Obama aposta tudo na política externa

Com propostas ousadas para o tema, senador tenta diferenciar-se de Hillary

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2003 | 00h00

"Barack Obama está preparado para ser presidente?" Foi com essa pergunta que o apresentador da ABC News abriu o último - e enésimo - debate entre os pré-candidatos democratas. E, com exceção do azarão Mike Gravel, os candidatos não se fizeram de rogados: todos atacaram a falta de experiência do senador de Illinois. Para escapar deste enredo - Obama significa mudança, mas é inexperiente; Hillary é chata, mas sabe o que faz -, o senador aposta em um caminho ousado: o de inovador em política externa. Nas últimas semanas, Obama tem causado polêmica com suas posições sobre o tema. Primeiro , afirmou que estaria disposto a reunir-se, sem pré-condições, com os líderes "rebeldes" de Cuba, Venezuela, Coréia do Norte, Síria e Irã. Hillary Clinton não deixou passar. Chamou Obama de "ingênuo" e afirmou que esses regimes iriam se aproveitar dos encontros para fazer propaganda, indicando que ele não estaria preparado para as armadilhas da diplomacia presidencial. Depois, em uma mudança de tom brusca, Obama afirmou que, como presidente dos EUA, iria atacar Osama bin Laden no Paquistão, caso descobrisse que o líder da Al-Qaeda estivesse em território paquistanês e o governo do país não fizesse nada para capturá-lo. O republicano Mitt Romney partiu para o ataque de forma espirituosa: "Ele passou de Jane Fonda para Doutor Fantástico em uma semana." O senador Joe Biden, também candidato democrata, deu um puxão de orelha: "A última coisa que alguém deve fazer é passar um telegrama para o pessoal no Paquistão avisando que estamos prestes a violar a soberania deles."Mais recentemente , Obama afirmou em um artigo que os imigrantes cubanos deveriam ter direito de ir à Cuba livremente e mandar recursos para a ilha, ou seja, o governo americano deveria romper o embargo que mantém há décadas contra Havana. A campanha de Hillary reagiu dizendo que ela não faria contato com o regime cubano antes que o governo se tornasse democrático. Os comentários do senador foram considerados gafes por muitos analistas, enquanto outros afirmaram que Obama era o único candidato corajoso para tentar uma abordagem diferente em política externa. De qualquer maneira, trata-se de um caminho perigoso. Mas é a única opção de Obama neste momento - diferenciar-se de Hillary. Obama foi o campeão em arrecadação de recursos para campanha e tem ampla cobertura de imprensa, além do carisma imbatível. Mas continua bem atrás de Hillary nas pesquisas. Só em Iowa, onde ocorre a primeira e uma das mais importantes prévias, Obama está na frente, com 27%, seguido de Hillary e John Edwards, ambos com 26%, segundo pesquisa da ABC News - ou seja estão todos empatados. Por isso, Obama tenta se apresentar como o candidato da mudança , em contraponto a Hillary representando "tudo isso que está aí", "a politicagem de Washington". O senador de Illinois normalmente reage à acusação de inexperiência dizendo que "ninguém tinha mais experiência que Dick Cheney e Donald Rumsfeld, e vimos que isso não funcionou". Ele bate na tecla de que se opôs à invasão do Iraque desde o início, enquanto Hillary e outros "experientes" deram autorização ao presidente Bush para iniciar a guerra. Ao apresentar posições mais ousadas em política externa, seu objetivo é contrastar com Hillary, sem entrar em batalhas verbais - conforme explica seu estrategista Cornell Belcher. Mas Obama sabe que terá de ganhar a confiança dos eleitores sobre sua capacidade para ser presidente, independente de suas idéias ousadas para tirar os EUA do limbo de popularidade mundial em que se encontram. "Nos últimos seis meses, temos tentado apresentar uma candidatura da mudança. Nos próximos seis meses vou provar que sou um agente de mudança eficiente e que também tenho experiência para ser o próximo comandante-em-chefe." É uma missão e tanto.FRASES POLÊMICAS DE OBAMA"Estaria disposto, sim. A idéia que vem guiando nossa política externa de não falar com um país como forma de puni-lo me parece ridícula''''(Se estaria disposto a se reunir, sem pré-condições, com líderes de Venezuela, Irã, Síria, Cuba e Coréia de Norte) "Se tivermos informações da inteligência sobre terroristas importantes no Paquistão e o presidente Musharraf não agir, nós o faremos" (Ao ser perguntado se autorizaria operações militares unilaterais no Paquistão, que tem fracassado na captura de terroristas em seu território)

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