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Obama e a paz

O presidente retirou das linhas de combate milhares de soldados americanos e expandiu operações secretas e o uso de drones em dezenas de países

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

14 Janeiro 2017 | 05h00

Quando o presidente Barack Obama foi eleito, há nove anos, viajei ao Afeganistão para escrever sobre o que seria “a guerra de Obama”. Com a morte do ex-ditador Saddam Hussein, dois anos antes, e a ascensão ao poder de seus opositores, apoiados pelos americanos, o interesse no Iraque minguava. Enquanto isso, Osama bin Laden continuava à solta e a segurança no Afeganistão degringolava – o Taleban havia recuperado controle total ou parcial de 70% do território afegão e a extinção da Al-Qaeda era, como a paz, apenas uma miragem. 

Nos EUA, os conflitos haviam drenado da economia mais de US$ 3 trilhões e arrastado centenas de milhares de jovens para o front, muitos dos quais foram mortos ou retornaram com sequelas físicas irreversíveis. Capturar Bin Laden e pôr fim às guerras herdadas de George W. Bush eram bandeiras de Obama.

No quarto de uma pequena hospedaria afegã, acordei com a notícia de que Bin Laden estava morto na manhã de 2 de maio de 2011 (noite de 1.º de maio no Brasil). No ano seguinte, voltei ao país pela terceira vez para reportagens sobre os preparativos de Obama para o fim da guerra, mas testemunhei no lugar disso a maior ofensiva do Taleban desde o início da invasão americana contra Cabul, que se estendeu por 18 horas, tendo entre os alvos a base de treinamento militar onde eu fazia uma entrevista. 

Na contramão de avanços lentos e da escalada militar (a primeira medida de Obama após tomar posse foi enviar 30 mil soldados ao país), os terroristas estavam mais perto do que nunca.

A História demonstra que é mais fácil entrar em uma guerra do que sair, como disse Obama ao declarar oficialmente o fim da guerra em dezembro de 2014 – um ano depois, parte do contingente estava de volta. No dia 7, o porta-voz das forças militares americanas em Cabul anunciou o retorno de 300 fuzileiros para lutar contra nova insurgência do Taleban na Província de Helmand, segundo o New York Times.

Obama deixará a Casa Branca, no dia 20, como o presidente no comando de guerras por mais tempo do que qualquer outro antecessor, legado improvável para um Nobel da Paz, prêmio que recebeu em 2009 menos por ações concretas do que pelo discurso pacifista e as promessas. Ele atravessou dois mandatos tentando cumpri-las, mas foi frequentemente arrastado de volta às zonas de combate pelo caos deixado por Bush em Afeganistão e Iraque.

Em 2011, Obama anunciou a retirada dos últimos soldados do Iraque. Menos de três anos depois, os EUA estavam de volta para lutar contra o Estado Islâmico. O presidente retirou das linhas de combate milhares de soldados americanos e expandiu operações secretas e o uso de drones em dezenas de países, como Paquistão, Somália, Iêmen e Líbia, sem que o Congresso tivesse declarado guerra oficialmente. 

Por isso – porque é mais fácil entrar do que sair das guerras, que matam milhões de inocentes, têm impacto na economia global, servem de combustível para populistas radicais e fazem do mundo um lugar menos seguro –, preocupa a nomeação de tantos veteranos e magnatas conservadores pró-guerras pelo presidente eleito, Donald Trump.

Como em outras áreas, Trump fez declarações contraditórias sobre suas posições como comandantechefe das Forças Armadas. Ele adiciona imprevisibilidade e obscuridade a uma nova ordem mundial de conflitos secretos, operações militares não declaradas, execuções sumárias e prisões arbitrárias. Obama não conseguiu cumprir a promessa de fechar Guantánamo. Trump a herdará com menos presos, mas com o poder de voltar a lotar suas celas. 

O legado de Obama soma grandes vitórias políticas, como garantir acesso de 20 milhões de americanos à saúde ou a aprovação do casamento gay na Suprema Corte, e feitos históricos em política externa, como a reaproximação com Cuba e o acordo nuclear com Irã. Sob sua gestão, milhões acreditaram que “sim, nós podemos”. Mas a paz continua sendo uma miragem.

 

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