Obama aprendeu as táticas de Washington

Eleito com um movimento de massa sem precedentes nos EUA, presidente afastou-se de sua base, mas aprovou reformas que queria. Começa agora uma nova fase de seu governo

PETER BAKER, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

Numa tarde atarefada na Ala Oeste da Casa Branca, no fim do mês passado, o presidente Barack Obama parecia relaxado e sem pressa sentado numa cadeira de couro marrom recém-reformada no Salão Oval. Ele acabava de voltar do Salão Leste, onde havia assinado a Lei de Empregos em Pequenas Empresas de 2010. A lei será a última peça de legislação econômica importante do governo antes de os eleitores darem seu veredicto sobre seus primeiros dois anos no cargo. Para todos os fins e propósitos, o primeiro capítulo da presidência Obama terminou. No dia da eleição no próximo mês, o capítulo seguinte começará.

O presidente que conseguiu que o Congresso aprovasse talvez a mais ambiciosa agenda doméstica em uma geração se acha aviltado pela direita, castigado pela esquerda, e abandonado pelo centro. Ele envereda pelo trecho final da temporada de campanha de meio de mandato enfrentando um provável repúdio, com eleitores se preparando para lhe dar um Congresso que, mesmo que os democratas mantenham o controle, quase certamente será menos simpático ao presidente que aquele no qual ele passou os dois últimos anos brigando na lama.

Apesar do orgulho de suas realizações, Obama já começou a pensar no que deu errado - e no que precisa fazer para mudar o curso nos próximos dois anos. Ele passou o que um assessor chamou de "uma porção de tempo falando sobre Obama 2.0" com seu novo chefe de gabinete interino, Peter Rouse, e seu vice-chefe de gabinete, Jim Messina. Durante uma hora juntos, Obama me contou que não tinha arrependimentos sobre a direção geral de sua presidência. Mas identificou o que chamou de "lições táticas". Ele se permitiu parecer demais com "o mesmo velho democrata liberal chegado a tributar e gastar". Talvez ele não devesse ter proposto isenções fiscais como parte de seu estímulo econômico e "deixar os republicanos insistirem nos cortes de impostos" para que isso pudesse ser visto como um acordo bipartidário.

Sobretudo, ele aprendeu que, a despeito de toda sua retórica anti-Washington, tem de jogar pelas regras de Washington se quiser vencer em Washington. Não basta ser extremamente seguro de que está certo se ninguém concorda com ele. "Considerando como boa parte das coisas nos estavam chegando, nós provavelmente gastamos muito mais tempo tentando arrumar a política do que tentando fazer direito a política. Provavelmente há um orgulho perverso em minha administração - e eu assumo a responsabilidade por isso; isso emanava de cima - a ideia de que estávamos fazendo a coisa certa, mesmo que a curto prazo fosse impopular."

Decepções. O chocante no auto-diagnóstico de Obama é que, em suas próprias palavras, a figura inspirada de 2008 negligenciou a inspiração após sua eleição. Ele não ficou conectado com as pessoas que o colocaram no cargo. Em vez disso, desapontou simultaneamente os que o consideravam a personificação de um novo movimento progressista e os que esperavam que estendesse a mão para o outro lado para promover uma era pós-partidária.

Quando Obama obteve a nomeação democrata em junho de 2008, ele disse a uma multidão exultante que: "Poderemos olhar para trás e dizer aos nossos filhos que este foi o momento em que começamos a prover saúde aos doentes e bons empregos aos desempregados; este foi o momento em que a subida dos oceanos começou a desacelerar e nosso planeta começou a sarar; este foi o momento em que terminamos uma guerra, garantimos nossa nação e restauramos nossa imagem como a última e melhor esperança na Terra."

Li esse trecho para Obama e lhe perguntei como essa retórica altissonante soava nestes tempos de governança em voos baixos. "Parece ambicioso. Mas sabe de uma coisa? Fizemos progressos em cada uma dessas frentes." Mas salvar o planeta? Se o senhor promete salvar o planeta, as pessoas não deveriam pensar que o senhor realmente salvaria o planeta? Ele riu, antes de voltar à esperança e inspiração. "Não peço desculpas por ter expectativas tão altas para mim e para o país, porque acho que podemos satisfazer essas expectativas", disse. "Agora, o que eu direi - o que antecipei e pode ser duro - é o fato de que numa democracia grande e confusa como esta, tudo leva tempo. E não somos uma cultura que se construiu com base na paciência."

No mês passado, percorri a Ala Oeste conversando não só com Obama mas também com quase duas dezenas de seus conselheiros - alguns dos quais falaram com permissão, outros sem - na esperança de compreender como eles veem a situação. A visão de dentro do governo começa com um mantra básico: Obama herdou os piores problemas que algum presidente já teve em anos. Ou em gerações. Ou na história americana. Ele impediu uma nova Grande Depressão enquanto criava os alicerces para um futuro mais estável. Mas para isso ele teve de fazer coisas impopulares que inevitavelmente cobrariam um preço. No entanto, muitos funcionários temem que os melhores anos da presidência Obama tenham ficado para trás. Eles questionam se o momento é de avançar.

