Kevin Lamarque/Reuters
Kevin Lamarque/Reuters

‘Obama continua a ser um enigma’

Diretor premiado, que está lançando livro sobre a História dos EUA, aponta contradições do atual presidente

Entrevista com

Oliver Stone, cineasta

Fernanda Simas, O Estado de S. Paulo

05 de julho de 2015 | 03h00

O massacre de Charleston, no qual um jovem supremacista branco matou nove pessoas em uma das mais tradicionais igrejas negras americanas, levantou novamente o debate sobre a crise racial vivida nos EUA, no ano em que se comemora os 50 anos da Marcha de Selma, que exigiu o reconhecimento do direito de voto dos negros no sul do país. Na ocasião, o presidente Barack Obama afirmou que a superação do racismo nos EUA “não é verdade”. Para Oliver Stone, ganhador de três Prêmios Oscar, o racismo está enraizado na história americana. “A discriminação racial persistiu legalmente por mais 100 anos após a abolição da escravidão”, afirmou ele em entrevista, por telefone, ao Estado. Ao lado de Peter Kuznick, Stone lança o livro A História não contada dos Estados Unidos, no qual critica a política de “intervenções militares” americana, mas elogia medidas recentes da administração Obama, como o posicionamento firme sobre os problemas raciais. 

O sr. acredita que o governo Obama deixará uma marca na história americana? Por quê?

Obama ainda é um enigma. É difícil saber no que ele realmente acredita. Desde o início ele se cercou de consultores de Wall Street para as questões de política econômica e militaristas para política externa. No que diz respeito à política externa, Obama nos desapontou por não romper totalmente com o que os anos Bush nos trouxeram. Ele praticamente triplicou o número de tropas no Afeganistão e apoiou a desastrosa invasão da Líbia. Ele não é um fã tão grande das armas como Bush, mas, apesar de ter ganho o Prêmio Nobel da Paz, ele não tem sido uma força para levar a paz ao mundo. Ele abraça a ideia do excepcionalismo dos EUA, basta ouvir seus discursos aos militares que voltam do Iraque. Sua política de drones abriu um terrível precedente. Ele prometeu ser transparente, mas se esforçou para expandir a vigilância. Por outro lado, Obama expandiu o sistema do seguro-saúde, defendeu a organização sindical, tentou colocar restrições em Wall Street, obteve conquistas na reforma ambiental, lamentou os efeitos persistentes do racismo, apoiou os direitos da mulher e dos homossexuais e lutou por outras questões de progresso. 

O racismo nos EUA voltou ou nunca acabou?

O racismo está profundamente enraizado na alma americana. E é também estrutural. A escravidão começou na América em 1619 e durou até 1865. São 246 anos, muito mais do que os 150 que os EUA vivem sem a escravidão. A discriminação racial persistiu legalmente por mais 100 anos após a abolição da escravidão. As consequências no emprego, educação e em outras maneiras de discriminação são grandes para a população negra. Disparidades de toda a forma existem e os republicanos da ala de extrema direita fazem de tudo para que os negros nunca recuperem o tempo perdido. Fizemos diversos progressos em questões raciais nos EUA nos últimos 60 anos, mas ainda há um longo caminho para percorrer.

Depois de 40 anos, como o senhor vê o fim da Guerra do Vietnã? Os EUA perderam a guerra ou se retiraram?

De diversas formas, a Guerra do Vietnã foi o começo do fim do império americano. Podemos dizer que os EUA perderam sua alma no Vietnã e com certeza perderam seu rumo moral. A Guerra do Vietnã foi uma derrota incrivelmente desmoralizante. Kissinger classificou o Vietnã do Norte como “poder de quarta categoria”, como pode uma nação camponesa atrasada derrotar a poderosa hegemonia? A verdade é que os EUA ganharam a maioria das batalhas, mas não conseguiram ganhar a guerra porque a guerra não era sobre espaço. Era uma guerra sobre o tempo. Tudo que os vietnamitas precisavam fazer era não perder e eventualmente os EUA teriam de sair (do país). Mas, de certa forma, os EUA alcançaram seus objetivos. O Vietnã não é tido como exemplo a ser seguido por outras nações. O país ainda tem resquícios de minas, bombas e outros explosivos. As pessoas ainda sofrem com os efeitos do agente laranja. A cobertura das florestas praticamente acabou. A invasão do Vietnã pelos EUA foi uma das maiores atrocidades da História.

Como o sr. vê a retomada das relações EUA-Cuba?

Já era tempo. Se Obama tivesse mais pulso, teria feito isso em seu primeiro dia de trabalho. Se Eisenhower tivesse mais coração, nunca teria rompido as relações do jeito que fez. Se Kennedy soubesse no começo de sua presidência o que soube no final, teria cancelado sua política no início. Finalmente tomamos o caminho certo, mas estamos cerca de 55 anos atrasados. Pense em todo o sofrimento que causamos ao povo cubano nesse tempo. Nós deveríamos pagar a eles uma reparação e agradecer por aceitarem normalizar as relações mesmo depois de tudo. 

É realmente possível fechar a prisão de Guantánamo?

Claro. Obama prometeu fazê-lo, mas depois sofreu empecilhos dos republicanos e até de algumas alas de seu partido (Democrata) e desistiu da luta. Essa é outra marca negativa contra os EUA aos olhos do mundo. Não é por acaso que o Estado Islâmico veste seus prisioneiros com um macacão laranja. Guantánamo é um símbolo de crueldade e desumanidade. 

A estratégia dos EUA na luta contra o EI na Síria e no Iraque está correta?

Que estratégia? No Iraque é um desastre. A Síria está uma bagunça. Os EUA deliberadamente alimentaram as chamas do extremismo islâmico. Eles trabalharam com os sauditas e paquistaneses para armar e treinar os extremistas islâmicos que se viraram para nós no 11 de Setembro. Agora, esses malucos extremistas estão causando estragos no Iraque e na Síria. Não há resposta simples para essa questão, mas trabalhar com a Rússia e o Irã para tentar resolver algumas dessas questões regionais seria ao menos um começo.

O sr. acredita que a situação na Ucrânia pode motivar uma guerra entre o Ocidente e o Oriente, como na Guerra Fria?

A situação na Ucrânia é muito perigosa. O acordo de Minsk deveria ser cumprido. É hora de reduzir as tensões a acertar as coisas de forma pacífica. Os EUA e a Rússia continuam tendo centenas de mísseis com milhares de armas nucleares apontadas cada uma para o outro lado em alerta máximo.

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