EFE/Alejandro Bolívar
EFE/Alejandro Bolívar

Obama adota linha oposta com Cuba e Venezuela

Maior legado de Obama, acordo com Havana reflete visão geopolítica ampla

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2017 | 05h00

A uma semana de deixar a Casa Branca, o presidente americano, Barack Obama, anunciou sua última grande mudança na política para Cuba: a extinção da norma do “pé molhado, pé seco”, que concedia residência a cubanos que conseguissem alcançar os EUA. A concessão é a mais recente de uma série na aproximação entre Washington e Havana, tida por analistas como a grande conquista do democrata em sua política para a América Latina.

Analistas consultados pelo Estado concordam em apontar o restabelecimento das relações com Cuba não só como a maior feito diplomático de Obama na região, mas também a expressão latino-americana de sua doutrina geopolítica. 

“As posições de Obama evoluíram. Nos primeiros quatro anos, houve pouco interesse. No segundo mandato, o presidente torna-se consciente da pressão na região para abrir as relações com Cuba”, avalia Diana Negroponte, especialista em América Latina do Wilson Center. “É o evento mais significativo da política americana para o hemisfério em oito anos. Ele será lembrado por isso.”

Para Geoff Thale, diretor de projetos no Washington Office for Latin America (Wola), assim como ocorreu com o Irã, o acordo com Havana mostra que o democrata vê os interesses pragmáticos americanos acima das questões ideológicas. “Levou alguns anos para o governo pôr em prática o que se esperava dele sobre a América Latina. Cuba é o mais relevante, sem dúvida”, afirmou. “Cuba é um exemplo de uma noção mais ampla de Obama: a Guerra Fria acabou e conflitos não necessariamente são uma luta incondicional pela vitória.” 

Essa visão racional, no entanto, sustentam observadores da política americana para a América Latina, não se repete no trato da Casa Branca e do Departamento de Estado destinado à Venezuela. Confusa, a relação oscilou entre sanções a membros do governo de Caracas e o envio de diplomatas para tentar uma aproximação com a gestão chavista. 

“As políticas de Obama para a Venezuela foram fracas e ineficazes”, avalia Diana. “Ele e Thomas Shannon não conseguiram criar pressão na região contra Maduro. A pressão deveria vir dos vizinhos, não dos EUA.”

Obama assumiu a Casa Branca em 2009 cercado de grandes expectativas de melhorar a relação ruim dos anos anteriores, marcada pelo golpe de 2002 na Venezuela e a tentativa fracassada de implementação da Área de Livre Comércio nas Américas (Alca). Na Cúpula das Américas de abril daquele ano, cumprimentou o ex-sandinista Daniel Ortega e ganhou um livro de Hugo Chávez. 

A grande transição das palavras para a ação no governo Obama deveu-se em parte, segundo analistas, à mudança de comando no Departamento de Estado. A troca de Hillary Clinton por John Kerry à frente do Departamento de Estado rendeu mais destaque à região na agenda da diplomacia americana. Veterano de questões latino-americanas desde sua atuação no Comitê de Relações Exteriores do Senado, Kerry foi crucial para o acordo com Cuba. 

“Apesar de Hillary ter sugerido a normalização com Cuba, isso não foi uma prioridade para ela. Kerry trabalhou com a América Latina e o tema lhe é especialmente caro. Além disso, há o papel do papa Francisco, latino-americano, que foi fundamental”, lembrou Thale.

Com Trump, os analistas ressaltam que será necessário esperar as nomeações do segundo e terceiro escalão no Departamento de Estado para prognósticos mais precisos.

O próprio Trump disse, ao longo da campanha, que não era contra uma aproximação com Cuba, mas acreditava que um “acordo melhor era possível.” “Acredito que as políticas como a retomada das relações e a retirada de Cuba da lista de países que patrocinam o terrorismo devem se manter”, concluiu Diana.


ERROS E ACERTOS:

Cuba: Maior trunfo de política externa de Obama no continente, a retomada das relações diplomáticas com Cuba foi selada em 2015. O país foi retirado da lista de Estados patrocinadores do terrorismo e houve concessões para aliviar o comércio e o turismo na ilha.

Venezuela: A relação de Obama com o chavismo foi marcada por altos e baixos. No primeiro encontro com Hugo Chávez, recebeu uma cópia de ‘As Veias Abertas da América Latina’, de Eduardo Galeano, na Cúpula das Américas. Com Nicolás Maduro, chegou a sancionar membros do governo e declarar a Venezuela um risco a interesses americanos. Por outro lado, tentou amenizar a situação com o envio de diplomatas para negociar a distensão na relação com Caracas, entre eles o ex-embaixador no Brasil Thomas Shannon.

Honduras: Primeiro desafio de Obama no cargo, o golpe de Estado de 2009 em Honduras, levantou muitas críticas à Casa Branca e ao Departamento de Estado, que adotaram uma posição confusa sobre a deposição do presidente Manuel Zelaya. Acusado pela oposição de tentar ampliar seus poderes, ele foi expulso de Honduras por militares e teve uma carta de renúncia forjada. Após a intervenção de países sul-americanos como Brasil, Argentina e Venezuela, Zelaya voltou ao país e refugiou-se na embaixada brasileira. Ele não voltou ao cargo.


 

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