Obama conquista pontos em viagem ao Oriente Médio

Com discursos e manobras afinados, americano pode dar como cumprida sua tarefa, que deve contribuir para estabilidade na região

JERUSALÉM, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2013 | 02h08

O presidente Barack Obama partiu ontem de Israel em meio a uma tempestade de areia, deixando um rastro de gestos simbólicos e fina oratória que deve ajudar a preservar o status quo num momento de reviravoltas na região. Com o telefonema que intermediou entre os premiês israelense e turco, o americano pôs os dois aliados dos EUA no caminho de reviver relações que já foram estreitas, mas se haviam desgastado profundamente.

Obama havia depositado tão poucas expectativas na viagem a Israel e Cisjordânia que pode facilmente proclamar cumprida sua missão, depois de seduzir israelenses céticos, aplacar seus temores sobre o Irã e mostrar aos palestinos que não havia esquecido suas aspirações.

É bem verdade que muitos palestinos continuaram desiludidos, sentindo que Obama cedeu à pressão israelense e recuou de sua exigência anterior, de uma paralisação na construção de assentamentos judaicos na Cisjordânia ocupada, nas terras em que os palestinos pretendem construir um futuro Estado.

Mas, após um primeiro mandato desgastante, que teve uma diplomacia malsucedida para o Oriente Médio, a principal preocupação de Obama parece ser que a situação na região não se agrave ainda mais, enquanto mantém vivas tênues esperanças de que um amplo acordo de paz entre israelenses e palestinos ainda é possível.

"Essa visita marca uma retomada da atenção americana para o conflito, o que é muito importante após dois anos de absoluta ausência dessa cena", disse Ghassan al-Khatib, acadêmico e ex-porta-voz do governo palestino. "Provavelmente, não levará a novas negociações, que, de qualquer forma, seriam sem sentido, dado o enorme abismo que separa os dois lados. Mas poderia trazer alguma cobrança de responsabilidade dos israelenses."

O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, pareceu muito satisfeito com a demonstração pública de jovialidade de Obama durante seus encontros, dispensando as expressões geladas que marcaram seus encontros anteriores. "A atmosfera foi muito melhor do que em todas as outras reuniões", disse um funcionário israelense de alto escalão. "Ele (o americano) deu a impressão de que realmente queria um recomeço", disse.

Obama já passou mais tempo conversando com Netanyahu do que com qualquer outro líder mundial, segundo a Casa Branca, e a dupla acrescentou muito mais horas a essa contagem esta semana. O Irã foi o principal ponto da agenda, disseram assessores, com Obama buscando construir uma confiança mútua e convencer Israel de que fala sério quando diz que não permitirá que Teerã obtenha armas nucleares.

Numa entrevista conjunta na quarta-feira, Netanyahu repetiu que Israel tinha o direito de defender seus interesses nacionais, mas acrescentou que estava "absolutamente convencido" de que Obama pretende fazer o que disse - uma declaração forte, vista como significativa por alguns analistas.

"Agora acredito que haja um completo entendimento entre Israel e EUA sobre a questão iraniana", afirmou Amotz Asa-El, do instituto Shalom Hartman, de Jerusalém. "Especificamente, eles estão esperando para ver se a eleição em junho no Irã provocará algum tipo de levante social, uma perspectiva que os governos americano e israelense obviamente preferem."

Israel e algumas potências ocidentais acreditam que o Irã quer fabricar armas nucleares - o que é negado por Teerã, embora o país persa defenda seu direito de enriquecer urânio para uso civil. Netanyahu traçou uma "linha vermelha" no progresso do programa nuclear do Irã, que ele disse que poderá ser cruzada nos próximos meses - sugerindo uma ação militar unilateral a menos que a república islâmica recue.

Giora Eiland, general da reserva e ex-consultor de segurança nacional israelense, disse que a possibilidade desse eventual ataque está diminuindo: "Acho que a opção ainda existe, mas a cada dia que passa as chances de sucesso diminuem".

A manobra para normalizar relações entre Israel e Turquia pode ajudar numa eventual coordenação para conter o transbordamento da guerra civil síria. "Nossas relações com Ancara podem ser muito importantes para o futuro, mas não só em relação ao que ocorre na Síria", disse uma fonte do governo Netanyahu.

A visita de Obama, porém, fez pouco para aumentar as esperanças de que o conflito entre Israel e os palestinos, que já dura muitas décadas, esteja perto de uma solução.

Obama passou por cima dos líderes israelenses que questionaram se eles têm um parceiro de negociação viável do outro lado do muro de separação que isola e divide a Cisjordânia - e apelou diretamente para os cidadãos comuns pressionarem por mudanças. Num forte discurso a estudantes israelenses atentos, o presidente advertiu, na quinta-feira, que Israel corre o risco de que o crescente isolamento internacional que sofre se intensifique se não houver um acordo de paz.

No entanto, o americano não ofereceu nenhuma proposta sobre como retomar as negociações que foram rompidas em 2010 e recuou de uma cobrança anterior para Israel interromper a construção de assentamentos, qualificando-a simplesmente de um empecilho para a paz.

Obama prometeu que seu novo secretário de Estado, John Kerry, dedicará mais tempo e energia ao problema, mas muitos israelenses viram seus comentários como um sinal de que Washington se distanciará de um imbróglio diplomático familiar a seus antecessores.

"A era em que os EUA empurravam Israel e os palestinos para um processo político acabou", disse Gidi Grinstein, presidente do Instituto Reut, um centro de estudos em Tel-Aviv.

"Na falta de uma visão e estratégia - considerando as prioridades de Obama e as atuais posições de Israel e dos palestinos - os EUA estão basicamente dizendo: 'Vocês nos telefonem. Nós não telefonaremos para vocês'", acrescentou.

Apesar de o presidente palestino, Mahmoud Abbas, ter elogiado o discurso de Obama, alguns de seus aliados políticos foram mais críticos.

"A visita de Obama não oferece nenhum avanço claro para uma solução séria do conflito", disse Wasel Abu Yousef , da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). "Parece que os EUA não estão interessados em resolver o conflito, mas, sim, em administrá-lo." / REUTERS

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