Obama anuncia nova era e promete reconstruir EUA

No discurso de posse, Obama diz que americanos precisam mudar; 2 milhões de pessoas acompanham a festa; Presidente pede olhar vigilante para mercado não fugir do controle; Europeus reagem com otimismo

Patrícia Campos Mello e Fernando Dantas, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

21 de janeiro de 2009 | 00h00

O presidente Barack Hussein Obama prometeu "reconstruir os EUA" e estender a mão a nações amigas e inimigas no discurso de posse, visto ontem por cerca de 2 milhões de pessoas em Washington. Obama reconheceu as dificuldades que os EUA terão de enfrentar - entre elas duas guerras (no Iraque e no Afeganistão) e a maior crise econômica desde a Grande Depressão dos anos 30 - e proclamou uma "nova era de responsabilidade" para superá-las."A partir de hoje, precisamos nos recompor, sacudir a poeira e reiniciar o trabalho de reconstruir os EUA", disse Obama, para uma multidão emocionada que enfrentou o frio de -3°C para presenciar a posse do 44º presidente americano. "O que exigimos neste momento é uma nova era de responsabilidade", completou. Em um momento histórico, o presidente reconheceu que o período difícil que vive o país é resultado da incapacidade coletiva de os americanos tomarem decisões difíceis. "Nossa economia está em crise, uma consequência de ganância e irresponsabilidade de alguns, mas também de nossa recusa coletiva de fazer escolhas difíceis."A cerimônia teve ares de coroação, com Obama realizando o juramento sobre uma Bíblia de 1861, a mesma usada pelo presidente Abraham Lincoln, e fãs chorando e gritando o nome do presidente. Sinalizando uma ruptura com a política externa do governo de George W. Bush, Obama disse que os EUA não "se desculpariam" por seus valores e seu estilo de vida, ou hesitar em sua luta contra o terrorismo, mas deixou claro que o país trabalhará de forma multilateral."Gerações anteriores enfrentaram o fascismo e o comunismo não só com mísseis e tanques, mas com alianças vigorosas e convicções duradouras. Elas compreenderam que nosso poder apenas não pode nos proteger, não nos qualifica a fazer o que quisermos", disse. Obama quis passar uma mensagem para as nações do mundo. "Para todos os povos e governos que estão nos assistindo hoje, das mais grandiosas capitais à pequena aldeia onde meu pai nasceu: saibam que os EUA são amigos de cada nação e cada homem, mulher e criança que busca um futuro de paz e dignidade, e estamos prontos para liderar mais uma vez. Para o mundo muçulmano, buscamos uma nova maneira de avançar com base em interesses mútuos e no respeito mútuo."Obama prometeu sair de forma responsável do Iraque, estabelecer a paz no Afeganistão, e trabalhar "com amigos e velhos inimigos" para superar a ameaça nuclear. Ele deu outros sinais de que pretende fazer mudanças nas políticas de Bush que desgastaram a imagem dos EUA no mundo: "Quanto a nossa defesa comum, rejeitamos como falsa a escolha entre a nossa segurança e nossos ideais", disse, aludindo a Guantánamo e aos atos de tortura em Abu Ghraib. Ele também aludiu à desregulamentação econômica conduzida ao longo dos oito anos de governo Bush - apontada por muitos como uma das causas da crise. "Não está em questão se o mercado é uma força do bem ou do mal, mas a crise nos lembrou que, sem um olhar vigilante, o mercado pode fugir de controle."Obama, primeiro presidente negro dos EUA, lembrou a dimensão histórica de sua eleição. "Esse é o significado de nossa liberdade e nossas crenças, porque um homem cujo pai, há menos de 60 anos, poderia não ter sido servido em um restaurante da área, pode estar aqui hoje fazendo o mais sagrado dos juramentos."ADEUSBush teve uma despedida melancólica. "Tirem seus sapatos", gritavam alguns quando foi anunciado o nome do presidente de saída - numa referência ao sapato atirado em Bush por um jornalista iraquiano. Muitos vaiaram. Quando o helicóptero de Bush levantou voo rumo a sua fazenda no Texas, o público deu vivas e acenou com gestos de adeus. "Quero ter certeza de que ele está indo embora mesmo", disse um espectador. Na plateia, duas gerações se encontraram. De um lado, jovens que lideraram o exército que elegeu Obama. De outro, veteranos do movimento dos direitos civis, como George Beatty, 70 anos, que participou da Marcha sobre Washington, em 1963. "Obama é o símbolo pelo qual votamos por competência, e não por causa de cor ou classe social", disse Beatty. Outras celebridades, como o cantor Sting, o diretor Spike Lee e os atores Forrest Whitaker e Denzel Washington se juntaram à multidão. "Nunca teria orçamento para fazer uma cena dessas", disse o cineasta Steven Spielberg, que também assistiu à cerimônia de posse no Capitólio. *Leia mais sobre a posse de Obama nas colunas de Dora Kramer, Marcos Sá Correa, Sonia Racy e Roberto DaMattaDESAFIO Barack Obama Presidente dos EUA "Precisamos de uma nova era de responsabilidade - o reconhecimento de que temos deveres para conosco, com nossa nação e o mundo"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.