Obama deve alterar laços com Israel

Com sua corajosa mensagem aos líderes do Irã, o presidente Barack Obama - que nesta semana faz seu primeiro grande giro diplomático desde a posse - conseguiu feitos essenciais para uma reaproximação: deixou de lado a meta americana de mudanças do regime iraniano; enterrou o princípio do incentivo e ameaças; e inseriu o programa nuclear do Irã "numa ampla gama de questões à nossa frente". Assim, tornou quase inevitável que uma dessas questões que definirão sua presidência será uma dolorosa, mas necessária, redefinição das relações dos EUA com Israel. A mensagem de Obama e a sua abertura para Teerã foram notáveis. Obama referiu-se duas vezes à "República Islâmica do Irã", uma formulação há muito tempo evitada, e afirmou que essa república deve "ter seu lugar legítimo na comunidade das nações".Estive no Irã em janeiro e fevereiro. Essa visita convenceu-me que a prepotência americana no confronto com o Irã foi um desastre; que as analogias superficiais entre o regime iraniano e os nazistas são uma desonra para as 6 milhões de vítimas do Holocausto; que a retórica provocativa do regime dissimula um pragmatismo fundamental; e a melhor maneira de ajudar uma população jovem a conseguir as reformas que pretende é se envolvendo mais com o país.Obama adotou agora todas as medidas nas quais eu vinha insistindo. E essas mudanças exigiram coragem.Um dos envolvidos na revisão disse-me ter sido constantemente advertido por Israel e Estados árabes sunitas de que um envolvimento com o Irã levaria a nada. É claro que vão dizer isso; um avanço do Irã vai abalar os relacionamentos dos EUA, de Jerusalém a Riad. A abertura de Obama representou uma vitória, não só sobre esses lobbies, mas também sobre as teses oficiais no sentido de um endurecimento das sanções contra o Irã.O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, respondeu a Obama com um discurso corrosivo no santuário mais sagrado do país, em Mashad, lembrando todas as iniquidades dos EUA no passado, descrevendo o Irã antes da revolução como "um campo para os americanos pastarem", exigindo medidas concretas, como a suspensão das sanções, no lugar de palavras. Encare tudo isso como simples tática.As receitas do petróleo iranianas despencaram, a economia está um desastre, as instalações de gás e petróleo do país estão obsoletas. O Irã tem interesse cada vez maior num Iraque estável e no Afeganistão livre de um governo do Taleban. Seu programa nuclear envolve um certo risco que precisa ser administrado. O papel fundamental de Khamenei é conservador - preservar a revolução. Ele pode radicalizar apenas até um certo ponto. Em todo caso, superar um impasse que dura 30 anos exige tempo.Os enfoques divergentes dos EUA e Israel em relação ao Irã ficaram evidentes na própria mensagem que o presidente Shimon Peres enviou ao povo iraniano (não aos seus líderes) pela passagem do ano-novo persa, profetizando que ele vai se rebelar e derrubar "um punhado de fanáticos religiosos".Um membro do alto escalão do governo israelense disse-me que o Irã possui mil quilos de urânio pouco enriquecido e dentro de seis meses terá mais 500 quilos, o suficiente para produzir uma bomba. Pode, então, optar por um destes três caminhos: apressar a produção de uma bomba, adaptando suas centrífugas e produzindo urânio altamente enriquecido suficiente dentro de um ano; transferir o processo para um local secreto, caso em que a obtenção de uma bomba levaria mais tempo; ou continuar produzindo urânio pouco enriquecido que "bastaria para 10 bombas".E qual é o limite para Israel?, foi a minha pergunta. "Desde que eles obtenham 1.500 quilos, o tratado de não-proliferação estará morto", respondeu a autoridade. E então? "Está estabelecido que, quando um país que não aceita a existência de Israel tiver um programa como esse, nós interviremos."Há um pouco de bravata nisso. Israel não quer que Obama fale, fale e fale, portanto, está sugerindo uma ação militar. Mas o que fica claro é: esse envolvimento e essa nova diplomacia de Obama no Oriente Médio significa que a belicosidade israelense terá de ser refreada e será provável um resfriamento das relações com os EUA. A política americana de não fazer nada que prejudique Israel foi desastrosa, especialmente para a segurança dos próprios israelenses.* Roger Cohen é colunista

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