE? - Theodore Roosevelt inaugura a política do ?Big Stick?. Até os anos 30, há intervenções em Cuba, Haiti, República Dominicana e Nicarágua1933MUDANÇA DE RUMO - Após a recessão dos anos 30, Franklin Roosevelt implementa a ?Política da Boa Vizinhança? para melhorar as relações com os latinos. Hollywood cria Zé Carioca, o mexicano Panchito e faz de Carmem Miranda um ícone 1948OEA - Criada a Organização dos Estados Americanos, por meio da qual os EUA consolidaram sua influência na região 1959REVOLUÇÃO CUBANA - Ameaça comunista de Fidel (foto) justifica apoio dos EUA a ditaduras no continente1961INVASÃO - Fracassa a invasão da Baía dos Porcos, feita por exilados cubanos treinados pelos EUA. John F. Kennedy anuncia a ?Aliança para o Progresso?, que tinha o objetivo de desenvolver a região e conter o comunismo1962EMBARGO - Oficializado o embargo americano total a Cuba (comércio e viagens). Em outubro, ocorre a Crise dos Mísseis1964BRASIL - Golpe militar contra o governo de João Goulart no Brasil. EUA montam a operação Brother Sam para dar apoio aos golpistas, mas a ajuda não é necessária1973 GOLPES - Militares apoiados pelos EUA derrubam Salvador Allende no Chile. Três anos mais tarde, tomam o poder na Argentina.1981SANDINISMO - EUA armam os ?contras? para derrubar governo sandinista na Nicarágua1989MUDANÇA DE LADO - EUA invadem Panamá para prender o antigo aliado Manuel Noriega1994ALCA - Bill Clinton formaliza o projeto da Área de Livre Comércio para as Américas (Alca). Com a queda da URSS e o fim da Guerra Fria, a relação dos EUA com a região deixa de ter um componente ideológico2000NARCOTRÁFICO - Assinado o ?Plano Colômbia?, para combater o tráfico e a produção de drogas 2001REJEIÇÃO - Com o início da guerra ao terror, George W. Bush coloca a América Latina em segundo plano. Cresce o antiamericanismo na região2002CRÍTICA - Após golpe contra Chávez, na Venezuela, EUA emitem tímida declaração pedindo o ?restabelecimento do Estado de direito? no país2009REAPROXIMAÇÃO - Obama assume prometendo diálogo. EUA acabam com restrições de viagens e remessas financeiras de americanos a Cuba

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