Obama adota diplomacia agressiva

Anúncio sobre Iraque é só uma parte da extensa agenda do governo para restituir a confiança do mundo nos EUA

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

28 de fevereiro de 2009 | 00h00

À parte o esforço para salvar o país da crise econômica, o presidente americano, Barack Obama, nestes primeiros dias de governo, dá mostra da agressividade com que pretende recuperar a confiança mundial na capacidade diplomática dos EUA. Com o anúncio, na sexta-feira, da retirada das tropas de combate que estão no Iraque até agosto de 2010 e a intenção de envolver Irã e Síria - dois da série de arqui-inimigos eleita na era de George W. Bush - em conversações "sustentadas", Obama deixa claro que sua opção pelo "smart power" (poder inteligente, a tese que privilegia a opção do diálogo, sem abrir mão do poder de pressão da força militar) não é mera retórica. Além da meta de relegar ao passado a impopular guerra no Iraque, reforçar o contingente no cada dia mais explosivo Afeganistão e conter - pela via da pressão e da diplomacia - as pretensões nucleares de Irã e Coreia do Norte, um time de enviados especiais está cruzando o mundo para cuidar das áreas mais delicadas da política externa dos EUA. Em tempo recorde, o Departamento de Estado escolheu os principais funcionários para assumir as políticas-chave em relação ao Oriente Médio, Coreia do Norte e Afeganistão. A secretária americana de Estado, Hillary Clinton, já fez uma viagem de uma semana pela Ásia. Nesta semana, começa um giro pelo Oriente Médio.NOVA ABORDAGEM "Precisamos de uma abordagem mais sustentável e ampla, por isso estamos renovando nossa diplomacia", disse Obama no discurso de sexta-feira. "É por isso que estamos revendo a luta contra a Al-Qaeda no Afeganistão e Paquistão, desenvolvendo uma estratégia para usar todos os elementos do poder americano para impedir que o Irã desenvolva armas nucleares e buscando a paz entre Israel e o mundo árabe", acrescentou. "E é por isso que nomeamos alguns dos mais bem-sucedidos diplomatas americanos - George Mitchell, Dennis Ross and Richard Holbrooke - para auxiliar a secretária Hillary Clinton a tocar essa agenda."Holbrooke, que ganhou prestígio ao negociar o acordo de paz na Bósnia, é o enviado para Afeganistão e Paquistão - ou "AfPak", como a instável região, que abriga os santuários de terroristas, é chamada no governo. Ele já esteve na Alemanha com o vice-presidente Joe Biden para uma reunião da Otan, e foi ao Paquistão, Afeganistão e Índia recentemente. Ele deu sinais de que o governo Obama pretende angariar o apoio de países da região para resolver as tensões com Afeganistão e Paquistão - e engajar até mesmo o Irã.Mitchell, outra figura respeitada nos círculos diplomáticos, negociou a paz na Irlanda do Norte e é agora enviado especial para o Oriente Médio. Ele já viajou duas vezes à região para preparar o terreno para a visita de Hillary, atuando para achar formas de retomar as negociações entre palestinos e israelenses.Na quinta-feira, Mitchell reuniu-se com Binyamin Netanyahu, incumbido de formar o novo governo de Israel, para discutir a retomada do diálogo.O recém-nomeado enviado especial para Coreia do Norte, Stephen Bosworth, vai a Seul, Tóquio, Pequim e Moscou nesta semana para discutir os próximos passos da negociação sobre a questão nuclear norte-coreana. E ainda está prevista a indicação de um enviado especial ao Sudão, assim que o governo concluir uma revisão da política para o país africano.Analistas apontam para o perigo de ter tantos enviados especiais e assessores cuidando de questões importantes. A colisão de egos entre tantos figurões que são enviados especiais já teria começado, com a interferência de Holbrooke para a nomeação de seu amigo Christopher Hill como embaixador no Iraque, no lugar de Anthony Zinni, que foi "desconvidado".O portfólio de Dennis Ross, o encarregado do Irã, também teria sido reduzido por pressão de Holbrooke. Ross é o assessor especial para o sudoeste da Ásia e Golfo, título escolhido a dedo pelo governo para não mencionar o nome Irã, já que os EUA não têm relações diplomáticas com o país. Mas está claro que sua principal atribuição é o Irã, e seu portfólio deveria incluir também o Afeganistão, mas foi freado por Holbrooke.DESCENTRALIZAÇÃOPara Robert Pastor, professor de Relações Internacionais na American University, o esquema de descentralizar a política externa tem muita vantagens e será bastante eficiente. "Sozinhos, o presidente e a secretária de Estado dariam conta de pontos nevrálgicos como Oriente Médio, Irã e Afeganistão-Paquistão, isso consumiria todo o tempo deles", disse Pastor ao Estado. "Com enviados especiais cuidando dessas áreas, aumenta a possibilidade de avançarmos." Já a abordagem nas Américas tem sido mais lenta, com exceção do contato com seus vizinhos e parceiros do Nafta - Canadá e México. Mas o governo trabalha numa plataforma para a região para coincidir com a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dia 17, e a Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, em 17 de abril.Para Stephen Brooks, professor do Dartmouth College e coautor do artigo Remodelando a Ordem Global, que será publicado na próxima edição da Foreign Affair, nunca houve a indicação de tantos enviados especiais tão no início de um governo. Mas, apesar de toda a movimentação, ainda faltam definições em grande parte das questões externas. "Reconhecemos que temos muitos problemas, mas ainda não se sabe qual será a estratégia para o Afeganistão, além do envio de mais tropas, por exemplo", disse Brooks ao Estado. MUDANÇABarack ObamaPresidente dos EUA"Precisamos de uma abordagem mais sustentável e ampla, por isso estamos renovando nossadiplomacia. E é por isso que nomeamos alguns dos mais bem-sucedidos diplomatas americanos para auxiliar a secretária de Estado Hillary Clinton atocar essa agenda"

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