Obama e o novo ''Pacto com as Américas''

Por um breve momento, na manhã do dia 11 de setembro de 2001 estava tudo bem no Hemisfério Ocidental. O então secretário de Estado americano, Colin Powell, acordara cedo e seguira para o centro de Lima para um encontro da Organização dos Estados Americanos.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

Na agenda: o texto final de uma nova Convenção das Américas. "Os povos da América têm direito à democracia e seus governos têm a obrigação de defendê-la e promovê-la", declarava a Carta Democrática Interamericana.

O restante, já se sabe. Horas depois, ruíram as torres gêmeas de Manhattan e, com elas, o mundo como nós o conhecíamos.

O general Powell até que assinou a Carta e retornou a Washington, onde as autoridades logo se viram tragadas pela guerra global contra o terrorismo, muito longe daqui.

Desde então, os sócios do condomínio americano ensaiam retomar a conversa, mas sem grande entusiasmo ou empenho.

Por isso a visita do presidente americano, Barack Obama, no próximo mês de março ao Brasil, Chile e El Salvador é oportuna. Pois é a chance de ressuscitar os projetos engavetados - de tratados de livre comércio ao mutirão para a nova arquitetura financeira mundial - que podem juntar os vizinhos distantes e, quem sabe, reeditar o Pacto pelas Américas. Ou não.

Se América Latina e Washington ainda se estranham, melhor para Pequim.

A história já dura uma década. As trocas comerciais entre China e as economias latino-americanas aumentaram quase dez vezes - de US$ 9,5 bilhões, em 2000, para US$ 86 bilhões, em 2009, o último ano contabilizado.

A China em 2009 ultrapassou os Estados Unidos para se tornar o primeiro parceiro comercial do Brasil e do Chile e deve desbancar a União Europeia da segunda posição em comércio regional até 2015.

Ao mesmo tempo em que a China costura importantes acordos comerciais pela região, outros de bom porte se atolam em Washington.

"Canal seco". O caso mais emblemático é da Colômbia, o maior aliado americano no hemisfério, que espera a aprovação do acordo negociado em 2006 - em vão. Mas se a ponte histórica entre as Américas dá sinais de que se deteriora, uma nova se ergue na direção do Oriente.

Ou será um canal? Na semana passada, o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, descortinou um projeto graúdo, um "game change" (lance de virar o jogo) como diriam os comentaristas esportivos americanos. A rigor, é só uma grande longa ferrovia, mas já foi batizado de o Canal de Panamá seco.

A ferrovia deve cortar Colômbia do leste ao oeste, ligando o Caribe ao Pacífico, uma rota que poderia ser uma poderosa rival do Canal do Panamá - o verdadeiro.

Mais uma promessa exagerada? "As negociações estão bem avançadas", anunciou o presidente colombiano, em entrevista ao jornal Financial Times. É um negócio de $7,6 bilhões e será custeado pelo Banco de Desenvolvimento da China. Para os novos parceiros, faz todo o sentido. Para alimentar a indústria, a China quer garantir o acesso a recursos naturais e sobretudo energéticos, como o carvão colombiano, o melhor minério do mercado.

A Colômbia, por seu lado, quer lenha para a sua economia, cotada para crescer algo ao redor dos 5% neste ano e no próximo. O "canal" ligaria a ambição chinesa à necessidade colombiana.

Pode não ser um golpe fatal à hegemonia dos Estados Unidos, que está bancando uma expansão do Canal do Panamá para comportar navios maiores. Com a reforma, um único supercargueiro faria o trabalho de 20 a 30 trens na ferrovia. Tampouco significa que a Colômbia se entregou ao canto do Oriente.

Pelas indiscrições do WikiLeaks, sabemos que Bogotá ainda nutre forte desconfiança em relação a Pequim, e receia ser "pisoteado" pelo dragão asiático, "tal qual os africanos e venezuelanos".

Mas o simbolismo é inconfundível. A ideia de rasgar um caminho pelo istmo da América Central atiçou as grandes potências desde o século 16. Os franceses tentaram e acabaram enterrando 22 mil mortos nas selvas da América Central e de quebra quase arruinou a economia.

O canal só se concretizou pelo pulso de Theodore Roosevelt que gastou 13 anos e uma fortuna na aventura. Era a maior obra de engenharia do mundo na época e a epopeia da sua construção se confunde com a da ascensão da pax americana, o grande império que dominaria os mares e terras do hemisfério - e do mundo - no século seguinte.

Esse domínio agora está em xeque. Os latinos, com suas economias em alta, estão buscando onde podem oportunidades e sócios, sem contrato de fidelidade. "A Ásia é o novo motor da economia mundial", explicou o presidente Santos. Enquanto Obama procura a agenda perdida, a epopeia chinesa no hemisfério americano está só começando.

É COLUNISTA DO "ESTADO", CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK" NO BRASIL E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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