Obama deve mostrar iniciativa

Para tratar da Ucrânia, americano terá de pressionar europeus e negociar com os russos

FAREED , ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2014 | 03h02

Na origem do problema, estão as vacilações da União Europeia e, evidentemente, mais importante ainda, a agressão da Rússia. Caberá ao presidente Barack Obama mostrar força e habilidade para solucioná-lo. Durante anos, a UE demonstrou uma atitude ambivalente em relação à Ucrânia, o que causou instabilidade no país e a oposição da Rússia.

O argumento mais poderoso da UE é a perspectiva de adesão da Ucrânia ao bloco. Esse ímã transformou sociedades no sul e no leste do continente, criando estabilidade, modernização econômica e democracia. Por isso, é uma arma que deveria ser usada como instrumento estratégico e com seriedade. O que não aconteceu no caso da Ucrânia.

A Ucrânia é o país mais importante no espaço pós-soviético, que a Rússia pretende dominar politicamente. Se a Europa quisesse ajudar a Ucrânia a se aproximar do Ocidente, deveria ter planejado uma estratégia de atração corajosa, generosa e rápida. Em vez disso, a UE promoveu negociações prolongadas, tortuosas com Kiev - e acabou oferecendo um acordo de associação exigindo predominantemente que o país empreendesse maciças reformas econômicas e políticas antes de obter acesso, intercâmbio ou ajuda da Europa.

No entanto, não devemos continuar acreditando que as medidas adotadas por Moscou foram brilhantes do ponto de vista estratégico. Vladimir Putin deve ter se sentido extremamente frustrado em fevereiro, quando um governo favorável à Rússia era destituído e a Ucrânia estava se afastando de seu círculo de influência. Quando as Olimpíadas de Sochi acabaram, ele agiu sem perda de tempo e enviou suas tropas para a península. Foi um erro. Ao tomar a Crimeia, Putin perdeu a Ucrânia.

Desde 1991, a Rússia procura influenciar a Ucrânia utilizando-se de políticos pró-russos, atraídos pelo governo de Moscou para ouvir seus diktats. Esse caminho agora está fechado. Stephen King, de Princeton, destaca que nas últimas eleições, em 2010, Viktor Yanukovich, que representava até certo ponto as forças favoráveis à Rússia, venceu na Crimeia por quase um milhão de votos - graças a isso ganhou as eleições. Em outras palavras, separando a Crimeia da Ucrânia - como Putin fez - torna-se praticamente impossível para um ucraniano pró-Rússia chegar à presidência. Não devemos esquecer de que a Ucrânia é um país dividido, mas não pela metade. Sem a Crimeia, apenas 15% da população é composta de russos étnicos.

Na realidade, a única esperança de que a Rússia mude de rumo na Crimeia está precisamente no fato de que Putin pode se dar conta de que a única chance de manter sua influência na Ucrânia é contando com a Crimeia - com sua ampla maioria russa - como parte daquele país. Tão crucial quanto perder a Ucrânia, foi o fato de que Putin desencadeou um profundo sentimento nacionalista antirrusso ao redor de suas fronteiras.

São 25 milhões os russos étnicos que vivem fora da Rússia. Casaquistão e Azerbaijão, com significativas minorias russas, devem se perguntar por que Putin fomentou movimentos secessionistas também por lá - e depois usou o Exército para "protegê-los". Em todo caso, a Rússia teve de subornar os países com ofertas de gás barato para que aderissem à sua "União Eurasiana". Desconfio que o custo disso deve ter aumentado consideravelmente para Moscou.

Além dos países limítrofes, as relações da Rússia com Polônia e Hungria, outrora amistosas, agora são tensas e antagônicas. A Otan, que está à procura de um papel nesta era pós-Guerra Fria, ganhou uma nova chance de sobrevivência. Moscou enfrentará algumas sanções de Washington e, quase certamente, também da União Europeia. Numa rara divergência com a Rússia no Conselho de Segurança da ONU, a China recusou-se a tolerar os avanços na Crimeia. A anexação da Abkházia e da Ossétia do Sul por Moscou foi reconhecida por Nicarágua, Venezuela e duas ilhas no sul do Pacifico. É possível que esses mesmos países reconheçam a anexação da Crimeia.

Em geral, sou muito cauteloso diante de apelos por intervenção americana em conflitos ao redor do mundo. No entanto, este é diferente. A crise na Ucrânia é o problema geopolítico mais sério desde o fim da Guerra Fria. Ao contrário de muitas trágicas guerras civis e étnicas que eclodiram nas últimas três décadas, esta crise envolve uma grande potência global, a Rússia. Portanto, ela poderá ter - e terá - consequências de grande alcance.

Envolve ainda um considerável princípio global, a possibilidade de mudar fronteiras nacionais pela força bruta. Se fazer isso se tornar aceitável, o que ocorrerá na Ásia, onde há dezenas de fronteiras em disputa - e várias grandes potências dispostas a modificá-las? O presidente Obama deve mobilizar o mundo todo, pressionar os europeus e negociar com os russos. Na crise atual, os EUA são realmente a nação indispensável. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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