Drew Angerer/Getty Images/AFP
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Obama pede ao mundo ‘correção de rota’ em seu último discurso na ONU

Presidente americano critica a Rússia, defende legado de diálogo com países como Cuba e Mianmar, ataca ideias de Donald Trump e defende que cooperação global é fundamental para evitar o avanço do extremismo no Oriente Médio e no mundo

O Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2016 | 14h16

NOVA YORK - Em seu último discurso como presidente dos Estados Unidos em uma Assembleia-Geral da ONU, Barack Obama admitiu nesta terça-feira, 20, que seu país e outras grandes potências têm uma capacidade limitada para solucionar os problemas mais profundos do mundo, incluindo a guerra civil na Síria, e pediu uma “correção de rota” global.  Ele lamentou os “ciclos de conflito e sofrimento” que parecem ter início toda vez que a humanidade finalmente parece encontrar o rumo certo. “Talvez seja o nosso destino”, afirmou. 

A quatro meses do fim do segundo mandato, o presidente americano pediu mudanças para garantir que as “irresistíveis forças da globalização levem os países a se entrincheirar atrás de suas fronteiras, ignorando aqueles em situação mais vulnerável”. Ele repreendeu os líderes estrangeiros por estimular as divisões étnicas e religiosas, e criticou a Rússia por sua abordagem truculenta ao papel que o país desempenha no mundo.

Ainda assim, Obama insistiu que é fundamental tratar sem superficialidade o “imenso progresso” da economia e da cooperação global que, de acordo com ele, consiste num molde para enfrentar os problemas do futuro. Numa crítica pouco sutil a Donald Trump, o candidato republicano à sua sucessão na eleição de novembro, Obama disse, “Um país cercado por muros só conseguiria aprisionar a si mesmo”, referindo-se indiretamente à proposta do bilionário de levantar um muro na fronteira com o México.

As palavras de despedida de Obama às Nações Unidas contiveram uma avaliação dos desafios que ele deixa para trás: uma devastadora crise de refugiados, terrorismo, desigualdade econômica e a tendência de usar imigrantes e muçulmanos como bodes expiatórios. Em todo o Oriente Médio, afirmou, “a segurança e a ordem básicas entraram em colapso”.

“Esse é o paradoxo que define o mundo hoje”, disse Obama. “Um quarto de século após o fim da Guerra Fria, o mundo se tornou mais próspero e menos violento do que antes, de acordo com muitos critérios. Mas nossas sociedades se encontram tomadas pela incerteza, inquietude e caos.”

Crises. A reunião da ONU este ano se desenrola diante do sombrio pano de fundo do aprofundamento da guerra civil na Síria e o fracasso dos esforços diplomáticos de americanos e russos na tentativa de conter a violência por um período significativo. Na ausência de uma alternativa melhor, EUA, Rússia e outros repetiram hoje a pouco convincente ideia segundo a qual um cessar-fogo estabelecido há uma semana não estava em risco, embora o governo da Síria tenha declarado seu fim.

Obama reconheceu que a violência de extremistas que espalham o caos pelo Oriente Médio e outras regiões “não será revertida rapidamente”. Ainda assim, ele insistiu que a chave para a solução da guerra na Síria e de outros conflitos está nos esforços diplomáticos, não nas respostas militares.

“Se formos sinceros, admitiremos que nenhum poder externo será capaz de obrigar diferentes comunidades religiosas ou étnicas a coexistirem por muito tempo”, disse Obama. “Até que sejam respondidas questões básicas a respeito de como será essa coexistência, as brasas do extremismo continuarão a arder. Incontáveis seres humanos vão sofrer.”

O presidente também criticou Moscou em seu diagnóstico dos males do mundo contemporâneo. “Num mundo que há muito deixou para trás a era dos impérios, vemos a Rússia tentando recuperar uma glória perdida por meio da força.”

Há um ano, Obama ocupou o mesmo púlpito para declarar novamente a necessidade do afastamento do presidente sírio Bashar Assad, enquanto o presidente russo, Vladimir Putin, respondeu com seu próprio discurso, alertando para o erro de abandonar Assad. Desde então, a influência de Moscou no conflito aumentou substancialmente, na esteira de uma intervenção militar na Síria que reforçou a posição de Assad sem mergulhar as forças russas no “atoleiro” previsto por Obama.

Legado. Representantes da Casa Branca disseram que Obama estava ciente de que seu discurso à ONU seria uma das últimas oportunidades de definir sua liderança no palco mundial. Obama reafirmou a crença na ideia de que conflitos são solucionados quando países cooperam, e deu como exemplos a disposição de dialogar com antigos adversários como Cuba e Mianmar durante seus mandatos.

Diante dos 193 membros da Assembleia-Geral da ONU, Obama buscou definir em termos amplos um modelo para abordar outros conflitos ainda não resolvidos. Ele pediu que o mundo impusesse “consequências” à Coreia do Norte em razão de seu mais recente teste nuclear e, em termos menos diretos, pediu a Pequim que acatasse a recente decisão de um tribunal das Nações Unidas a respeito de suas pretensões territoriais no Mar do Sul da China.

Um dia antes de se reunir com o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, o presidente americano estabeleceu um paralelo entre o conflito entre israelenses e palestinos e a necessidade de respeitar as minorias raciais nos Estados Unidos.

Obama afirmou também que ambos os lados se beneficiariam caso Israel reconhecesse que não pode ocupar permanentemente terras palestinas, e se palestinos rejeitassem o incitamento e reconhecessem a legitimidade de Israel. "Com certeza israelenses e palestinos estarão melhores caso palestinos rejeitem incitamentos e reconheçam a legitimidade de Israel, (e se) Israel reconhecer que não pode permanentemente ocupar e se estabelecer em território palestino", disse. /AP, REUTERS, AFP e EFE

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