Obama enfrenta seu maior teste

Na volta do recesso legislativo, presidente tenta aprovar reforma da saúde, do sistema financeiro e lei climática

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Agosto em Washington é conhecido como um mês do cão: um calor insuportável em uma cidade construída sobre um pântano. Para o presidente Barack Obama, agosto foi um mês especialmente ruim. Sua proposta de reforma do sistema de saúde, prioridade doméstica deste ano, foi trucidada em assembleias de eleitores ao redor do país. No Afeganistão, a chamada "Guerra de Obama", 51 soldados americanos morreram, recorde desde o início do conflito, em 2001. Os dois temas derrubaram sua popularidade, que chegou a 50%, depois de um pico de 76%, em fevereiro.

Com o fim do recesso parlamentar, Obama pretende deixar agosto para trás e mergulhar nas iniciativas que espera concluir este ano. Para isso, fará na quarta-feira um discurso para o Congresso sobre a necessidade da reforma do sistema de saúde americano.

Discursos para as duas casas do Legislativo são raros e marcam momentos importantes. Bill Clinton fez um em 1993, também sobre a reforma do sistema de saúde, e George W. Bush fez outro após o 11 de Setembro.

A reforma de Clinton naufragou. Obama tenta evitar o paralelo com o ex-presidente, mas será necessário mais do que charme e oratória para acabar com seu "inferno astral". O presidente ainda enfrentará um caminho espinhoso em várias outras áreas, como na lei climática, na reforma do sistema financeiro, no orçamento e até na formação de sua equipe.

No debate sobre a saúde, Obama precisa conquistar os moderados sem decepcionar a esquerda. Para ganhar apoio de democratas moderados e, com sorte, um ou outro republicano, ele pretende tornar o seguro de saúde estatal uma opção: só será adotado se os planos privados não baixarem os preços ou não ampliarem a cobertura.

Resta saber se isso será suficiente para convencer os moderados, que criticam o preço do plano - US$ 1 trilhão. Ao mesmo tempo, não se sabe se a esquerda de seu partido aceitará a ausência do plano estatal, que desfiguraria a reforma e tiraria o interesse em sua aprovação.

A polêmica já fez uma vítima: a lei climática, cuja discussão no Senado foi adiada para o fim de setembro. Com isso, Obama pode se ver obrigado a chegar de mãos vazias à conferência sobre meio ambiente de Copenhagen, em dezembro, o que seria um enorme retrocesso para sua agenda ambiental.

A regulamentação do sistema financeiro também parece emperrada. O plano era o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, sentar-se à mesa da reunião do G-20, em Pittsburgh, nos dias 24 e 25, com pelo menos um projeto. Não se sabe se vai dar tempo.

Na economia, Casa Branca, Tesouro e Fed estão em uma encruzilhada: começam a combater o déficit monumental, para evitar uma inflação mais à frente, ou mantêm as medidas de emergência por medo de abortar a recuperação?

Em outra decisão dura, Obama terá de dizer, em janeiro, se deixará expirar o corte fiscal de George W. Bush. "Elevar os impostos será inevitável", diz Robert Reischhauer, presidente do Urban Institute e ex-diretor do Escritório Orçamentário do Congresso. "Os EUA estão totalmente dependentes da boa-vontade de países estrangeiros para financiar o déficit, mas isso não vai durar se os EUA não puserem as contas em ordem." Aumentar impostos no meio de uma recessão, porém, seria muito impopular.

Para completar, Obama está com a equipe desfalcada. Grande parte dos cargos de seu governo continuam desocupados porque os indicados não foram confirmados pelo Senado. Em setembro, volta a luta pelas confirmações. Os principais cargos para a América Latina e Brasil estão em jogo, como o do subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental, Arturo Valenzuela, e do embaixador no Brasil, Thomas Shannon.

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