Pete Souza/White House
Pete Souza/White House

Obama em altas horas da madrugada: o precioso tempo sozinho

Após o jantar, presidente americano se retira quase todas as noite em que está na Casa Branca para o 'Salão dos Tratados' onde trabalha em discursos, lê os resumos de jornais, lê dez cartas de cidadãos e organiza suas ideias

Michael D. Shear - The New York Times, O Estado de S. Paulo

05 Julho 2016 | 12h47

WASHINGTON - Os e-mails chegam tarde, muitas vezes depois de 1 da madrugada, mandados de um BlackBerry seguro de um endereço que poucos conhecem. Os fatigados destinatários sabem que, mais uma vez, o chefe ainda não foi para a cama.

As intervenções de fim de noite do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, podem vir sob a forma de perguntas incisivas a respeito de memorandos que ele leu. Ou, às vezes, como provocações sobre a derrota do time do destinatário.

No mês passado chegaram e-mails à meia-noite e meia para Benjamin J. Rhodes, vice-conselheiro de segurança nacional, e para Denis R. McDonough, chefe de gabinete da Casa Branca. O presidente informava que reescrevera um esboço feito por um redator e o material deveria ser divulgado naquela manhã. Obama gastara três horas escrevendo à mão num bloco amarelo uma irada condenação à resposta de Donald J. Trump sobre o ataque em Orlando, Flórida. Os auxiliares deviam pegar o texto quando chegassem à Casa Branca para o trabalho.

Obama se descreve como um “cara da noite” e, como presidente, passou a considerar suas longas e solitárias horas noturnas tão essenciais quanto o tempo em que despacha no Salão Oval. Quase todas as noites em que está na Casa Branca ele janta às 18h30 com a mulher e as filhas e depois se retira para seu escritório privado, o Treaty Room (“Salão dos Tratados”), também na parte residencial da Casa Branca.

Ali, dizem os auxiliares mais próximos, o presidente passa quatro ou cinco horas geralmente sozinho.  Trabalha, então, em discursos, lê os resumos de jornais feitos pela secretária, lê dez cartas de cidadãos selecionadas a cada dia por sua equipe. “Por que permitimos a civis comprar armas automáticas? São armas de guerra”, escreveu Liz O’Connor, professora do segundo grau em Connecticut, numa carta lida por Obama na noite de 13 de junho.

O presidente também assiste ao canal ESPN, lê romances ou joga “Words With Friends” em seu iPad. Michelle Obama às vezes dá as caras, mas ela deita antes do presidente. Ele fica acordado até tão tarde que mal consegue dormir cinco horas por noite. Para Obama, o tempo sozinho se tornou mais importante que o sono.

“Todo mundo arranja um momento para pôr os pensamentos em ordem. Não há dúvida de que aquelas horas noturnas são os seus momentos”, diz Rahm Emanuel, primeiro chefe de gabinete de Obama. “Não dá para separar meia hora durante o dia para fazer isso. Há muita coisa acontecendo. Ali no Treaty Room é onde ele pode deixar tudo de lado e trabalhar nas ideias.”

O presidente George W. Bush levantava cedo, mas estava na cama às 22 horas. Bill Clinton dormia tarde, como Obama, mas gastava o tempo noturno em longas e descontraídas conversas com amigos e aliados políticos, dando trabalho aos funcionários para rastrear com quem o presidente havia falado na noite anterior.

“Alguns presidentes precisam da energia que recebem em contato com as pessoas”, diz a historiadora Doris Kearns Goodwin, que jantou muitas vezes com Obama nos últimos sete anos e meio. “Mas ele parece estar à vontade consigo mesmo.”

‘Papelada insana’. Quando Obama chegou pela primeira vez à Casa Branca, sua rotina pós-jantar começava às 19h15 na sala de jogos, no terceiro andar da ala residencial. Numa velha mesa de sinuca Brunswick, ele e o então chef encarregado da cozinha da família passavam 45 minutos jogando “bola 8”.

Kass diz que a sinuca era um momento para Obama relaxar após um dia intenso no Salão Oval. Os dois adversários mantinham um placar em aberto no qual Obama estava “um pouco na frente”. O mestre cuca deixou a Casa Branca em 2014. 

