Obama e a Nova Europa

Barack Obama e Dmitri Medvedev assinaram em Praga um acordo para substituir o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start).

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2010 | 00h00

Ótimo. Esse gesto não vai reduzir muito o fabuloso arsenal das duas potências. Passar de 2.200 ogivas para 1.550 não é motivo para muito regozijo. Isso vale mais como símbolo, vontade de avançar para um mundo pacífico. E confirmar o reaquecimento das relações entre Moscou e Washington.

Mas, além de ir a Praga, Obama aproveitou para lisonjear as potências do lugar. Ele convidou para sua mesa 11 dirigentes do Leste Europeu, aquilo que hoje chamam de "Nova Europa" por contraste com a "Velha Europa". Boa ideia. A Nova Europa está ressentida. Ela acha que foi negligenciada pelo americano.

Entretanto, tanto a Nova Europa como a Velha, haviam acolhido Obama com entusiasmo e o presidente americano no início parecia corresponder a suas atenções. Foi há um ano, em Praga, lugar simbólico, que ele proferiu um discurso muito lírico apelando para um mundo livre de "armas nucleares", discurso que a assinatura do novo Start em Praga pretende prolongar. As desilusões não tardaram.

Em julho, Obama recebeu uma carta feroz assinada por figuras importantes, entre elas o polonês Lech Walesa, uma carta virulenta: "Os países da Europa Central e do Leste Europeu não se sentem no centro da política externa americana." A Casa Branca, assim alertada, consertaria o estrago? Absolutamente.

Pior: em setembro, um telefonema da Casa Branca notificou poloneses e checos o abandono do projeto do escudo antimísseis que George W. Bush havia costurado e o Leste Europeu via como o sinal do engajamento dos americanos na região. O analista político búlgaro Ivan Krastev comentou: "Os 15 minutos de glória mundial da Europa Central terminaram." A Nova Europa está amuada. Há 20 anos, ela se havia "colado" aos Estados Unidos, por exemplo, chegando a apoiar a guerra no Iraque, ao contrário da Velha Europa que, puxada por François Chirac, havia feito corpo mole ou mesmo se recusado a enviar alguma força militar para lá. Obama iria recompensá-la? Absolutamente.

A indiferença de Obama feriu esses 11 países do Leste. Daí o jantar de ontem. Mas a desconfiança prevalece. O mesmo Ivan Krastev perguntou-se: "O encontro com Obama, essa noite, não será um jantar de adeus?" Na verdade, as questões que se colocam na Nova Europa são hoje questões que a Velha Europa se coloca há meses. Mesma desilusão! Se os europeus tivessem podido votar nas eleições americanas, Obama teria sido eleito com contagens padrão Stalin. E o que ocorreu em seguida? Obama manifestou apenas um diferença distraída pela Europa.

É preciso abrir os olhos: Obama se interessa bastante por Oriente Médio, Ásia, Japão, África, Rússia, mas muito pouco pela Europa. Aliás, ele não a compreende. Ela não faz parte da sua cultura.

E ademais, ela tem regras muito confusas: que continente é esse reunido nessa União Europeia que está cada vez mais confusa, indecisa, e na qual cada país detesta todos seus vizinhos? A Nova Europa engana-se quando se considera a "mal-amada" de Obama. Na verdade, é a totalidade da Europa que não conseguiu seduzir o hóspede da Casa Branca. E não é a construção desigual e já carcomida da União Europeia ou da zona do euro que incitará Obama a retificar seus julgamentos sobre esse continente tão pouco compreensível. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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