Jason Reed/Reuters
Jason Reed/Reuters

Obama deve atacar opositores em tradicional discurso anual

Presidente americano defenderá reforma tributária no Estado da União, na noite desta terça-feira

Denise Chrispim Marin, correspondente

24 de janeiro de 2012 | 19h42

WASHINGTON - Diante do risco de pronunciar seu último discurso sobre o Estado da União, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deve orientar o texto para os dois maiores inimigos de sua reeleição, em novembro - a economia fraca e a insatisfação do eleitorado democrata com seu governo.

 

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Conforme adiantado pela Casa Branca, no discurso a ser feito à meia-noite desta quarta, segundo o horário de Brasília (21 horas nos EUA), Obama decidiu retomar a defesa de uma reforma tributária, para aumentar a coleta de impostos dos mais ricos, e da expansão de incentivos do governo aos setores de energia verde e da indústria de manufaturas.

 

O componente eleitoral se destacaria, inevitavelmente, dado ser este o desafio maior de Obama neste ano. Segundo assessores, o presidente tentará convencer o eleitor-contribuinte a ver o pleito de novembro de 2012 como uma escolha entre a agenda democrata e a lei do Estado mínimo proclamada pelos pré-candidatos republicanos. Não, portanto, como o referendo de seu governo Obama.

 

"Podemos ir em duas direções. Uma é a da menor oportunidade e justiça. Ou podemos lutar por onde acho que precisamos seguir: construir uma economia que funcione para todos, não somente para uns poucos ricos", adiantou Obama, em um vídeo enviado previamente a cerca de dez milhões de seus simpatizantes na semana passada. "Precisamos retomar os valores americanos de justiça para todos e de responsabilidade de todos."

 

A proposta mais emblemática de Obama será a reforma na tributação federal, para acabar com os benefícios fiscais para os contribuintes com renda superior a US$ 370 mil por ano. Trata-se da chamada "Regra Buffett", em homenagem ao bilionário Warren Buffett, um dos patrocinadores da ideia e aliado do presidente americano. Em três ocasiões, desde dezembro de 2010, Obama teve de recuar nesse tópico caro aos democratas para evitar a paralisia de seu governo pelo Congresso, dominado pelos republicanos.

 

Desta vez, Obama terá duas razões para não mais ceder nessa via em 2012, mesmo sob o risco de governar sem recursos. Primeiro, mais um recuo será lido pelos democratas como nova concessão à agenda da oposição. Como a vitória nas eleições presidenciais americanas depende da capacidade de o candidato trazer os delegados de seu partido para as urnas, a Casa Branca terá nesse tema uma chave importante para o segundo mandato.

 

Segundo, Obama terá em seu potencial adversário, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney, o maior exemplo da injustiça do atual modelo tributário. Dono de uma fortuna de mais de US$ 250 milhões, Romney pagou em 2010, proporcionalmente, menos imposto do que uma família com renda anual de US$ 67 mil. Quanto mais a Casa Branca defender essa reforma, mais estará golpeando Romney.

 

Antes mesmo de Obama finalizar o texto do Estado da União, já era criticado duramente por Romney. Em um comício em Tampa, na Flórida, onde enfrentará a primária republicana de 31 de janeiro, Romney afirmou que o discurso de Obama seria "divisivo" da nação e teria conteúdo "retórico". "É crítico fazer com que o Estado da União seja o último de Barack Obama", afirmou.

 

A distinção da agenda do atual governo democrata e a dos pré-candidatos republicanos será enfatizada igualmente quando Obama mencionar a necessidade de aumento de incentivos à energia verde e às manufaturas, mesmo sob o risco de aumento do endividamento americano - hoje equivalente a 100% do Produto Interno Bruto (PIB). Trata-se da mensagem contrária não só à dos republicanos, como também daquela disseminada em 1996 pelo então presidente democrata Bill Clinton, em seu Estado da União de 1996. Clinton também estava empenhado em sua reeleição. "A era do governo grande acabou", dissera.

 

No discurso, assim como no Estado da União de 2011, Obama defenderia a expansão necessária do gasto com incentivos setoriais para garantir a retomada do crescimento econômico, a geração de empregos e o retorno de postos de trabalho transferidos para a Ásia. Nenhum presidente americano conseguiu ser reeleito em um ambiente econômico marcado pela taxa de desemprego superior a 8,0%. A de dezembro passado estava em 8,5%.

 

Porém, ao argumentar em favor da subvenção ao sertor de energia limpa, Obama estará diante de outra artilharia. O subsídio à Solyndra, companhia da Califórnia fabricante de painéis solares, não impediu sua falência, em novembro passado. O governo americano emprestara US$ 535 milhões à empresa, em condições mais favoráveis, e Obama visita sua planta, em 2010. O caso está em investigação, no Congresso, e tornou-se mais um calcanhar-de-aquiles para a Casa Branca. 

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