'Obama encontrou em Dilma parceira pronta a elevar laços a um novo status'

Para diplomata, novo secretário de Estado dará 'mais um salto qualitativo', após melhora nas relações bilaterais

Entrevista com

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2013 | 02h07

Depois de um período de "diferenças" entre Washington e Brasília no governo Luiz Inácio Lula da Silva, Hillary Clinton entregou na semana passada ao novo secretário de Estado, John Kerry, uma relação bilateral "elevada a um novo status", afirma o embaixador americano em Brasília, Thomas Shannon. "E Kerry partirá desse nível alcançado para dar mais um salto qualitativo", completa.

Diplomata de carreira veterano em assuntos latino-americanos, ele nega que o ex-senador seja desinteressado pelos vizinhos ao sul do Rio Grande - "no Senado, Kerry teve de dedicar atenção especial a temas como Iraque e Afeganistão". Shannon garante ainda que seu novo chefe "compreende profundamente" a importância da emergência do Brasil, a qual o embaixador qualifica de "um dos acontecimentos mais importantes do início do século 21". Mas em temas como a presença brasileira no Conselho de Segurança da ONU ou na direção da OMC, não há sinais de mudança em Washington.

Shannon deixará Brasília no meio do ano, mas diz não saber ainda seu próximo destino - ele já ocupou o terceiro posto do Departamento de Estado e a chefia da divisão de América Latina. A seguir, a conversa com o Estado.

À frente do Departamento de Estado, Hillary conviveu com presidente Luiz Inácio Lula da Silva em segundo mandato - quando a relação bilateral foi marcada por temas como Irã, Honduras, bases na Colômbia - e, agora, com os primeiros anos de Dilma. Quais foram as causas da melhora na relação?

As relações entre os EUA e o Brasil estavam em uma trajetória positiva (no governo Lula). Havia diferenças: a questão do Irã era uma discórdia muito relevante. Mas sempre existiu um compromisso de ambos os lados em procurar a melhor relação possível. A secretária (Hillary) Clinton, seguindo a diretriz do presidente Barack Obama de reforçar os laços com o Brasil, realmente encontrou na presidente Dilma e no ministro (Antonio) Patriota parceiros prontos para elevar a relação a um outro status. Ou seja, houve o reconhecimento de um potencial que era pouco aproveitado entre os dois países. Estou certo de que o período em que Clinton chefiou o Departamento de Estado será lembrado como um momento de avanço e consolidação da nossa relação com o Brasil. O secretário Kerry partirá desse novo nível alcançado para dar outro salto qualitativo.

E o que muda, objetivamente, com Kerry para o Brasil? Será só uma questão de estilo?

Lembre-se que o presidente Obama permanecerá no cargo (risos) e é ele quem determina o norte de nossa política exterior. Mas Kerry tem um status político muito alto: foi candidato presidencial, senador por muito tempo e presidente da comissão de Relações Exteriores do Senado, veterano da Guerra do Vietnã. Enfim, tem muita experiência. Kerry manifesta também um imenso interesse no Brasil e, do outro lado, acho que existe uma vontade do governo brasileiro em criar canais firmes de diálogo com ele.

Kerry já falou com Patriota desde que foi nomeado secretário?

Ainda não. O ministro Patriota falou com a secretária Clinton pouco antes de ela deixar o cargo. O chanceler brasileiro disse que gostaria de ter com Kerry a boa relação que tinha com ela, que respondeu positivamente.

Diplomatas latino-americanos reclamam, nos bastidores, que Kerry na Comissão de Relações Exteriores foi "distante" da região. Em sua confirmação com secretário, o Brasil foi citado só uma vez, ao falar de cooperação energética. Como o sr. vê isso?

Isso tem a ver com as circunstâncias de seu trabalho no Senado. Temas como Iraque, Afeganistão e Paquistão tinham alto perfil e ele, como presidente da comissão, tinha de dedicar atenção especial a eles. Mas isso não quer dizer que ele não reconheça a importância do Brasil e da América Latina - diria que ele a compreende profundamente. Diante da maneira como o Brasil já emergiu no mundo, é impossível pensar em ignorá-lo. Ao contrário, é consenso no Departamento de Estado que é preciso criar firmes laços com o Brasil. Somos parceiros inevitáveis.

Sobre essa emergência brasileira, os EUA muitas vezes parecem emitir sinais ambíguos. Em relatórios de inteligência, o Brasil costuma figurar ao lado de países como a Indonésia, e não da China ou da Rússia. A visita de Dilma aos EUA não recebeu o mesmo status que a do premiê indiano, Manmohan Singh. E os EUA nunca apoiaram um assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Afinal, onde os EUA colocam o Brasil entre as potências emergentes?

Diria que, para os EUA, a emergência do Brasil no cenário global é um dos acontecimentos mais importantes do começo do século 21. China e Índia são países com grandes sociedades que, historicamente, já foram importantes. Em certo sentido, estão retomando um papel que tiveram século atrás. O caso do Brasil é totalmente novo. Trata-se de um país democrático, que respeita os direitos humanos e tem uma visão ocidental da relação entre o indivíduo e o Estado. É, na verdade, o único Brics ocidental. Então compartilhamos valores, maneiras de ver o mundo e nossas sociedades. A emergência do Brasil, para nós, é sumamente positiva.

Sobre Venezuela, a subsecretária dos EUA Roberta Jacobson conversou recentemente com o vice-presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e Washington parece estar se preparando para o "pós-Hugo Chávez". Como o sr. avalia a situação, incluindo a posição do Brasil?

É claro que o Brasil e os EUA estão conversando sobre o que está acontecendo na Venezuela. Como já falamos publicamente, a estabilidade política venezuelana é importante. Desejamos só o melhor para a saúde do presidente Chávez e a Venezuela deve usar sua Constituição para enfrentar esse problema de liderança política.

E o fato de Chávez não ter tomado posse, no dia 10, representa uma violação da Constituição?

Não vou comentar a Constituição da Venezuela. Sou embaixador no Brasil e deixo isso aos meus colegas em Washington, que podem definir melhor nossa política para Caracas. Mas temos muito respeito e interesse no povo venezuelano e na manutenção da Venezuela dentro da comunidade de países democráticos da região. Nesse sentido, brasileiros e americanos pensam de forma similar.

Brasil e EUA têm discórdias importantes na área de comércio. Como o sr. vê a candidatura do embaixador brasileiro Roberto Azevedo para o cargo de diretor da Organização Mundial do Comércio (OMC)? Washington pode vir a apoiá-lo?

O embaixador Azevedo é um excelente candidato. Ele é muito respeitado dentro da OMC e, sempre, nós damos as boas-vindas a candidatos de qualidade de todo mundo. Isso demonstra a importância da organização. E a decisão da presidente (Dilma) Rousseff de apresentar um candidato dessa qualidade é bem-vinda.

Mas quanto ao voto dos EUA a Azevedo...

Temos ainda mais alguns meses para ver quais são todos os candidatos e vamos aguardar para tomar nossa decisão. Mas posso lhe dizer que o governo dos EUA tem muito respeito pelo candidato brasileiro.

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