Popularidade em baixa. O índice de aprovação de Obama em pesquisas realizadas pelo The New York Times e a CBS News caiu para 45% no mês passado, ante 62% quando ele assumiu o cargo - apenas um ponto acima de onde Clinton estava antes de perder o Congresso em 1994 e três pontos acima de onde Reagan estava antes de os republicanos perderem cerca de duas dezenas de cadeiras na Câmara em 1982. Mas a equipe de Obama ainda se orgulha de ele ter cumprido três das cinco principais promessas que estabeleceu como pilares de sua "nova fundação" num discurso feito em abril de 2009, na Universidade de Georgetown: saúde, reforma da educação e revisão da regulação financeira. E aponta a decisões para encerrar a missão de combate no Iraque enquanto intensifica a guerra no Afeganistão.

Mas é possível vencer o jogo interno e perder o jogo externo. Em seus momentos mais sombrios, assessores da Casa Branca se perguntam em voz alta se é mesmo possível um presidente moderno ser bem-sucedido, sejam quais forem as leis que ele sancione. Tudo parece conspirar contra a ideia: uma oposição implacável com pouco ou nenhum interesse em colaborar, uma mídia noticiosa saturada de trivialidades e conflitos, uma cultura que pede soluções, um cinismo social que tem pouca consideração pela liderança. Alguns dos assessores concluem cada vez mais que qualquer presidente moderno poderá ser, na melhor das hipóteses, mediano.

A resposta fácil é culpar os republicanos, e assessores da Casa Branca fazem isso com entusiasmo. Mas eles também estão examinando seus próprios erros de julgamento e a arrogância que os levou a pensar que realmente podiam desafiar as leis da política.

O maior erro de cálculo nas mentes da maioria dos consultores de Obama foi a suposição de que ele poderia unir uma capital polarizada e forjar genuínas coalizões bipartidárias. "Se alguém achava que os republicanos iam simplesmente dar meia volta, nós estávamos terrivelmente enganados também", disse o ex-senador Tom Daschle, um mentor e consultor externo de Obama.

O governador Ed Rendell, da Pensilvânia, porém, está entre os democratas que julgam Obama com dureza por não ser mais astuto em face da oposição. A legislação da saúde é "uma conquista incrível", segundo ele, e o programa de estímulo econômico foi "absolutamente, inequivocamente, imensamente bem sucedido" em sua avaliação, mas Obama permitiu que eles fossem manchados por críticos.

"Eles perderam a batalha das comunicações nas duas principais iniciativas, e a perderam cedo", disse Rendell, ardente apoiador de Hillary Clinton que depois se tornou aliado de Obama. Esse é o refrão ouvido dentro da Casa Branca também: o problema é de comunicação. O primeiro refúgio de qualquer político encrencado é dizer que se trata de um problema de comunicação e não de um problema político.

A crítica política a Obama pode ser confusa e profundamente contraditória - ele é um liberal fanático, do ponto de vista da direita, e um conciliador fraco, para a esquerda. Ele é um socialista anticapitalista muito confortável com Wall Street, um apologista fraco em defesa da América que adotou as táticas antiterror implacáveis de Bush às custas das liberdades civis.

"Quando ele falava em ser um presidente transformador, a questão era restaurar a fé do povo americano e em nossas instituições governantes", diz Ken Duberstein, ex-chefe de gabinete da Casa Branca de Reagan, que votou em Obama em 2008. "O que sabemos agora é que isso não funcionou. No mínimo, nosso povo está ainda mais desconfiado de todas nossas instituições, especialmente do governo. Francamente, eu corrigiria esses dias - esquecer isso de transformação."

O outro lado gostaria de mais rigidez ideológica. Norman Solomon, um importante ativista progressista e presidente do Institute for Public Accuracy, disse que Obama "desperdiçou totalmente essa grande oportunidade" de reinventar a América sendo mais agressivo em questões como a opção de saúde pública. "Ele tem sido tão reativo desde que foi eleito, cedendo mais e mais terreno", disse Solomon.

Alvo. Golpeado por ambos os lados, Obama parece claramente frustrado e, às vezes, defensivo. "Os democratas, por natureza, tendem a ver o copo meio vazio", disse Obama numa reunião para arrecadar fundos em Greenwich, Connecticut, mês passado. "Se conseguimos uma lei de reforma da saúde histórica - ah bem, a opção pública não estava lá. Se conseguimos a aprovação de uma lei de reforma financeira, não entendo bem essa particular regra dos derivativos, não estou seguro de estar satisfeito com isso. E, caramba, ainda não conseguimos a paz mundial. Achei que isso ia acontecer mais rápido."

