Obama e as lições do verdadeiro jogo de golfe

Presidente deve aproveitar as férias e, durante as partidas, assimilar a regra de que não se pode jogar simplesmente para não perder, esperando que o adversário cometa um erro

Thomas L. Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2011 | 00h00

Apesar das críticas feitas a Barack Obama, fico feliz que o presidente tenha saído de férias, pois uma das coisas mais úteis que ele poderia fazer no momento é jogar golfe. Mas não aquelas partidas amigáveis entre quatro jogadores escolhidos entre seus assessores, como Obama está habituado a fazer. O que o presidente precisa é jogar golfe de verdade: na modalidade "match play", um contra um, apostando dinheiro de verdade. O golfe "match play" é um grande professor. Como qualquer bom golfista pode afirmar, a primeira regra do "match play" é a seguinte: nunca jogue simplesmente para não perder. Não espere nem torça para que seu adversário cometa um erro. Sempre jogue cada buraco, sempre jogue para vencer e sempre imagine que o adversário vai jogar bem - vai acertar aquela tacada distante -, coisa que o obrigará a jogar melhor.

Já faz meses que Obama tem jogado simplesmente para não perder, mantendo vagos os próprios planos para uma "grande barganha" envolvendo a dívida, os déficits, os impostos, os empregos e o investimento, enquanto os republicanos diziam coisas cada vez mais absurdas - como a promessa do retorno do preço da gasolina ao patamar de US$ 0,50 o litro, ou a insistência de que a mudança climática teria sido inventada pelos cientistas com o objetivo de garantir recursos para suas pesquisas, ou que o Texas teria o direito à secessão. Mas, apesar da cooperação dos candidatos republicanos, que têm agraciado o presidente ao dizer todo tipo de loucura, isso não ajudou a situação de Obama nas pesquisas de opinião.

Muitos americanos percebem que a maioria dos candidatos republicanos se assemelha mais a astros da luta livre do que a políticos - com seus golpes tão pirotécnicos quanto falsos e suas bravatas vazias contra Obama. A única coisa que ainda falta a eles são as fantasias de Tarzan.

Estamos vivendo na temporada da tolice. Mas eu não apostaria na incapacidade dos republicanos de apresentar candidatos mais adequados no momento mais importante, nem na impossibilidade de que alguns destes candidatos deixem para trás tanto radicalismo. Prefiro imaginar que o desempenho deles será melhor.

É por isso que os últimos meses foram tão preocupantes para os partidários de Obama. O presidente surpreendeu a todos ao apresentar, durante a negociação do endividamento, a ideia de uma "grande barganha" - cerca de US$ 3 trilhões em cortes nos gastos no decorrer da próxima década e US$ 1 trilhão em aumentos nos impostos - como um sinal ao mercado de que os americanos estavam restaurando a ordem fiscal.

Essa era, sem dúvida, a ideia correta - desde que fosse complementada com investimentos na infraestrutura, educação e pesquisa -, mas o presidente da Câmara, John Boehner, não foi capaz de garantir o apoio dos republicanos - liderados pelo movimento Tea Party - ao acordo.

Explicações. Mas, em vez de explicar detalhadamente essa grande barganha e apresentá-la adequadamente ao público - permitindo que cada americano compreendesse que o presidente tinha um plano, mas os republicanos não estavam fazendo a sua parte -, Obama deixou o assunto morrer. Será que ele ao menos tentou explicar em algum momento os pontos específicos da sua grande barganha e o motivo pelo qual ela seria a única saída? Não.

Isso deixou seus aliados imaginando se Obama estava de fato comprometido com o plano - e se ele teria de fato convencido seu partido a apoiá-lo. Deixou também seus adversários em êxtase, com a possibilidade de definir eles mesmos a pauta a partir de agora.

Foi por isso que a recente turnê de ônibus de Obama foi um fracasso. As pessoas não querem mais celebrar apenas o homem. O que o eleitor quer é festejar um homem e o seu plano - um plano de verdade, e não um conjunto de táticas e generalidades que conseguiriam reelegê-lo, sem nenhum poder real para fazer aquilo que precisa ser feito para consertar o país agora.

Sem trazer à mesa sua própria grande barganha, Obama foi obrigado a jogar na defensiva, tentando obter o menos pior dentre os acordos possíveis, ou jogando simplesmente para não perder.

Obama é inteligente, decente e durão, e conta exatamente com os instintos certos para saber qual a direção que o país deve seguir. Suas realizações são muito mais numerosas do que aquelas pelas quais ele recebeu o crédito - diante de uma oposição dedicada a fazê-lo fracassar. Mas, ultimamente, ele se tem mostrado muito mal no jogo. Obama é um Tiger Woods - um talento natural que parece estar em má fase. Há tantas pessoas sussurrando sobre o que dizem as pesquisas de opinião e como ele deve se posicionar para ser reeleito, que Obama perdeu seu instinto natural para o jogo político. Ele precisa retomar alguns fundamentos.

É uma loucura o que está ocorrendo nos EUA: temos uma crise econômica e os políticos estão pensando nas eleições - e parece não haver muita sobreposição entre as duas questões. O presidente precisa juntar esses pontos. Mas isso só vai ocorrer se ele parar de jogar simplesmente para não perder e começar a apostar todas as suas fichas. Nossos problemas não são insolúveis. Tudo que precisamos é uma grande barganha - na qual cada um dos lados faça concessões em relação aos gastos, aos impostos e aos novos investimentos -, e então começaremos a sair dessa.

Faça sua campanha com base nisso, Obama: na melhor das hipóteses, isso produzirá pressão pública em volume suficiente para constranger os republicanos ao ponto de eles se unirem ao presidente, e então conseguiremos um acordo; na pior das hipóteses, sua campanha para 2012 será erguida em torno de uma plataforma que, no caso da sua vitória, irá de fato conceder-lhe a legitimidade e o poder necessários para promover a mudança de que o país necessita. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA E ESCRITOR

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