Obama deixa Síria de lado e agora se concentra no Irã

ANÁLISE: Jeffrey Goldberg / BLOOMBERG

O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2013 | 02h05

Tenho passado algum tempo com um grupo de generais israelenses reformados, conversando sobre a resposta americana mais apropriada ao programa nuclear iraniano, entre outros temas. Eles dizem que o comportamento de Barack Obama com a Síria deve levar os observadores racionais a admitirem que o presidente jamais se mostrará disposto a usar a força contra as instalações nucleares do Irã.

Segundo eles, a promessa de manter todas as opções na mesa é vazia. Eles acreditam que Obama está blefando. Essa é também a opinião de vários responsáveis pelas políticas israelenses e também a de um grande número de representantes de governos árabes, dos quais muitos se mostram consternados diante do que enxergam como o lento abandono, por parte de Obama, dos aliados no Oriente Médio. Nem é preciso dizer que os analistas mais aguerridos de Washington também acham a mesma coisa. Considero essa suposição errada porque, para ser válida, temos de acreditar que algo falso é verdadeiro, ou seja, que o presidente considera a Síria um desafio comparável ao representado pelo programa nuclear do Irã. Já está bem claro que ele não acredita nisso. Há no Oriente Médio apenas duas questões que Obama considera graves ameaças à segurança dos EUA: a Al-Qaeda, que continua a existir, e a ameaça de um Irã nuclear. Ele deixou claro que jamais considerou a guerra civil síria algo do mesmo nível dessas ameaças, mesmo com o uso de armas químicas por parte do governo de Bashar Assad.

Assim, o comportamento do presidente durante a crise síria não nos ensina necessariamente muito a respeito do que Obama faria se concluísse que o Irã não está interessado em fazer concessões envolvendo a questão nuclear. Quero chamar a atenção para outro ponto que me parece mal compreendido pelos falcões interessados no Irã: a decisão de Obama de não se envolver militarmente na Síria pode tornar mais provável um eventual ataque contra as instalações nucleares iranianas, caso as sanções e negociações fracassem em afastar os iranianos do rumo nuclear.

Pensemos assim: se Obama estivesse envolvido na Síria, seria improvável que ele tivesse capacidade de manobra (doméstica e internacional) para realizar ataques em outro país muçulmano. Como admitem os seus próprios críticos, o presidente está longe de agir como pacifista quando os alvos são muçulmanos considerados uma ameaça aos EUA. Mas, como George W. Bush aprendeu, presidentes devem evitar ao máximo os atoleiros no Oriente Médio.

É claro que se os ataques que Obama pensou em lançar tivessem milagrosamente derrubado o governo Assad, o presidente já teria agora certa liberdade de movimento. No entanto, seria impossível que tais ataques levassem a um colapso do regime. Na verdade, ocorreria o contrário.

Os prováveis resultados, principalmente se os ataques não tiverem a aprovação do Congresso, seriam os seguintes: baixas entre civis; imagens de Assad triunfante emergindo do abrigo após sobreviver ao que ele descreveria como ataque criminoso; um Exército sírio mais vingativo, matando civis e obrigando os EUA a ampliar a intervenção; processo de impeachment do presidente liderado por republicanos; uma tendência ao isolacionismo ainda mais forte entre os americanos, que já duvidavam da necessidade dos ataques; possíveis atentados terroristas contra alvos americanos, resultando em pressão maior para que Obama intensificasse a campanha contra Assad.

É interessante perguntar se a Síria teria sido num atoleiro para os EUA. Tendo a duvidar disso, simplesmente porque a pressão contra a ampliação do conflito teria sido forte. A invasão do Iraque despertou em muitos americanos uma alergia a aventuras no Oriente Médio, o que significa que um presidente terá muita dificuldade em defender uma intervenção militar no Irã.

Mas, ao manter os EUA fora da Síria, Obama pode ter conservado sua capacidade de intervir no Irã. Acredito que ele não deseja que o Irã obtenha uma arma nuclear, mas é difícil saber se ele seria capaz de evitar isso. Suas chances de escapar desse destino, porém, são maiores se ele evitar um envolvimento comprometedor em outras partes do Oriente Médio. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA

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