Eve Edelheit/Reuters
Eve Edelheit/Reuters

Obama assume papel de provocar o presidente Trump

Ataques ao republicano permitem que Biden cruze os EUA adotando um discurso moderado de quem pretende superar as divisões políticas

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2020 | 04h00

ORLANDO, EUA - O ex-presidente Barack Obama parece ter encontrado seu papel na campanha democrata, o de provocar seu sucessor, Donald Trump. Enquanto Joe Biden cruza os EUA com um discurso moderado, prometendo superar as divisões ideológicas e unir o país, Obama parte para o ataque, usando sarcasmo e ironia para irritar o atual presidente americano.

Ex-presidentes geralmente preferem ficar fora dos holofotes, principalmente quando se trata de atacar seus sucessores. Eles evitam a qualquer custo serem arrastados para o mesmo debate político a que foram submetidos. Por isso, há uma espécie de regra não escrita sobre o comportamentos daqueles que um dia ocuparam a Casa Branca. 

Obama, no entanto, acredita que o momento exige algo totalmente diferente. Ele e sua mulher, Michelle, rasgaram o protocolo e vêm atacando Trump constantemente. Foi exatamente o que aconteceu ontem em Orlando, na Flórida, onde Obama fez um discurso sob medida para fustigar seu sucessor. Usando de muita ironia, o ex-presidente debochou de Trump.

“Qual é o argumento dele na reta final da campanha? Que as pessoas estão focadas na pandemia. Ele disse isso em um comício: ‘Covid, covid, covid’. Ele reclama o tempo todo”, disse Obama, referindo-se às queixas de Trump de que a imprensa só fala do coronavírus. “Ele tem ciúmes da atenção que o vírus tem da mídia.”

Na semana passada, Trump interrompeu uma entrevista gravada para a jornalista Lesley Stahl, do programa 60 Minutes, da rede CBS, se queixando que as perguntas eram duras demais. Obama não perdoou. “O presidente reclama que o 60 Minutes pega muito pesado. Você acha que esse cara vai enfrentar ditadores? Ele acha que a Lesley Stahl é que é durona.”

O ex-presidente também aproveitou para criticar os comentários de Jared Kushner, genro e assessor de Trump, que mais cedo havia afirmado que, para que a política econômica do governo dê resultado para os negros americanos, eles precisam querer ter sucesso na vida. “Sério? Quem são essas pessoas? Que livros de história eles leem? Com quem eles falam?”, ironizou Obama.

Em 2016, o ex-presidente fez campanha para Hillary Clinton e criticou o então candidato republicano. Dois anos depois, nas eleições legislativas de meio de mandato, ele também teve uma participação ativa, sempre com críticas a Trump. No entanto, nada do que ele disse antes se compara com seus discursos na reta final de campanha deste ano. De acordo com assessores, o ápice de sua colaboração será um comício ao lado de Biden no fim de semana.

A volta de Obama aos holofotes é parte de um desejo de ajudar Biden de todas as maneiras que puder, de acordo com amigos e assessores do ex-presidente entrevistados pelo New York Times. Ele vem ajudando na arrecadação de fundos de campanha e estava ansioso para devolver o favor a Biden, que foi seu companheiro de chapa em duas eleições. 

Segundo estrategistas ligados ao ex-presidente, ele está disposto a cumprir o papel de cão de guarda do candidato democrata, dando golpes no presidente e deixando Biden livre para adotar um tom mais moderado durante a campanha, reforçando a imagem de um líder capaz de unir o país. 

“Claramente, ele (Obama) está se divertindo. É como um sujeito que tem muita coisa para dizer e espera há muito tempo por isso”, afirmou David Axelrod, amigo de Obama e ex-chefe de campanha do ex-presidente. 

Trump ouviu e não gostou. Imediatamente após o discurso de Obama, o presidente postou mensagens no Twitter se defendendo dos ataques e reclamando até da Fox News, que transmitiu o discurso do ex-presidente. “Ninguém está nem aí para os discursos agressivos de Obama”, escreveu o presidente. “Agora, a Fox News está transmitindo o discurso fake para Biden, sem ninguém na plateia. Biden era um sujeito que ele mal apoiava, porque nem sequer acreditava que poderia ganhar.” / NYT

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