Obama e Bush dividem culpa por crise

Mesmo trabalhador demitido evita responsabilizar Obama, enquanto eleitores de Romney consideram que presidente agravou situação

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL, MADISON, WISCONSIN, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2012 | 03h06

Zebulun Miks, um negro de 39 anos, trabalhava em uma lanchonete do McDonald's de Madison, capital de Wisconsin. Quando o repórter o encontrou no centro da cidade, fazia duas semanas que ele tinha sido demitido. "Foi por causa da crise econômica", explicou. À pergunta sobre se culpava o presidente, Miks respondeu: "Não foi Obama que me demitiu. Foi pelo tempo de serviço."

"Obama está tentando ajudar a classe média e os pobres, fazer algo pela comunidade", continuou Miks, em uma praça com moradores de rua e da periferia, todos negros. "Se Obama não se reeleger, vai haver guerra." Para ele, Mitt Romney e seu candidato a vice, Paul Ryan, que é de Wisconsin, vão cortar benefícios para aposentados e para famílias de adolescentes pobres.

O deputado Ryan é conhecido por sua luta em favor de menos impostos e gastos. Sua proposta de orçamento para 2013 reduzia a arrecadação em US$ 2 trilhões em relação à de Obama na próxima década, e cortava os gastos em US$ 5,3 trilhões, incluindo saúde e benefícios para os pobres.

Que há uma grave crise econômica nos Estados Unidos nem Obama ignora. Mas a história de Miks mostra que, mais importante do que o impacto da crise sobre o eleitor, é qual governo ele responsabiliza por ela - o de George W. Bush ou o de Obama. As identificações e preferências pessoais são, por isso, tão ou mais importantes do que a situação concreta das pessoas.

Las Vegas foi uma das cidades dos Estados Unidos mais atingidas pela crise econômica. De acordo com David Damore, pesquisador da Universidade de Nevada, os turistas americanos continuaram vindo para seus hotéis-cassinos, mas gastam menos que antes. A construção civil parou. Cinco esqueletos de hotéis e shopping centers na Las Vegas Boulevard South, a mais badalada avenida dos cassinos, conhecida como The Strip, são uma espécie de memorial da crise. No entanto, na periferia norte de Las Vegas, que fornece mão de obra para a construção civil e para o turismo, o repórter não encontrou nenhum eleitor de Romney.

Em Madison, há muitos grupos de eleitores que tendem a identificar-se com os democratas, analisa David Canon, cientista político da Universidade de Wisconsin: os trabalhadores sindicalizados da indústria Kraft Foods, com sede na cidade; os funcionários do governo; os professores e estudantes universitários; os profissionais altamente qualificados dos parques tecnológicos; e os pobres, negros e latinos da periferia sul. Já os republicanos se concentram nas ricas zonas rurais do Estado.

Na tarde de sábado, esse mosaico desfila pela State Street, um calçadão no centro da cidade. "Votei em John McCain em 2008, porque ele parecia mais 'presidencial' e gosto do estilo mais duro dele, contra discursos sem sentido", diz Mark Riggle, um gerente de vendas de 51 anos. "Mas em retrospecto estou contente de ele não ter entrado. Acho que Obama está fazendo o melhor que pode, com o que recebeu. Ele ficou com a chave do Titanic e não afundou ainda. A economia vai levar de 10 a 15 anos para se recuperar."

Desconfiança. Henry Janisch, um veterano das guerras do Afeganistão e do Iraque de 33 anos, votou em Obama um pouco desconfiado. "Ele fez muito boas promessas, e um trabalho bem melhor do que imaginei que faria", disse Janisch, estudante de relações internacionais. "A economia parecia estar caminhando inevitavelmente para um colapso absoluto. O fato de que não isso não se confirmou fala muito em favor dele, que enfrentou um Legislativo contra ele."

Basta cruzar para o outro lado do calçadão, para ouvir a leitura oposta. "Acho a situação deplorável", avalia o aposentado Tom Grantz, de 68 anos, ex-diretor de uma editora, que mora em Hatfield, cidade de 5 mil habitantes a 3 horas de Madison. "Como pode uma pessoa sentada no gabinete presidencial com o poder que ele tem deixar o país numa calamidade como essa? Olhe para o relógio do déficit. Não tem saída. Estamos quebrados e nem sabemos o quanto."

"O presidente nos colocou na pior situação e fica culpando o anterior", critica sua mulher, Dorothy, de 65 anos, "Pode até ser. Mas não o vi fazer nada para melhorar a situação." Dorothy conta que normalmente vota nos republicanos, porque com as políticas deles consegue "as melhores deduções de imposto de renda" para seus clientes.

Os eleitores de Romney não negam que Obama herdou uma crise de Bush. Mas, analisa Andrea Nelson, de 41 anos, dona de uma corretora de seguros: "As coisas não melhoraram no ritmo e nível que poderiam ter melhorado se a estratégia econômica certa tivesse sido adotada."

Jerry Smythe espalhou placas de Mitt Romney e de Paul Ryan no gramado de sua casa em Janesville, a cidade do deputado republicano e candidato a vice. "Paul sabe muito mais do que a maioria daquelas pessoas em Washington sobre o que está acontecendo, o que fez a América grande e o que fará de novo", afirma Smythe, de 60 anos, que se aposentou precocemente em 2002 (no governo George W. Bush), quando a General Motors encerrou uma linha de produção de caminhonetes da qual era gerente em Janesville. Há três anos, a fábrica da GM fechou por completo.

"O país está indo na direção errada", considera Curt Goodwick, de 45 anos, instalador de uma empresa de telefonia, que também tem uma placa de Ryan no jardim. "Temos de tirar o governo das nossas vidas o máximo que pudermos. O sonho americano não é um programa de governo."

Mas nem todos os eleitores de Janesville apoiam seu conterrâneo. Betty Vandebilt, de 75 anos, aposentada que trabalha meio período como embaladora de produtos farmacêuticos, mora em frente à casa de Goodwick e vai votar em Obama: "Não gosto de Romney e de toda a sua linha em favor dos grandes negócios. Ele é para os ricos. E não sou rica."

"Olhei algumas coisas que o Romney diz e realmente não parece que são para mim", constata Tayla Beall, de 24 anos, passeando com um carrinho de bebê. "Estou abaixo da linha da pobreza. Tenho de me preocupar com meus dois filhos", diz Tayla, que cuida da casa, enquanto seu noivo trabalha numa fábrica.

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