Obama e Romney discutem Oriente Médio e China

Em um debate sobre política externa que envolveu a discussão dos gastos militares e ataques às práticas comerciais da China, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e seu rival republicano Mitt Romney fecharam o terceiro e último confronto televisionado na noite da segunda-feira, na Universidade Lynn em Boca Ratón (Flórida), antes das eleições de 6 de novembro. Obama foi mais agressivo, enquanto Romney parecia se conter, mas definiu a política do presidente para o Oriente Médio como um fracasso. Romney indicou que poderá aumentar os gastos militares, embora tenha descartado novas guerras. A América Latina foi pouco citada e apenas como uma "oportunidade econômica" por Romney. Obama lembrou o que chamou de "sucesso" na política externa da sua administração: a morte de Osama bin Laden, a chamada "Primavera Árabe" e a retirada das tropas norte-americanas do Iraque. Romney tentou trazer questões da economia, como o desemprego, para o debate.

GUILHERME AMORIM E ANDRÉ LACHINI (AE), Agência Estado

23 de outubro de 2012 | 01h40

Obama partiu para o ataque a Romney na primeira questão, que era sobre a Líbia e a morte do embaixador Christopher Stevens em 11 de setembro. O presidente disse que os EUA caçarão os responsáveis pelo assassinato do diplomata. Mas após Romney ter dito que a rede terrorista Al-Qaeda ainda era uma ameaça, Obama disse que estava "feliz" que Romney tenha reconhecido que a Al-Qaeda, e não a Rússia, é a maior ameaça atualmente aos EUA.

"Fico feliz que o senhor reconheça, governador Romney, que a maior ameaça hoje à América seja a Al-Qaeda. Há alguns meses, o senhor disse que a maior ameaça era a Rússia", disse Obama. "Você está não apenas errado, mas também confuso", disse Obama.

Segundo ele, se dependesse de Romney, os EUA ainda teriam soldados no Iraque. Obama defendeu a retirada das tropas americanas do Iraque, que ele completou. Romney respondeu dizendo que se referia à Rússia como um "rival geopolítico" e não como um inimigo.

Romney começou dizendo que não quer repetir "outro Iraque ou Afeganistão", tentando rechaçar a visão de que os republicanos gostariam de outra guerra. Ele disse que sua estratégia será incentivar os muçulmanos a "rejeitarem o extremismo por conta própria." O republicano afirmou que, após a "Primavera Árabe", a situação está se deteriorando rapidamente no Oriente Médio e que parte disso é culpa da administração Obama. "Nação após nação, presenciamos uma série de eventos perturbadores", afirmou ele, citando a guerra civil na Síria, o perigo do Irã obter uma arma atômica e a morte de Stevens na Líbia. "Minha estratégia é ir atrás dos caras maus. Mas minha estratégia é também mais ampla", disse o republicano. Ele afirmou que a política de Obama se restringe a matar os líderes terroristas e não promove a democracia no mundo.

Romney afirmou que, sob sua liderança, o envolvimento dos EUA na guerra civil síria seria provendo armas e apoio aos rebeldes que lutam para derrubar o regime do presidente Bashar Assad. "Nosso objetivo é tirar Assad e colocar um governo aliado - que tenha as armas necessárias para se defender", disse Romney. Obama defendeu a postura atual do governo dos EUA, de sanções econômicas ao governo sírio.

Os dois disseram que irão retirar as tropas dos EUA do Afeganistão até 2014. Nesse ponto, Romney, que fez fortes críticas ao Paquistão, foi questionado pelo mediador Bob Schieffer, da CBS, se iria "se divorciar" do governo paquistanês, como ameaçou.

Romney disse que não e lembrou que o Paquistão tem um arsenal nuclear e não pode ser abandonado. "Se o Paquistão virar um Estado falido, precisamos lembrar: existem armas nucleares. Mas as relações com o Paquistão estão estremecidas", disse Romney, que defendeu o apoio ao governo paquistanês.

Romney tentou passar uma imagem mais diplomática, mas foi ironizado por Obama. "Fico feliz que você agora apoie a diplomacia - não é o que fazia há alguns anos", disse Obama, que defendeu a atuação dos fuzileiros navais na morte de Osama bin Laden no Paquistão em 2011. "Em 2008, o sr. questionou: devemos percorrer a Terra atrás de um homem?" disse Obama a Romney.

Romney defendeu a modernização da Marinha e da Força Aérea e sugeriu que gastará mais nas armas. Ele disse que cortará o orçamento do governo em 5% mas evitou responder em quais setores fará as reduções, mesmo pressionado pelo mediador. Ele só disse que não cortará nenhum gasto na Defesa. Obama ironizou Romney em um certo momento, ao dizer que a questão é de estratégia e não um joguinho de "batalha naval". Obama descartou um corte de US$ 500 bilhões no orçamento militar, mas afirmou que "nem os militares" pedem um aumento nos gastos da Defesa.

China e América Latina - Romney comparou a China com a América Latina, ao dizer que a região tem uma economia "do tamanho da China" e representa "oportunidades enormes" para os EUA. O republicano não foi exato. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2011 o Produto Interno Bruto (PIB) da China foi de US$ 7,3 trilhões, enquanto o da América Latina foi de US$ 5,6 trilhões. Obama falou pouco sobre a região, e disse apenas que continuará com as atuais políticas para a América Latina, que é secundária para a política exterior dos EUA.

Os dois discutiram mais sobre a China. Romney disse que os chineses são manipulares da moeda para ganhar vantagens no comércio exterior. Obama acusou Romney de "exportar empregos" para a China, ao investir em empresas com fábricas na Ásia.

Romney chamou a China de "manipulador de câmbio" e afirmou que não se preocuparia em iniciar uma guerra comercial porque os dois países já possuem um enorme desequilíbrio comercial em favor dos chineses. O republicano afirmou que fará Pequim entender que "tem que seguir as regras do jogo". Ele disse que ao segurar artificialmente o preço de sua moeda, a China prejudica os trabalhadores norte-americanos.

Em seguida, Obama atacou o histórico do republicano como empresário, afirmando que ele investiu em empresas que transferiram vagas de trabalho para a China. Obama também disse que a China precisa jogar pelas mesmas regras que os outros países e lembrou de reclamações que os EUA fizeram na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra práticas comerciais de setores chineses, como na siderurgia.

No final, Obama disse que Romney quer trazer de volta tanto na política externa quanto na política econômica as práticas que fracassaram na era Bush. Obama prometeu uma "liderança forte" para os EUA. "Vou garantir que os empregos voltem para o nosso país", disse Obama. Romney disse que levará os EUA de volta à liderança mundial e adotou um tom messiânico: "Esta nação é a esperança da Terra".

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