Obama enfrenta trabalhos de Hércules

Com perfil de diplomata, presidente eleito tem no entusiasmo mundial uma oportunidade e um perigo

Gilles Lapouge*, O Estadao de S.Paulo

11 de novembro de 2008 | 00h00

Como diplomata, Barack Obama tem seus trunfos. Não terá necessidade de um "treinador" como alguns figurões mundiais, pois ele próprio é, por sua genealogia, um mapa-múndi. As canções de ninar que o embalaram quando bebê contaram as memórias de vários continentes. Elas lhe ensinaram o passado do Quênia, da Europa, do Oceano Pacífico e da América.Como também freqüentou universidades brilhantes, ele está bem equipado para enfrentar o desafio de contribuir para a história do mundo sem ofender sua geografia.Esses trunfos serão úteis, pois o trabalho que o espera é de Hércules. George W. Bush não deixa como herança apenas uma crise financeira. Ele acrescentou apêndices ao testamento: duas guerras, o desprezo de três quartos do mundo, um terrorismo islâmico robusto. Uma última desvantagem: o aparecimento dos Estados a que chamam de emergentes - China, Índia, Brasil, etc. Os EUA continuam sendo o país mais poderoso, mas o tempo de seu predomínio absoluto acabou. Não falemos em "fim dos EUA", mas em "lento declínio". Obama vai entrar num campo minado. Antes de tomar decisões de risco, ele faria bem em manifestar com gestos fortes e simbólicos que a América do desprezo, das besteiras e da tortura voltará para os bastidores.Richard Holbrooke, o arquiteto dos acordos de Dayton, em 1995, aconselha a Obama proibir a tortura e decretar o fechamento do centro de detenção de Guantánamo, essa ferida purulenta no flanco do mundo livre. "É uma obrigação absoluta", diz Holbrooke.E depois? Será preciso reformular a ação americana do Oriente Médio à Ásia Central. Obama terá de escolher novos caminhos. Mas é sabido que um navio precisa de muito tempo para mudar de curso. Por exemplo, apesar de Obama ter sido um dos únicos políticos americanos que votou contra a guerra do Iraque, ele não poderá dizer: "Essa guerra é estúpida. Portanto, eu a encerro." O Iraque está frangalhos. Muitos anos serão necessários para que os americanos possam deixá-lo se virar sozinho.De toda maneira, os soldados não voltariam para casa. Obama imaginou um plano estranho: transferir a força do Iraque, onde o perigo diminui, para o Afeganistão, onde ele aumenta. A idéia não é tola. O conjunto Afeganistão-Paquistão é o "perigo do mundo". O Ocidente empenha-se há oito anos para manter suas posições ali e corre o risco de ser tragado. O plano de Obama é legítimo. Mas será realista? Nenhum conquistador conseguiu submeter os camponeses das montanhas afegãs. Desta vez, esses camponeses têm dois aliados suplementares. O terror islâmico, que o Taleban e a Al-Qaeda alimentam, e o vizinho Paquistão. Embora Islamabad seja aliado do Ocidente, o povo paquistanês está impregnado de fanatismo islâmico. As zonas de fronteira são refúgios para os combatentes do Taleban. O Irã e o conflito israelense-palestino são outros nós difíceis de desatar. Obama parece imaginar discussões abertas com o Irã. Feliz idéia que, aliás, facilitaria indiretamente alguma tentativa de solução do conflito israelense-palestino.Depois, existem dois "gigantes" de aparência mais plácida, mas que observam com olhares cobiçosos as contorções dos EUA e não perderão a ocasião de feri-los. A China, que parecia bem disposta ante os EUA, mas que Bush conseguiu desencorajar; e a Rússia, menos dissimulada. Esta já anunciou o tom, desferindo no dia da eleição de Obama um golpe no projeto americano de um escudo antimísseis instalado na Europa, nas proximidades da Rússia.O presidente russo, Dmitri Medvedev, anunciou que pretende instalar mísseis no enclave russo de Kaliningrado. Obama ainda não é presidente, por isso não reagiu.A agenda diplomática de Obama está carregada enquanto ele está acuado pelo desastre econômico. Mas ele se beneficia da simpatia e do entusiasmo universais. Esse entusiasmo, porém, é um perigo. Se as esperanças forem frustradas, o "amor louco" será substituído com toda presteza por um "desamor" igualmente "louco".* Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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