Obama e um mundo do G-20

O grupo é muito mais apropriado do que o G-8 para as realidades econômica, política e cultural do século 21

Timothy Garton Ash, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2011 | 00h00

Em Dublin e Westminster, o presidente americano cantou uma velha canção familiar. Agora vamos ouvir a nova. O Ocidente está morto, longa vida ao Ocidente. Assim poderíamos resumir a mensagem da viagem de Barack Obama à Europa até agora - e o seu discurso principal no Westminster Hall.

Uma passagem eloquente sobre a diversidade bem integrada ser uma força tanto da sociedade americana quanto da britânica culminou na observação de que é por isso que "o neto de um queniano que foi cozinheiro no Exército britânico pode estar agora diante de vocês como o presidente dos EUA". Ela mereceu primeira e única salva espontânea de palmas dos parlamentares britânicos reunidos.

Mas a maior parte desse discurso bem arquitetado poderia ter sido proferida por qualquer presidente americano no último meio século. Além da importante declaração de que o anseio por liberdade e dignidade humana "não é britânico, americano, nem ocidental, é universal", o discurso em Westminster disse desoladoramente pouco sobre esse desdobramento central de nosso tempo.

A menos que todas as tendências atuais sejam revertidas, o século 21 verá um mundo cada vez mais pós-ocidental. China, Índia e Brasil mais cedo ou mais tarde serão mais poderosos e mais importantes para os EUA que Grã-Bretanha, França e Alemanha.

A tarefa de estadistas americanos e europeus é construir um velho Ocidente revitalizado, um pouco aumentado, num arcabouço mais amplo de ordem internacional. Essa é uma tarefa para a qual Obama é particularmente adequado.

Um dos poucos elementos institucionais que temos para essa transição é o grupo do G-20, que inclui as grandes potências não ocidentais emergentes e surgiu na crise financeira global. O G-8 é uma sobrevivência anacrônica do velho Ocidente da Guerra Fria. Ele se originou em reuniões de ministros de Finanças e líderes nacionais de sete economias ocidentais desenvolvidas nos anos 70.

Se o G-8 não existisse hoje, ninguém sonharia em inventá-lo. O G-20 é um agrupamento muito mais apropriado para as realidades econômica, política e cultural do século 21. Todos os esforços da liderança ocidental ou pós-ocidental deveriam ser dedicados a fazê-lo funcionar melhor. A melhor maneira de começar seria abolindo o G-8, e Obama terá a oportunidade de fazer precisamente isso.

No próximo ano, os EUA deverão supostamente receber o G-8 enquanto o México deverá receber o G-20. Todos os esforços poderiam se concentrar então em tornar o G-20 mais sério e eficaz do que ele é hoje.

Todo aquele que abolir um comitê ou uma instituição inútil devia receber uma medalha. Mais amplamente, este presidente americano está qualificado como ninguém antes dele para avançar da noção obsoleta de Guerra Fria de "líder do mundo livre" para ser o líder de um movimento para um mundo livre.

A oportunidade faz o homem. Neste caso, temos ambos. Eles só precisam ser reunidos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE DE OXFORD E ESCRITOR

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