Obama demite general que o criticou e troca chefe militar no Afeganistão

Em nome do 'controle civil sobre militares', Obama afasta Stanley McChrystal, que havia questionado e insultado cúpula da Casa Branca em reportagem, e nomeia para conduzir a guerra afegã David Petraeus, um das figuras mais populares do Pentágono

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2010 | 00h00

CORRESPONDENTE / WASHINGTON

O principal comandante americano no Afeganistão, general Stanley McChrystal, foi demitido ontem pelo presidente Barack Obama, por causa de uma reportagem em que ele ridiculariza integrantes do governo e o próprio presidente. Para seu posto, Obama nomeou David Petraeus, que liderou a estratégia para o Iraque e é chefe do Comando Central ? a divisão das Forças Armadas responsável por Afeganistão e Iraque.  

 

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"Aceitei hoje de manhã a renúncia de McChrystal, fiz isso com pesar, mas era a coisa certa a fazer", disse Obama na Casa Branca. Ele disse não se sentir "pessoalmente insultado" pelas declarações de McChrystal à revista, mas que aceitar sua demissão era "a decisão certa" para a segurança nacional dos EUA. Obama afirmou que a entrevista à revista Rolling Stones "enfraquece o controle civil sobre os militares". Acrescentou que McChrystal não "aderiu ao estrito código de conduta" das Forças Armadas nem respeitou "a hierarquia".

Obama ecoou o ex-presidente Harry Truman, quando este demitiu o general Douglas MacArthur durante a Guerra da Coreia. "Se há um elemento básico em nossa Constituição, é o controle civil dos militares; se eu o deixasse desafiar autoridades civis dessa maneira, estaria violando meu juramento de respeitar a Constituição", escreveu Truman na época.

Mas, diferentemente de MacArthur, que tinha divergências em relação á estratégia de Truman para a guerra, a demissão de McChrystal não se deve a desacordos sobre a condução da guerra. Com Petraeus, aliás, envia sinais de manutenção da estratégia atual no Afeganistão. "Minha decisão não se deve a divergência sobre políticas, eu e McChrystal estamos em pleno acordo sobre estratégia", disse. "Trata-se de uma mudança de pessoas, e não de política, Petraeus supervisiona e ajudou a desenhar a estratégia atual", esclareceu Obama .

Na reportagem que causou sua demissão, McChrystal e seus assessores acusam Obama de não estar "empenhado" com o esforço da guerra, chamam o assessor de Segurança Nacional, Jim Jones, de "palhaço" e fazem um trocadilho pouco lisonjeiro com o vice-presidente Joe Biden, entre outros insultos.

"Eu apoio o debate em minha equipe, mas não vou tolerar a divisão", disse o presidente.

O fato de Petraeus ser um "insider" deve permitir que ele faça ajustes necessários na estratégia que, na opinião da maioria dos analistas, não está funcionando. O autor do artigo da Rolling Stones, Michael Hastings, conheceu vários integrantes do alto comando Militar americano por causa de seu trabalho na cobertura das guerras no Iraque e Afeganistão. Mas se tornou mais próximo de McChrystal em abril, quando ambos acabaram viajando de ônibus de Paris a Berlim por causa da atividade do vulcão islandês que fechou a maior parte dos aeroportos europeus. As declarações do general teriam começado a ser feitas neste período e se completaram depois, quando Hastings foi ao Afeganistão. . Segundo o editor da revista, Eric Bates, o artigo foi submetido aos assessores do general, que o aprovaram antes da publicação.

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