Na época, depois de jogar sinuca o presidente punha as filhas na cama. Agora que as duas são adolescentes ele vai diretamente para o Treaty Room, assim chamado por causa dos muitos documentos históricas ali assinados, entre eles o protocolo de paz que pôs fim à Guerra Hispano-Americana de 1898. “O canal de esportes ficava ligado, sem som”, lembra Rahm Emanuel. Os Obama também são fãs de séries de TV como Boardwalk Empire, Game of Thrones e Breaking Bad.

Às 8 horas, um contínuo leva ao presidente o alentado resumo das notícias do dia, acompanhado de uma pilha de memorandos e documentos dos vários setores do governo, todos pedindo a atenção do presidente. “Uma quantidade insana de papéis”, diz Kass.

Obama geralmente lê tudo, à noite, em sua escrivaninha sob o retrato do presidente Ulysses S. Grant. Algumas vezes o presidente se senta no sofá debaixo da tela "Butterfly", de Susan Rothenberg. “Ele não deixa de ler nenhum papel que recebe”, diz Tom Donilon, conselheiro de segurança nacional de 2010 a 2013. “De manhã, lá estão anotações, perguntas, decisões.”

Sete amêndoas. Para ficar acordado, o presidente não recorre à cafeína. Ele raramente toma café ou chá e prefere água a soda. Segundo amigos, a única coisa que come à noite são sete amêndoas levemente salgadas. “Michelle e eu brincávamos: nem seis nem oito, têm de ser sete”, lembra Kass.

Assuntos importantes do dia às vezes invadem as noites de Obama. Uma foto de 2011 mostra o presidente no Treaty Room com McDonough, então vice-conselheiro de segurança nacional, e John O. Brennan, então chefe de contraterrorismo e hoje diretor da CIA. Obama acabara de dar um telefonema ao primeiro-ministro do Japão Naoto Kan, logo após o Japão ser atingido por um devastador terremoto de magnitude 9. “O telefonema foi perto de meia-noite”, diz a legenda da foto.

Geralmente, porém, o tempo de Obama no Treaty Room é só dele. “Leio briefings, avalio papéis ou escrevo até por volta de 23h30, e aí leio por meia hora antes de ir para a cama, por volta de meia-noite, meia-noite e meia, às vezes um pouco mais tarde”, informou Obama a Jon Meacham, editor de Newsweek, em 2009. 

Em 2014, o presidente disse a Kelly Ripa e Michael Strahan, do programa Live With Kelly e Michael, da rede ABC de TV, que estava se recolhendo mais tarde - “fico até 2 da manhã lendo resumos e trabalhando”. E acrescentou que se levantava “numa hora bem razoável”, por volta das 7.

Uma noite, há um ano, Cody Keenan, principal redator de discursos de Obama, tinha acabado de chegar em casa do trabalho e pedido uma pizza. Eram 21 horas. Recebeu então um telefonema do presidente: “Você pode voltar aqui mais tarde?”.

Diversão, também. Nem tudo que acontece no Treaty Room é trabalho. Além de jogar Words With Friends, uma espécie de caça-palavras online, Obama assiste a grandes jogos pela TV. “Se estiver vendo um jogo, ele manda mensagens: ‘Duke merecia ganhar esse’, ou algo assim”, diz Reggie Love ex-jogador do time de basquetebol Duke que foi assessor pessoal de Obama nos três primeiros anos de sua presidência. 

O presidente também dá uma olhada nas notícias online do New York Times, Washington Post e Wall Street Journal. Love lembra de um e-mail recebido por volta da 1 da manhã, depois de Obama ter visto uma reportagem na TV sobre uma “lista de coisas que queremos fazer” de estudantes que incluía encontrar o presidente. Obama quis saber por que não houve o encontro. “Alguém decidiu que não era uma boa ideia”, eu disse. “Bem, eu sou o presidente e acho uma boa ideia”, respondeu Obama.

Também há momentos de fantasiar como seria a vida fora da Casa Branca. Emanuel conta que ele e Obama uma vez “sonharam” em se mudar para o Havaí e abrir uma barraca de venda de camisetas. Todas as camisetas seriam de tamanho médio e todas brancas. Por que do mesmo tamanho e brancas? Para não terem mais de tomar decisões. / NYT

* TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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