Rahm Emanuel, o primeiro chefe de gabinete da Casa Branca de Obama, que saiu do governo neste mês, disse que as crises em cascata dos primeiros tempos de Obama cobraram um preço duradouro. "As sementes de suas dificuldades políticas atuais foram plantadas na tomada daquelas medidas", afirmou. Funcionários da Casa Branca concordam em grande parte em que não deviam ter deixado o processo da reforma da saúde se arrastar enquanto esperavam um apoio republicano que jamais viria.

"Não é que as pessoas sentiam que enviaram Obama a Washington para ser o legislador chefe", disse um consultor de peso. "Elas se entregaram à percepção de que ele não estava fazendo nada sobre a economia." Mas, a despeito das críticas retrospectivas, o que menos se ouve na Casa Branca é questionamento sobre elementos básicos do programa. Assessores de Obama, tanto liberais como moderados, rejeitam as queixas da direita de que o estímulo econômico não ajudou a economia ou que a reforma da saúde expande demais o governo, bem como queixas da esquerda de que ele deveria batalhar por um pacote de estímulo maior, ou sustentado uma opção de saúde pública.

"Nós pedimos mais estímulo do que o que acabou prevalecendo", disse Larry Summers, conselheiro econômico nacional que está de saída do governo. "Mas nós lutamos com todas nossas forças, e acredito que conseguimos o máximo que o Congresso nos daria naquele momento."

Melody Barnes, conselheira de política doméstica do presidente, diz que o maior problema foi que após oito anos de Bush, os apoiadores de Obama estavam muito ansiosos para mudar tudo de imediato. "A demanda reprimida em toda área de problemas - ciência, educação, saúde, imigração, o que você disser - havia muito desejo de finalmente fazer essas coisas", disse.

Os assessores de Obama são mais otimistas sobre 2012 que sobre 2010, acreditando que o movimento (conservador) Tea Party elegerá Obama ao empurrar os concorrentes republicanos para a direita. Eles duvidam que Sarah Palin concorrerá e imaginam que Mitt Romney não conseguirá obter a nomeação republicana porque sancionou seu próprio programa de reforma da saúde quando era governador de Massachusetts. Se tivessem que imaginar hoje, alguns da Casa Branca dizem que Obama se verá concorrendo contra Mick Huckabee, o ex-governador de Arkansas.

Para mim, Obama expressou otimismo de que poderia fazer causa comum com os republicanos após as eleições intermediárias em novembro. "Pode ser que, a despeito do que aconteça após essa eleição, eles se sintam mais responsáveis, seja porque não se saíram tão bem como esperavam, e a estratégia de apenas dizer não para tudo e ficar nos bastidores atirando bombas não funcionou para eles, ou se saíram razoavelmente bem, caso esse em que o povo americano estará esperando que eles ofereçam propostas sérias e trabalhem comigo de maneira séria."

Mesmo que surja uma aliança assim, porém, os próximos dois anos serão de consolidação do que Obama fez em seus dois primeiros anos - e de defender isso dos questionamentos no Congresso e nos tribunais. Como colocou um veterano conselheiro: "Vai haver muito pouco incentivo para coisas grandes nos próximos dois anos, a menos que surja alguma espécie de crise." Obama e seus assessores ainda desprezam, contudo, a abordagem de reformas de pequeno calibre que Clinton adotou após as eleições intermediárias de 1994. Antes de deixar o cargo, Emanuel disse: "Não partilho a opinião de que não dará para fazer nada. Acho que é preciso ter uma agenda." Mas, que tipo de agenda? Não tão radical e não tão provocativa, dizem alguns conselheiros. "Ela terá de ser limitada e focada nas coisas que são alcançáveis e são altas prioridades para o povo americano", afirmou Dick Durbin, o segundo democrata em importância no Senado. Daschle disse que Obama teria de estender a mão para adversários.

Mas, quem é o protagonista, de fato? No fundo, este presidente ainda é um mistério para muitos americanos, Durante a campanha, ele vendeu mais a si mesmo - ou a ideia de si - que alguma política particular, e os eleitores preencheram as linhas da maneira que quiseram. Ele era, como ele mesmo disse na época, o teste de Rorschach extremo.

Agora as linhas estão sendo preenchidas um pouco mais. A cada escolha que Obama faz, ele se define mais, para melhor ou para pior, nas mentes dos americanos. Diz que sabe para onde está indo e está ganhando impulso apesar dos obstáculos à frente. Como afirmou a um grupo de visitantes na semana em que o Congresso aprovou a reforma da saúde e seu governo chegou a um acordo sobre um tratado de controle de armas com a Rússia: "Começo devagar, mas termino forte." Ele terá de conseguir isso para a história que está escrevendo sair do jeito que prefere. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É REPÓRTER DO "NEW YORK TIMES"

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